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Cinema / TV

Análise a ‘The Cloverfield Paradox’

Há dez anos atrás, J. J. Abrams fez uma TED Talk sobre o conceito de Mystery Box (Caixa do Mistério). Na apresentação falou da ocultação propositada de informação como ferramenta narrativa, e da influência desta técnica nos seus próprios trabalhos. Apesar do discurso atabalhoado, divagante e desconexo, uma das ideias-chave transmitidas pelo realizador é que por vezes “o mistério é mais importante que o conhecimento”. A mystery box, enquanto permanece fechada, representa esperança, potencial e possibilidades infinitas.
“The Cloverfield Paradox” é um filme confuso, capaz de fazer paralelo à estrutura incoerente desta antiga apresentação, mas não é aí que reside a utilidade deste prólogo. Esta recente aquisição da Netflix, que saltou a exibição nos cinemas, leva o conceito desta TED Talk ao extremo, e de forma tão óbvia, que é capaz de quebrar a magia dos enigmas nas obras passadas de J. J. Abrams.

Depois do primeiro “Cloverfield”, e de “10 Cloverfield Lane”, é a vez este último título, agora com “paradoxo” no nome, se embrenhar no misterioso universo criado por Abrams. Apesar de este não se encontrar na cadeira de argumentista ou diretor, a produção esteve a cargo da sua companhia Bad Robot, estando ele pesadamente envolvido na transformação de um argumento comprado (“God Particle”), para um filme integrado na propriedade “Cloverfield”. Isso inclui segredos, marketing viral e uma ameaça desconhecida. Uma caixa de mistérios.

Desta feita, a Terra está a sofrer uma crise de energia e um grupo de astronautas reunidos numa estação espacial tentam utilizar um acelerador de partículas para criar uma fonte de energia infinita. Os problemas que daí advém e que os protagonistas têm que enfrentar decorrem assim em pleno espaço. Os corredores e o ambiente da estação tentam criar uma atmosfera de perigo eminente que evoca o clássico “Alien” de Ridley Scott. E fosse este outro dos passados monster movies de J. J. Abrams, talvez tivessem conseguido. Mas em “The Cloverfield Paradox” a fórmula da mystery box sofreu mudanças.

Em vez de uma ameaça geral que desconhecemos que semeia o terror no meio da normalidade, aqui a origem dos fenómenos é rapidamente atribuída aos problemas com a experiência. Enquanto no final dos outros Cloverfields, ou em “Super 8” conseguimos perceber que os eventos decorridos foram consequência da ação deste ou daquele monstro, em “Paradox” temos uma sequência de enigmas, muitas vezes absurdos, que nunca tem desfecho satisfatório ou sequer utilidade no mundo da história para além do valor de choque e avanço do enredo. Abrams elogia “Alien” e “Jaws” pela tensão trazida pela ocultação do monstro durante a maioria do filme. “The Cloverfield Paradox” vai um passo mais longe e remove-o por completo, com o efeito oposto.

A certa altura, existem tantas mystery boxes por abrir, mas que apontam na direção de ainda outra, que resultam numa sensação de estar a desmontar uma matriosca sem boneca final. No início ficamos surpreendidos com quantas bonecas estão lá dentro, mas a tarefa depressa passa a ser enfurecedora quando descobrimos que é um empreendimento fútil. Não será um sentimento estranho para quem viu a série “Lost”, também provinda das mãos de J. J. Abrams.

Nos momentos onde nos é dado a conhecer o lado humano dos personagens, o elenco está à altura, ancorando o filme em histórias e relações pessoais envolventes, que dão peso às suas ações. Pena que essas ações sejam muitas vezes decisões tão infelizes como os mistérios que povoam o filme.

Embora não traga resolução a si próprio, este último título vem aparentemente interligar a série Cloverfield de forma mais ou menos bem-sucedida, sendo uma peça importante para quem pretender acompanhar o já planeado futuro deste universo.

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Mau
“The Cloverfield Paradox” é um passo na franquia que se apoia em demasia e de forma errónea na utilização do mistério como ferramenta, resultando numa experiência insatisfatória, num filme já de si medíocre. Aconselhado a fãs do universo, e ninguém mais.
@SopraCartuchos
Estudante de jornalismo, amante de histórias em todas as formas: escritas, no pequeno e grande ecrã, ou exploradas com um comando de videojogos na mão.

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