7.5
Bom
Videojogos

Análise a ‘Conan Exiles’ (PS4)

“Conan Exiles” nasceu de um momento financeiramente negro da sua criadora Funcom. Baseada no grande número de vendas de outros jogos de sobrevivência, a escolha do género foi uma jogada calculada, que permitia à companhia escapar à falência desde que o título fosse moderadamente bem-sucedido. E tendo em conta o baixo nível de qualidade em que muitos dos jogos do género são lançados, a Funcom estava confiante que conseguiria destacar-se.

E desde a primeira semana em que o seu Early Access foi disponibilizado no PC, que estas previsões se realizaram, e até ultrapassaram as expectativas iniciais dos criadores. Agora que deixa o acesso antecipado e foi lançado oficialmente no PC, Xbox One e PS4, está na hora de verificar se o sucesso dos números se traduz num produto com qualidade de igual valor.

“Conan Exiles” apresenta-nos um mundo aberto no universo de “Conan o Bárbaro”, personagem criada em 1932 por Robert E. Howard, que conta com um vasto legado de histórias em vários meios desde então, incluindo a famosa adaptação ao cinema com Arnold Schwarzenegger. O jogo situa-se assim no período histórico imaginário da Era Hiboriana, época perdida no tempo, algures entre o afundamento de Atlântida e o começo da história registada das civilizações antigas como as conhecemos.

O nosso personagem é alguém acusado de um crime, e deixado para morrer numa cruz nas Exiled Lands. É assim, despidos e crucificados que temos acesso à criação de personagem, onde para além das barras de customização habituais, o jogo famosamente dá ainda controlo sobre as proporções dos dotes físicos mais privados dos modelos. Mais importante é a escolha da religião, que terá influência mais tarde, se os jogadores conseguirem seguir os passos necessários para invocar um avatar do seu deus.

Após o ajuste de todos os detalhes necessários, é então a vez de Conan, que intitula o jogo, desempenhar o seu papel. Seguindo o seu código de honra, e criticando quem o deixou lá para morrer como um animal em vez de morte em batalha, liberta o nosso personagem, deixando-o logo em seguida, com nada mais do que umas palavras de encorajamento.

A partir daí somos livres para explorar a terra dos exilados, um enorme mapa com áreas de clima, fauna e flora variados, cujos limites exteriores estão vedados por uma barreira fantasma impossível de atravessar com vida, graças à bracelete mágica que nos foi colocada. Retirar este “acessório” à força causa igualmente a morte imediata do jogador. Através de exploração do mapa e vitória sobre variados bosses do jogo, é possível desbloquear esta magia e escapar das Exiled Lands. Apesar de isto apagar definitivamente a personagem é o único verdadeiro “final” do jogo.

Mas “Conan Exiles” tem muito para oferecer antes que isso seja sequer possível.

O seu sistema de sobrevivência é par para o género. Após tratar de necessidades básicas como água, comida e abrigo, a prioridade passa para reunir materiais na natureza para construir cada vez mais complexas ferramentas, armas, armaduras e melhorar a base de operações.

A experiência é adquirida através das ações base do jogo: recolher recursos, construir, explorar e derrotar inimigos. Dá pontos também o preenchimento de uma lista progressiva de feitos, chamada “A Viagem”, que ajuda o jogador a orientar-se em relação àqueles que deveriam ser os seus próximos objetivos. O aumento do nível da personagem não só atribui pontos para ser distribuídos nos seus atributos base, como separadamente permite aprender novos modelos de construção em ramos variados.

Mas todo este processo de construção é dificultado nas versões de consola, com menus claramente desenhados para clicar e arrastar no PC. Mal otimizados para manipular com um comando, tanto a seleção de itens em longas listas, como a sua transferência entre menus pode verificar-se frustrante.

Eventualmente, o jogador poderá ter uma base onde reúne a habitual série utensílios de custo elevado e que não podem ser transportados, como uma fornalha, mesa de ferreiro e forja, assim como uma “Roda da Dor”, instrumento de tortura onde pode colocar outros exilados humanos NPC para quebrar a sua vontade e submete-los ao seu serviço. Estes Thralls que povoam o jogo, podem assim trabalhar para o jogador em estações de construção ou servir de guardas contra invasões das criaturas locais ou outros jogadores.

Apesar desta fortaleza dever ser construída num local com acesso amplo aos recursos mais básicos como pedra, madeira, plantas, comida e água, o jogador eventualmente terá que se aventurar à procura de elementos essenciais para a sua progressão como ferro ou carvão.

As viagens exploratórias são verdadeiras aventuras cheias de tensão, uma vez que a morte da personagem resulta na perda de tudo que possui em si mesma, desde armas, armadura e a roupa do corpo, até aos importantes recursos que traz na viagem de volta. Graças ao tamanho do mapa, a caminhada pode ser extensa, e assim, a perda de progresso significativa. E não faltam perigos nestas terras da Era Hiboriana. As hienas, crocodilos e tribos de Thralls, que povoam a área inicial rapidamente dão lugar a aranhas e cobras gigantes, tigres, elefantes e uma miríade de outras criaturas fantásticas e aterradoras que certamente cederam à extinção após esta era, como rocknoses, werehyenas e dragões. E nos servidores PvP, os seres mais perigosos, outros jogadores.

Não parece, mas estava a fugir deste dinossauro cor-de-rosa. Só parei para capturar a imagem.

Com um limite de 40 jogadores nos servidores oficiais, a presença de outros jogadores está no ponto ideal. Com um mapa enorme, há muito espaço para se distribuírem e construir sem lutar pela mesma área. No entanto existe sempre tensão quando desconhecidos se cruzam, e o medo de um ataque está sempre presente.

O combate é mecanicamente simples, com dois comandos de ataque, normal e forte, que podem ser combinados de formas diferentes despoletando ataques finalizadores. Cada tipo de arma tem movimentos e combinações diferentes, adicionando variedade aos combates entre humanos. No lado da defesa, para além de rebolar para esquivar, é possível equipar um escudo para bloquear ataques. As armas, tal como as ferramentas, têm um medidor de durabilidade, sendo necessário repara-las ocasionalmente, ou arriscar ficar desarmado a meio de uma luta.

Infelizmente, a inteligência artificial do jogo deixa muito a desejar, e para além dos inimigos com muitos pontos de vida e ataques poderosos, a maioria só se apresenta como ameaça quando se encontram em grupo, o que é comum. Ainda assim, é possível fugir e manter uma distância mínima até que estes desistam da perseguição, mesmo no caso de animais supostamente velozes como os grandes felinos. Em último caso, a mecânica de escalada do jogo, que funciona em qualquer superfície vertical desde que stamina não acabe, é outra arma para manter os inimigos à distância. Mesmo em confrontos contra outros jogadores estas táticas podem ser exploradas. No meu primeiro encontro com alguém agressivo e claramente mais avançado no jogo do que eu, consegui evitar o combate rebolando repetidamente e correndo até recuperar a stamina para novas manobras evasivas, até que eventualmente o agressor se fartou de lançar golpes de ataque sem sucesso e abandonou a perseguição. Isto pode ser contrariado com um arco e flecha, cujos impactos certeiros nas pernas podem infligir o estado “magoado”, que impede a personagem de correr durante um curto período de tempo.

Quando o jogador estiver melhor equipado e mais familiarizado com o ambiente e os seus perigos, poderá aventurar-se nas dungeons do jogo, onde encontrará os melhores bosses, lore e loot. Se jogar com amigos, fará bem em ir acompanhado.

A apresentação de “Conan Exiles” não deixará ninguém boquiaberto no que toca aos seus limites gráficos, mas é visualmente apelativo para um mundo aberto com esta dimensão e interatividade. Os seus locais míticos e misteriosos criam um cenário fantástico que pede para ser explorado. Num mundo que pode ser manipulado a este nível, são também esperados os ocasionais bugs, seja quando o personagem continua os movimentos de subida por uns momentos extra após terminar uma escalada, os repetidos problemas de aparente lag cada vez que tentava rebolar junto a um objeto, ou aquela vez em que um crocodilo ficou preso debaixo da minha casa durante o resto da sessão.

De louvar é a possibilidade de o jogo poder ser experienciado à medida de cada um. Seja online, PVE ou PVP, ou offline e sozinho, cada servidor permite ainda modelar a dificuldade e velocidade do jogo, modificando as regras, como o nível de interação entre os jogadores e as estruturas alheias, o nível de frequência em que é necessário beber ou comer, o ritmo de progressão com a velocidade a que a experiência é adquirida, o ritmo de regeneração de pontos de vida e stamina, ou a dimensão dos ciclos noite/dia, entre outras.

Conan Exiles” é uma ótima ferramenta para criar a sua própria diversão. O mundo é amplo e cheio de mistérios para explorar, mantendo-se um lugar perigoso que não deixa o jogador ficar demasiado confortável. É igualmente divertido para explorar com um grupo de amigos, como um bom desafio para modelar lentamente o mundo à sua volta numa experiência a solo, com vizinhos ou não.

7.5
Bom

Conan Exiles

“Conan Exiles” é uma ótima ferramenta para criar a sua própria diversão. O mundo é amplo e cheio de mistérios para explorar, mantendo-se um lugar perigoso que não deixa o jogador ficar demasiado confortável.

Pros

  • Mapa grande, variado e fascinante, delicioso de explorar
  • Experiências de sobrevivência e construção bem balançadas e solidamente implementadas
  • Lore espalhado vai imergindo o jogador no mundo à medida que o encontra

Cons

  • Um verdadeiro modo história colocaria o jogo num patamar acima
  • Menus não otimizados para consola e ocasionais bugs mancham a experiência
  • Inteligência artificial deixa a desejar
@SopraCartuchos
Estudante de jornalismo, amante de histórias em todas as formas: escritas, no pequeno e grande ecrã, ou exploradas com um comando de videojogos na mão.
Scroll to top