9.0
Excelente
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Análise a ‘Better Call Saul’ – Temporada 4

Após uma espera de quatro temporadas, Better Call Saul regalou os fãs com o momento pelo qual tanto ansiavam. A alma de James ‘Jimmy’ McGill deixa o seu corpo para dar lugar a Saul Goodman, o manipulador advogado que se acumpliciou a Walter White em Breaking Bad.

A morte do seu irmão Chuck na conclusão da temporada anterior e a sua suspensão da atividade judicial foram dois dos principais fatores que catalisaram a sua transformação. Mesmo que não exponha o seu desânimo, Jimmy (Bob Odenkirk), está abatido interiormente ao ser forçado a procurar outros meios que o sustentem e que o ajudem a reaver a licença que perdera. Este interregno é fundamental no decurso da narrativa, pois leva o protagonista a assumir certos comportamentos característicos do pseudónimo Saul, ao estabelecer contacto com a vida criminal dos subúrbios de Albuquerque. O período da sua desvalorização pessoal ocorre simultaneamente com a ascensão da sua companheira Kim (Rhea Seehorn). Agora com uma carreira de sucesso, começa a sentir um desencantamento por Jimmy, face aos seus percursos em direções opostas. No entanto, é um distanciamento que não é capaz de admitir. Ao som de um cover da música “Something Stupid”, testemunhamos uma relação que parece inevitavelmente arruinada. Uma cena bem orquestrada por Vince Gilligan, que, como muitas vezes fizera em Breaking Bad, deixa o lirismo falar pelas personagens.

Contudo, a ligação entre ambos (ainda) não tem os seus dias contados. Os conflitos internos são a única razão que mantêm Kim fiel e unida a Jimmy, também este à procura de algo que ampare a sua queda interminável. Percebemos, então, que ambos possuem um lado corrupto que vai originar no twist da temporada, que contrapõe a lentidão que pauta o enredo. Kim, com uma visão mais turva que Jimmy, cai no seu engodo. Quando esta se apercebe, já este saíra do seu casulo, asas bem abertas, envaidecendo-as agora como Saul Goodman, para incredulidade da sua namorada. A audiência também fora iludida pelas motivações do protagonista e esta revelação surge no momento ideal para criar antecipação e expectativa nos seguidores da série.

O universo de Better Call Saul começa assim a afunilar-se com o de Breaking Bad. Se, por um lado, fomos finalmente introduzidos ao alter ego do vigarista advogado, por outro somos introduzidos à construção de império narcótico de Gus Fring (Giancarlo Esposito). Nem mesmo neste campo de ação há espaço para cenas alucinantes, de cortar a respiração. No entanto, há um certo charme subtil que permite embelezar o enredo com hermetismo e suspense. Exemplo disso é a frieza calculista de Fring e a astúcia esquemática de Mike (Jonathan Banks), que contribuem para um ambiente inquietante. O próprio Mike torna-se uma referência do desenvolvimento das personagens nesta quarta temporada, com a qual os criadores se comprometeram, muito graças ao engenheiro alemão Werner Ziegler (Rainer Bock).

Contratado para materializar o laboratório subterrâneo de metanfetaminas, juntamente com uma jovem rebelde equipa de construtores, é peça fundamental para entendermos a essência de Mike. Este evoca em si um lado mais humano e empático do que esperado, mas, acima de tudo, não se deixa cegar pelas emoções e sabe quais os valores a seguir e as respetivas medidas a tomar. Conseguimos perceber, por fim, as motivações que justificam certas atitudes que apresentou em Breaking Bad. A amizade de ambos tem um desfecho que manifesta um sentido poético e que confirma a elegância deslumbrante da série, ao invés de invocar uma cena repleta de adrenalina.

Apesar desta abordagem eloquente, a introdução de Lalo Salamanca (Tony Dalton) pode originar à narrativa nuances dignas de um thriller e ser o antagonista que Better Call Saul necessita. Vince Gilligan utiliza o conhecimento a priori dos fãs, que já tinham sido brevemente apresentados à personagem numa simples menção em Breaking Bad, para apimentar um pouco o conteúdo da série. As ligações que tem com ambos os campos de ação, principalmente como elo de ligação de Saul ao mundo criminal, tornam-o preponderante para o desfecho do enredo. Fring vê mais um adversário de respeito surgir na rivalidade com a família Salamanca e Nacho (Michael Mando) fica cada vez mais encurralado no beco sem saída que irremediavelmente entrou. O seu destino é, até à data, o grande mistério que falta resolver. A única certeza é ter sido o responsável pela condição de Hector (Mark Margolis), agora preso a uma cadeira-de-rodas e a comunicar através do cintilar da sua icónica campainha, razão pela qual se sinta cercado. Lalo permite ligar estes elementos e estabelecer uma ponte para a já confirmada quinta temporada. Ainda que tardia, a chegada desta ambígua e louca personagem deu-se no momento certo. Muito será posto em causa e, possivelmente, sangue vai escorrer. Para averiguar.

Better Call Saul concebe um estilo próprio capaz de agradar mesmo quem não conheça o universo de Breaking Bad, graças ao naturalismo imprimido pelas personagens através do choque entre valores e emoções distintas. Estes servem de motor a uma narrativa que, embora inerte, não cessa de surpreender e faz jus à série à qual funciona como prequela. Agora, com Saul Goodman em carne e osso, são cada vez maiores as oportunidades para os criadores continuarem a procurar pasmar a audiência. “It’s all good, man!”

9.0
Excelente

Better Call Saul

Cada vez mais sólida e com maturidade suficiente para se dissociar da natureza excêntrica de Breaking Bad.

Pros

  • Exíma performance do elenco
  • Realização e fotografia de elevada qualidade
  • Diálogos bem construídos
  • Banda sonora com variedade de géneros
  • Utilização de referências a Breaking Bad

Cons

  • Algumas cenas alongam-se em demasia
  • Grande salto temporal no final da temporada algo forçado
A escrita, o cinema e a Netflix são o norte deste rapaz que procura não se perder no Mestrado em Gestão de Marketing.
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