9,5
Excelente
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Análise a ‘BoJack Horseman’ – Temporada 5

 

Regra geral, quando uma série se prolonga por vários anos, começam a surgir indícios de escassez de ideias inovadoras e revela-se uma incapacidade em surpreender os fãs. Ora, a quinta temporada, BoJack Horseman, original Netflix, parece manter-se imune a esses sintomas.

Raphael Bob-Waksberg, o criador, engendra a narrativa mais arrojada e auspiciosa até à data. Mais do que nunca, é capaz de levar fãs, ou meros curiosos espetadores, a refletir profundamente sobre temas que atingem o mais comum dos mortais. Há uma sensação de metafísica no cariz obscuro da série, que, ao escrutinar os meandros da nossa existência, causa-nos incómodo, de tão real que parece. A comédia torna-se mais perspicaz e surge como efeito dos próprios azares dos protagonistas. Trocadilhos e piadas visuais, outrora imagens de marca, já não são tão recorrentes. O objetivo nesta mudança de estilo de humor é tornar credível a simplicidade em encontrar motivos para sorrir e fazer rir quem nos rodeia, no meio de tanto infortúnio. Podem ser considerados como uma espécie de tranquilizante para a penúria.

Essa transição cómica para um teor mais emocional e introspetivo começara na quarta temporada, onde BoJack (Will Arnett) parece voltar a entrar nos eixos. Logo no início dos novos capítulos, convencem-nos que o cavalo ator dá continuidade a esse estado de graça.  Protagonista do elenco de uma nova série, Philbert, criada pelo autoproclamado génio Flip McVicker (Rami Malek), envolvido num relacionamento carnal com a sua colega Gina (Stephanie Beatriz) e com um novo ombro amigo no qual se pode encostar, a vida parece correr-lhe às mil maravilhas. Em sentido inverso, Diane (Alison Brie) e até o dócil e ingénuo cão Mr. Peanutbutter (Paul F. Tompkins) esforçam-se para sarar feridas do seu recente divórcio. Princess Carolyn (Amy Sedaris), a persa infértil, continua sem concretizar o desejo de adotar um bebé. Até Todd (Aaron Paul), muitas vezes o comic relief da série, esbarra com questões que o obrigam a sair da sua zona de conforto.

Não é novidade nenhuma que estas personagens passem por momentos delicados, dado que a série propõe-se a expor a vertente frágil do ser humano. Contudo, é aqui que entra em foco o jogo de contrastes na quinta temporada de BoJack Horseman. Enquanto os seus companheiros encontram momentos de paz que relativizam as suas crises, o protagonista falha redondamente. Os inúmeros complexos dos quais padece impossibilitam-no de se sentir bem consigo próprio ou de espremer qualquer satisfação. A onda de boa sorte pela qual passou, depressa desvanece. Tudo quando, a meio da temporada, BoJack recebe a notícia de que a sua mãe negligenciadora falecera e está obrigado a prestar-lhe um tributo póstumo. Num capítulo onde discursa durante vinte e cinco minutos ininterruptos, cria-se a ligação mais íntima entre a audiência e o protagonista. As dores e frustrações do cavalo depressivo são por nós percecionadas e percebidas, enquanto este consciencializa, simultaneamente, o significado da sua insignificância. Percebemos que, por mais lascivo e rude que tenha sido anteriormente, somos levados a ter pena de BoJack, cujo estatuto de anti-herói obtém novos contornos.

Olhando para o final da quarta temporada, nada nos indicava que a quinta levaria o seguinte rumo. BoJack Horseman mergulha em novos aforismos retratados com uma obscuridade nunca antes vista. Refugia-se da frivolidade da sua existência ao partilhar alguns trejeitos com Philbert, a personagem que interpreta, impedindo-o de distinguir realidade da ficção. O seu futuro encorajador agora não passa de uma mera miragem. Pela primeira vez, vemos BoJack bater bem no fundo, provando uma vez mais que a série não tem contemplações na abordagem a temas considerados tabu. No entanto, surge uma oportunidade de redenção e este vê uma porta abrir-se para corrigir as suas atitudes e modificar os seus valores. Um aspeto que pode servir de ponte para capítulos futuros e que fortifica a relação de identificação com as personagens, BoJack principalmente. O teor metafísico entra novamente em voga, pois vemo-nos impossibilitados de nos dissociar das emoções que estes sentem no decurso da trama.

Após uma mão cheia de temporadas, BoJack Horseman atinge um novo patamar no seu existencialismo e prova ser um ativo importante para a Netflix. As narrativas cativantes, a contínua evolução das personagens e a forma crua como trata as adversidades que estas enfrentam, distinguem a série num mercado bastante saturado. O seu curioso universo coabitado por humanos e animas antropomórficos acolhe um romance entre sátira e tristeza, ironia e crueldade que nos em alerta. Pois, não há muitas outras série que nos obriguem a refletir sobre o nosso verdadeiro valor enquanto seres vivos.

9,5
Excelente

BoJack Horseman

Uma comédia que não é só rir e que está a mudar o paradigma das séries de animação.

Pros

  • Foco no desenvolvimento emocional dos protagonistas
  • Escolha acertada de atores para as vozes das personagens
  • Abordagem satírica aos recentes eventos de Hollywood

Cons

  • Estórias secundárias que não contribuem para o enredo
A escrita, o cinema e a Netflix são o norte deste rapaz que procura não se perder no Mestrado em Gestão de Marketing.
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