7
Bom
Cinema / TV

Análise a ‘Terminal’

“Terminal” não é um filme mainstream. Passado maioritariamente no ambiente noturno e deserto de um terminal de comboios, assemelha-se mais a uma peça de teatro, onde meia dúzia de atores contracenam em frente a outros tantos cenários quase sem figurantes. Mas a perspetiva dada pelo realizador está muito longe da vista de um espectador para o palco, focando em grande detalhe as personagens e as suas expressões. Afinal, são estas o foco do filme.

Num universo de cariz surreal, uma qualquer cidade inglesa onde o crime e os vícios são o cartaz de chegada, alberga este terminal. Escuro, vazio, mal frequentado. Um professor (Simon Pegg) procura terminar a sua vida nas linhas de ferro; um par de criminosos (Dexter Fletcher e Max Irons) recebem uma oportunidade de contrato única de um infame cabecilha; um zelador muito peculiar (Mike Myers) divaga os corredores no seu turno noturno; Annie (Margot Robbie) observa detrás do balcão do café-restaurante aberto 24 horas: “Fim da Linha”.

Estas personagens irão ser exploradas ao longo do filme através dos seus extensos diálogos e interações, numa trama geral confusa, cuja ordem cronológica nem sempre é clara, mas que se funde num enredo final satisfatório. É uma viagem com pouca ação, mas muitas reviravoltas, umas mais inesperadas do que outras. Isto porque as conversas e a própria cinematografia estão repletas de prenúncios sobre as relações entre as personagens, que os mais atentos utilizarão para gradualmente conectar peças do puzzle. Estas pistas existem porque o desenrolar da trama muda drasticamente a perspetiva inicial sobre as cenas anteriores, depois de conhecemos os motivos ocultos das personagens. Uma segunda visualização é, aliás, um testamento à capacidade dos atores, cuja linguagem não verbal tão bem diz o que as falas ocultam, criando momentos de suspense em situações aparentemente triviais. As cenas entre Simon Pegg e Margot Robbie são o ponto alto do filme, graças ao excelente desempenho de ambos.

Infelizmente, o diretor não se deu por satisfeito com a subtileza, e não querendo desperdiçar estes momentos saborosos, e para poupar a audiência da potencial segunda visualização, repete-os em cortes bruscos após cada revelação que os torna relevantes.

A obra infantil de Lewis Carroll “Alice no País das Maravilhas” é presença transversal a todo o filme, em personagens, locais, temas, e sobretudo no estilo. Já frequentemente recontadas em estilos sombrios graças à sua aura surreal, as aventuras de Alice adquirem aqui um toque de loucura que deixaria o chapeleiro orgulhoso.

A apresentação arrojada contrasta cores vivas com o panorama negro de decadência do mundo. O ambiente é maioritariamente silencioso, deixando que os sons mundanos da rua se transformem numa tensa banda sonora. Os cortes bruscos e irreverentes são frequentes, dando vivacidade a momentos de outra forma massudos.

 

7
Bom

Terminal

Apesar do enredo confuso e com alguns buracos, num mundo tão pouco explorado e vazio que só pode ser interpretado como surreal, “Terminal” é exploração de personagens no seu melhor, com um elenco que lhes faz jus e uma cinematografia brilhante.

Pros

  • Apresentação visual excelente
  • Diálogos tensos e cativantes

Cons

  • Enredo complicado excessivamente para manter a audiência no escuro durante a maioria do filme
  • Tenta compensar a confusão com cenas demasiado repetidas e explicadas quando já não é necessário
@SopraCartuchos
Estudante de jornalismo, amante de histórias em todas as formas: escritas, no pequeno e grande ecrã, ou exploradas com um comando de videojogos na mão.
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