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Excelente
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Análise a ‘The Handmaid’s Tale’ – Temporada 2

Em Abril de 2017, a Hulu estreou a primeira temporada de ‘The Handmaid’s Tale’, uma adaptação do livro de Margaret Atwood. Durante 10 episódios, ficámos a conhecer a República de Gilead, um regime totalitário cristão no qual as mulheres não têm quaisquer direitos.

O principal objectivo de Gilead passa pelo combate à taxa de natalidade e, para isso, as mulheres férteis são tornadas Servas, cuja função é, única e exclusivamente, serem engravidadas pelos Comandantes, os chefes das famílias para as quais são destacadas.

A protagonista, Offred (literalmente, Of-Fred, o nome do seu Comandante), é uma mulher que foi apanhada a tentar escapar de Gilead com o marido e a filha depois do golpe de Estado que instituiu o regime.

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ATENÇÃO: a partir daqui há spoilers das duas temporadas

A primeira temporada termina no momento em que Offred é levada pelos Olhos, os espiões de Gilead, sem saber se será detida por oposição ao Estado ou libertada – tal como acontece no livro. Aliás, a adaptação foi feita de forma bastante fiel, salvo raras excepções. Por exemplo, no livro, as personagens do Comandante e da sua Esposa, Serena, são bastante mais idosas – torna-se lógico que, com 60 anos, Serena seja incapaz de engravidar. Porém, a tensão entre Serena e Offred ganha contornos diferentes na série já que, estando ambas na casa dos 30 anos, a frustração de ver o marido recorrer a outra mulher para fazer um filho devido à sua infertilidade culmina nos maus tratos da Esposa para com a Serva.

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O facto de a segunda temporada deixar de ter o livro como base foi exactamente o que me deixou mais apreensivo, se bem que entusiasmado pela continuação de uma série que se mostrou tão poderosa.

Em Abril deste ano, a Hulu lançou os dois primeiros episódios da nova temporada e tirou-me as dúvidas: ‘The Handmaid’s Tale’ vai continuar a ser tão bom ou melhor. Os dez minutos iniciais são de cortar a respiração e preparam-nos bem para o tom que se estende pelo resto da temporada.

Quanto às novas personagens, destaco o Comandante Lawrence, um homem enigmático que desempenhou funções importantes na criação da República de Gilead e que acolhe Emily – que conhecemos na primeira temporada como Ofglen, apoiante da resistência. Só aparece nos episódios finais, mas traz consigo vários mistérios interessantes: por que razão está a sabotar um regime que ajudou a criar? O que o leva a acolher os misfits? Algo me diz que ele é gay e/ou foi castrado… mas, não menos importante, o que raio vai ele fazer com a Aunt Lydia?! Mesmo assim, a melhor das novas personagens é Eden.

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Eden exemplifica a mestria dos escritores da série em construir personagens. Tem tantas camadas que, mesmo que a odiemos de cada vez que surge no ecrã, não deixamos de ficar desolados com o seu destino. Sobretudo, Eden é a representação do fanatismo religioso e de como isso acaba por destruí-la, ainda que o facto de quebrar as regras não a faça desacreditar nos ideais de Gilead – é essa uma das facetas doentias de ‘The Handmaid’s Tale’.

Mas as personagens do elenco original não são descuradas. O passado de Emily e de Moira, por exemplo, é explorado durante alguns episódios, ainda que a coisa saiba a pouco. No entanto, o grande destaque para o character development da temporada vai para Serena, que torna Yvonne Strahovski uma das fortes candidatas ao Emmy de Melhor Actriz Secundária numa Série Dramática deste ano.

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Não só ficamos a conhecer um pouco do passado de Serena – nomeadamente, a origem da sua infertilidade e a campanha que construiu para ajudar a erguer Gilead – como a vemos impor-se perante o marido e o regime, sentindo-se oprimida pelos ideais que antes defendera. Em 13 episódios, Serena é uma supremacista louca, uma mãe angustiada, uma mulher revoltada e um monte de cacos que previamente construíam uma pessoa – tudo isto escrito com a maior coerência. Também a relação de Serena com Offred toma contornos mais rebuscados: a Serva passa de ser tida como persona non grata para o ai-jesus da Esposa. Tanto se tornam aliadas quanto se provocam uma à outra.

Elizabeth Moss, por sua vez, mantém-se impecável no papel principal (aquela cena do parto… corre lá novamente para o Emmy e para o Globo, vá). A sua prestação, acima de tudo, fica marcada pelas expressões faciais e pela forma como domina os close-ups, representando o isolamento de Offred perante tudo o que a rodeia. E ela é matreira, mesmo! Todos os olhares directos para a câmara mostram não só como está a desafiar o regime e as restantes personagens mas (especialmente!) como nos desafia a nós, espectadores.

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De facto, o investimento na cinematografia atinge o seu pico nesta temporada, vivendo sobretudo dos primeiros planos e dos planos abertos, mais gerais. ‘The Handmaid’s Tale’ não é só uma série visualmente bonita; é uma série cujos planos, cada um deles, transmitem uma tensão gigante.

Destaco a cena inicial do sétimo episódio (essa mesmo, a do funeral), que usa e abusa dos planos abertos para mostrar a imponência de Gilead perante as Servas, minúsculas, que caminham pelo cemitério coberto de neve. Este cenário invernoso prolonga-se durante toda a série. Durante os nove meses de gravidez de Offred, toda Gilead está coberta de neve, o que é um indicador óbvio de que, também simbolicamente, o inverno permanece. Só a queda do regime poderá trazer de volta a luz.

O final foi um tanto ou quanto descabido, sejamos sinceros, e alguns monólogos em voz-off de Offred no início da temporada pareceram-me demasiado embelezados, quase como que uma tentativa de os tornar literários – para aproximá-los aos do livro, talvez? Ainda assim, deste lado, permanece o entusiasmo para ver como Offred se vai safar na terceira temporada, já anunciada pela Hulu.

Blessed be the fruit.

9
Excelente

The Handmaid's Tale

A escrita repleta de tensão, os actores e a realização tornam-na uma das melhores séries do ano

Pros

  • Grande desenvolvimento de personagens
  • Cinematografia excelente
  • Enredo cheio de conflito

Cons

  • O final parece feito apenas para que a série seja renovada
Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas, sonha com uma carreira no meio editorial. O fascínio pelo Cinema e pela TV levaram-no a tirar uma Pós-Graduação em Storytelling e a passar demasiado tempo a ver Netflix.
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