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Análise a ‘Sharp Objects’


Depois do sucesso de Big Little Lies (2017), Jean-Marc Vallée volta a assinar a adaptação de um livro para a TV. Desta vez, o escolhido foi Sharp Objects, de Gillian Flynn – autora do estrondoso Gone Girl –, que também assumiu funções enquanto produtora e guionista da série.

Em Sharp Objects, Amy Adams interpreta Camille, uma jornalista atormentada pela morte precoce da irmã e por uma educação abusiva e violenta, que a levaram a refugiar-se no álcool, automutilar-se e, eventualmente, a ter de ser internada num hospital psiquiátrico. A saúde mental de Camille piora ainda mais quando é enviada de volta para a sua cidade natal, Wind Gap, para investigar a morte de duas jovens, tendo de ficar alojada na casa onde cresceu, conviver com a família e recordar todos os maus momentos que a levaram a fugir.

Camille é uma protagonista particular (e excelente), bem ao estilo de Gillian Flynn e em oposição ao paradigma. Há muito tempo que deixou de ser obrigatório que uma protagonista – sim, uma mulher – fosse imaculada, bem resolvida e exemplar; em suma, com grandes probabilidades de se tornar uma personagem aborrecida. Pelo contrário, a personagem de Amy Adams não tem nada de bonito ou inocente. Está emocionalmente destruída e instável, bebe demasiado, não tem pudor em ser sexual, não se revê numa vida de dona de casa, corta o próprio corpo (as cicatrizes formam palavras, sendo que algumas dão título à maioria dos episódios) e costuma tomar decisões pouco sensatas. Mas espantem-se (!): é perfeitamente possível sentir-se empatia por alguém assim e torcer por ela, principalmente à medida que vamos descobrindo aquilo por que passou naquela cidade do demónio.

Sharp Objects é, definitivamente, um ponto de viragem na carreira de Amy Adams, marcando um tipo de personagem diferente das que normalmente a vemos interpretar. Sobre a actriz não há nada de novo a acrescentar (se bem que eu podia passar umas quantas horas a elogiá-la): que interpretação do caraças! Sem pudores nem exageros, com as pausas dramáticas feitas no tempo certo e tudo demonstrado de forma sublime. Independentemente de contracenar com um actor ou com seis, a cena é sempre dela. As luzes do holofote só se dividem quando a actriz contracena com Eliza Scanlen, que interpreta a meia-irmã de Camille, Amma.

Amma Crellin é uma rapariga cruel, cínica e, a meu ver, profundamente infeliz e insatisfeita consigo própria e com aquilo que a rodeia (já disse que Wind Gap é uma cidade do demónio?). Se num episódio podemos estar a rogar-lhe pragas, noutro podemos até sentir compaixão e torcer por si.
É muito fácil que sintamos receio de cada vez que Adams e Scanlen contracenam juntas; a química é incrível e a instabilidade de ambas as personagens tornam as cenas perturbadores, fazendo-nos questionar se deveríamos mesmo estar a vê-las.

Apesar de viver/trabalhar num meio onde a figura física da mulher é tida como o seu principal atributo, as cenas de nudez em Sharp Objects não parecem ter sido um problema para Amy Adams. E quem lê isto pode pensar “Caramba, se eu fosse a Amy Adams também não teria problemas em estar nua” – certo, percebo. A questão aqui é que Adams tem 43 anos e que o corpo da sua personagem passou por uma mutilação extrema, tendo tido a actriz de ganhar peso para adaptá-lo ao de uma pessoa alcoólica e sedentária. E sim, isso é de louvar, ainda para mais quando Adams não se preocupa em ter de estar constantemente em pose nem tem medo de se mostrar sem embelezamento algum.


O ritmo (por vezes, lento) da série pode afastar alguns espectadores, ainda para mais tendo em conta que é um policial. No entanto, a investigação dos homicídios e a procura pelo assassino é um plot secundário, sendo que o que realmente interessa é explorar a relação que Camille tem com uma comunidade que lhe fez tão mal. Eu próprio confesso que só a partir do terceiro episódio comecei verdadeiramente a entrar no espírito e a interessar-me pela narrativa. Talvez por isso este se tenha tornado um dos meus favoritos, explorando a relação entre Camille e a colega de quarto do hospício, Alice, que se torna mais uma das raparigas que a protagonista não consegue salvar. 

Destaco também o quinto episódio, no qual Jean-Marc Vallée nos dá a todos uma masterclass de realização, ao intercalar as interacções entre personagens durante o festival anual de Wind Gap com vários pontos de vista. É dos tais episódios que se devem ver mais do que uma vez para se perceberem todas as nuances e reparar em todos os pormenores. Os pormenores são algo que se estendem a toda a série, na verdade, o que exige que Sharp Objects seja vista com atenção para que nada escape, aliados aos cortes e flashbacks que caracterizam o trabalho do realizador e que, à partida, podem (erradamente) parecer desligados do enredo.

Um dos elementos que mais me fascinaram, para além da banda sonora, foram as cenas de sexo. Precisamente porque não tinham nada daquilo que estamos acostumados a ver neste tipo de cenas. Em Sharp Objects, são desconfortáveis, sufocantes e, em alguns casos, angustiantes. A forma como Camille se entrega tem tanto de penoso como de inconsciente, seja em ocasiões despojadas de sentimento, com uma das pessoas que mais a deseja ou ao envolver-se com menores de idade. São cenas às quais preferíamos não assistir mas das quais, por algum motivo macabro, não conseguimos desviar o olhar.

De um modo geral, é esta atracção pelo incómodo que caracteriza Sharp Objects. Apesar dos temas pesados, dos constantes murros no estômago que nos dá e da brutalidade que a caracteriza, dificultando o binge watch, é-nos impossível deixar a série a meio.

A cena final traz consigo uma revelação surpreendente, e também aqui a atenção aos pormenores volta a ser importante, dado que ajudam a responder a muitas das questões levantadas ao longo da série – inclusivamente, durante o último episódio. O choque causado por este plot twist prolonga-se pelos créditos finais, que chegam a ser interrompidos para mostrarem cenas inéditas sobre o assassinato das duas jovens.

Apesar do desejo da HBO e de Gillian Flynn em ver a história continuar para uma segunda temporada, Amy Adams já disse que não queria voltar a interpretar Camille, muito por causa do esforço emocional a que a personagem obriga, pelo que isso não deverá acontecer. Eu também espero que assim seja. 

8
Muito Bom

Sharp Objects

Um marco na carreira de Amy Adams e uma das melhores séries de drama/policial deste ano

Pros

  • A realização de Jean-Mark Vallée
  • Performance dos actores - em especial, a de Amy Adams
  • Banda sonora

Cons

  • O ritmo demora a arrancar
Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas, sonha com uma carreira no meio editorial. O fascínio pelo Cinema e pela TV levaram-no a tirar uma Pós-Graduação em Storytelling e a passar demasiado tempo a ver Netflix.
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