7.5
Bom
Destaques Videojogos

Análise a ‘Dakar 18’

O Rali Dakar é a mais longa e dura prova de rali em todo-terreno do mundo. Distingue-se, principalmente, por ser uma prova de rali de navegação (rally raid) na qual são dados os pontos de partida, chegada e alguns pontos de passagem obrigatórios (waypoints), tendo os pilotos de escolher o melhor trajecto para cumprir a prova. É disputado largamente fora de pista, atravessando campo e deserto. Até 2008 a prova decorreu entre Europa e África, com a maior parte das edições a terminar nas praias da capital do Senegal, Dakar, após a passagem pelo deserto do Saara. Actualmente, a prova acontece anualmente na América do Sul, começando sempre na primeira semana de cada ano. Competem as categorias de automóveis, motos, camiões, quadriciclos (quads) e SxS (também chamados UTV).

 

Relativamente a videojogos sobre este grande evento automobilístico, não há grande tradição e são mesmo escassos os títulos lançados. Resumem-se a ‘Paris-Dakar Rally’, de 2001, e a sua sequela ‘Dakar 2’, de 2003, ambos jogos que passaram despercebidos e sem grande trabalho de detalhe ou esforço em representar de forma correcta a prova real. É precisamente neste ponto que se foca ‘Dakar 18’, a nova aposta do estúdio português Bigmoon Entertainment, sediado em Vila Nova de Gaia. Resultado de anos de pesquisa e acompanhamento no próprio terreno do Rali Dakar, Paulo Gomes (líder do projecto e CEO da empresa) e a sua equipa apostaram de forma ambiciosa na recriação fiel da prova e da experiência de condução e navegação ao longo da mesma, em que chegar em primeiro é um bónus, uma vez que cruzar a linha da meta ao longo das 14 duríssimas etapas é já, por si só, uma vitória.

 

 

Este é um jogo completamente diferente do que estamos habituados, sejamos aficionados de videojogos de corridas ou não. Basicamente estes jogos distinguem-se pela simples regra de partida de um ponto ‘A’ até chegada a um ponto ‘B’, com o objectivo de fazê-lo no menor tempo possível. Ora, o objectivo de chegar à meta antes dos nossos adversários mantém-se mas a forma e a rota que percorremos reveste-se de uma importância muito maior. É aqui que a navegação é fundamental e, fazendo jus ao cumprimento das regras do próprio Rali Dakar, o jogo “obriga-nos” a seguir as indicações dos road books oficiais da prova, que nos indicam a quilometragem, a orientação (o CAP, que nos indica o ângulo a seguir) e os diversos perigos adiante, diferenciados por gravidade. Há três níveis de dificuldade (novato, competidor e lenda, estando este último bloqueado até ser batido o nível anterior) e só no mais acessível poderemos contar com uma espécie de bússola para nos ajudar a orientar em terrenos fora de pista. De referir ainda que nas classes de automóveis, camiões e Sxs teremos o auxílio do nosso co-piloto, que nos informará de forma bem audível todo o conteúdo do correspondente road book. O mesmo já não acontecerá nas categorias de motas e quads, em que estaremos por nossa conta e teremos que dividir a nossa concentração entre a frente do veículo e a informação de navegação.

 

 

Ainda antes do jogo estar completamente instalado é-nos apresentado o tutorial, que basicamente aborda várias situações de condução e navegação que teremos que enfrentar quando avançarmos para uma etapa do Dakar. Seguir por um caminho principal, por um trilho secundário e também completamente fora de pista, alcançar waypoints e pontos de controlo, ajudar um competidor atolado na lama fixando um cabo e puxando-o pela tracção do nosso veículo, reparar o próprio veículo, evitar obstáculos vários e finalmente chegar à meta serão situações a dominar. Após concluído o tutorial, teremos ainda a opção ‘Treinos’, dividida em 5 lições diferenciadas que nos permitirá conhecer melhor toda a dinâmica de condução e navegação. Avancemos então para as dunas! Não há aqui nenhuma espécie de “modo de exibição”, no momento em que nos sentirmos prontos para enfrentar o desafio do Rali Dakar teremos que escolher uma das referidas 5 categorias e começar a nossa carreira. As 14 etapas só serão desbloqueadas à medida que as vamos concluindo, o que limita o primeiro contacto competitivo à etapa inicial, a mais acessível Lima – Pisco. Teremos à nossa disposição vários veículos e pilotos oficiais que participaram na edição deste ano, incluindo o português Carlos Sousa, ao volante de um Renault Duster. De referir ainda que a edição Day One do jogo traz a possibilidade de conduzir o mítico Peugeot 205 T16 com que o finlandês Ari Vatanen venceu a prova em 1987.

 

 

A jogabilidade é, tal como a prova na sua realidade, um grande desafio. O jogador terá que estar preparado para enfrentar especiais ou etapas que ultrapassarão mesmo a duração de uma hora, se a conseguirem completar sem muitas penalizações. É difícil, trabalhoso e moroso mas também há uma sensação gratificante conseguir terminar uma das etapas mais longas e extenuantes. Infelizmente, o contrário também é válido e será muito frustrante para quem não conseguir concluir, seja por falharmos um número máximo de waypoints ou, ainda pior, sermos forçados a abandonar perto da meta devido ao nosso veículo ficar, irremediavelmente, avariado. Durante a nossa carreira vamos amealhando pontos (Dakar Points) que servirão para poder reparar diferentes componentes, com diversos custos, do veículo em plena etapa mas poderão não ser suficientes face à gravidade do dano. Não será pouco frequente, mesmo após cumpridos os tutoriais, as lições de treino e jogando no modo mais acessível, perder a orientação, especialmente entre as transições entre tipos de terreno ou trilhos. A física dos veículos não é propriamente extraordinária, especialmente nas motas e quads, que parecem sempre “patinar” mesmo em contacto com superfícies mais duras, sem qualquer sensação especial de atrito. Notam-se também alguns problemas na detecção de colisão, muitas vezes alguns embates mais leves nas dunas provocam maior dano que outros bem mais violentos.

 

Graficamente, a Bigmoon Entertainment produziu um resultado assinalável. São mais de 18000 km², numa compressão 1:32, a mapear as 14 etapas e espaços entre elas que se estendem do Peru, passando pela Bolívia e até à Argentina. Este mundo aberto enorme, com belas paisagens, é uma notável recriação da prova oficial. É certo que algumas texturas podiam estar melhor e o “afundar” das rodas dos veículos nos terrenos, especialmente os arenosos, não está muito bem conseguido mas não mancha o bom trabalho efectuado. Visualmente, destacam-se os belíssimos ciclos dia/noite e a iluminação reflectida. As diferentes condições meteorológicas e os seus efeitos também são merecedores de elogios. Relativamente ao som, está satisfatório, as diferentes categorias diferenciam-se bem e o impacto com a diversidade de terrenos e obstáculos também. Nota negativa para as indicações do co-piloto que, por vezes, mais parecem prejudicar que auxiliar o piloto principal. Não se trata de dar, propriamente, indicações erradas mas a detecção do local em que estamos ao momento não é 100% infalível. Se, por alguma razão, nos atrasamos para nos desviarmos de algum obstáculo ou simplesmente abrandamos, acabamos por passar pelo local de viragem já depois da sua indicação e ele não a actualiza, ficando em silêncio quando tomamos um novo rumo e só nos avisando que estamos perdidos quilómetros depois. No modo ‘Novato’, com a ajuda da tal bússola, fica mais tranquilo mas, mesmo assim, ainda tem momentos de “histeria” a avisar-nos que estamos a afastar-nos do CAP, quando até já estamos em plena correcção de trajectória na direcção deste.

 

Para além do modo carreira, o jogo também conta com um modo multijogador. Aqui podemos criar a nossa própria sessão (com o destaque de aqui podermos escolher qualquer uma das 14 etapas, mesmo que ainda não as tenhamos desbloqueado na carreira) ou juntarmo-nos a uma já existente. Se tivermos sorte, alguém se juntará brevemente à nossa sessão e poderemos avançar para uma corrida. Se nos juntarmos a outra, o mais certo é termos que assistir primeiro à corrida em curso, o que pode significar ter que esperar para jogar… uma hora ou mais. Uma opção de ter corridas em troços mais curtos ou pelo menos com um limite de tempo seria o ideal. Para além disso, na versão analisada (PS4), deparamo-nos com diversos bugs e situações a corrigir, desde ecrãs negros quando começa a nossa corrida ou mesmo veículos a flutuar, pelo menos na óptica de assistir. Para além da opção multijogador online, é possível igualmente desafiar alguém localmente para uma etapa em ecrã dividido. Por fim, falta referir o modo ‘Caça ao Tesouro’, o que não deixa de ser uma agradável mas igualmente caricata experiência. Aqui, o respectivo veículo apenas serve de transporte até ao sítio onde deveremos procurar o “tesouro”, indicado genericamente num mapa a que podemos aceder. Claro que teremos de ter cuidado à condução para não danificarmos o veículo ao ponto de não ser possível progredir e, neste caso, não existem waypoints para poder voltar atrás e retomar desde esse ponto. Cada mapa de etapa tem um certo número de tesouros que teremos que encontrar saindo do veículo e procurando entre casas e os seus alpendres a pé. Todos têm referências a artefactos ou objectos associados ao país em causa mas quando encontramos qualquer um deles tem sempre o mesmo aspecto de um pequeno baú. Um modo de jogo muito diferente mas que tira igualmente partido do mundo aberto ao seu dispor e nos faz sair da viatura, à semelhança do que já era possível no decorrer de uma etapa competitiva para desatolar o nosso próprio veículo ou de outros, para procurarmos os tesouros a pé.

 

‘Dakar 18’ é o projecto de uma vida para a Bigmoon Entertainment e é, sem falsos patriotismos, muito revigorante ver um estúdio português avançar de forma tão ambiciosa e e sem precedentes no que diz respeito à fiel reprodução da experiência do Rali Dakar num videojogo. Acaba por ser uma “faca de dois gumes” pois é precisamente o seu realismo e a vontade de apresentar um simulador o mais próximo da realidade que poderá alienar os jogadores mais casuais, em busca de uma experiência mais acessível e, à falta de melhor termo, mais divertida. Os aficionados do Rali Dakar, da condução por navegação ou simplesmente os jogadores em busca de um desafio diferente e exigente deverão ficar satisfeitos, especialmente com o suporte de volantes, pedais ou caixas de mudança que o jogo vai ter. Mas este não é um jogo para todos e as “areias movediças” da sua jogabilidade por navegação poderão, facilmente, “atascar” o interesse de muitos candidatos a piloto.

7.5
Bom

Dakar 18

Um estúdio português a explorar areias nunca antes navegadas

Pros

  • Vastíssimo mundo aberto
  • Bela recriação visual de viaturas e paisagens

Cons

  • Co-piloto com 'timings' imprecisos
  • Tempos de carregamento elevados
Licenciado em Sociologia. Cinema, música e videojogos são áreas de eleição.
Scroll to top