9.5
Muito Bom
Cinema / TV

Análise a ‘The End of the F***ing World’

“-Vamos embora deste pardieiro de cidade. Agora. Tu detestas isto, eu detesto isto, os nossos pais são uns palhaços, tu tens um carro.”
Após aceitar esta proposta de Alyssa, James narra para si próprio: “Eu não sabia onde íamos, ou quando a ia matar. Mas dei um murro ao meu pai e roubei-lhe o carro. E achei que era um bom começo.”

O diálogo bruto, desconcertante e repleto de melancolia adolescente, a honestidade das narrações internas das personagens, e o humor transmitido pela idiossincrasia de toda a situação, são o cartão de visita de uma série que tem muito mais para oferecer sob o véu de aventura juvenil.

The End of The F***ing World” (TEOTFW) é uma comédia dramática britânica exibida originalmente no Channel 4, agora disponibilizada pela Netflix. Baseada na banda-desenhada de Charles Forsman, com o mesmo nome e menos asteriscos, a série acompanha as desventuras de James (Alex Lawther) e Alyssa (Jessica Barden), dois jovens de 17 anos com personalidades particularmente singulares. Ele é um autodenominado psicopata que depois de vários anos a matar pequenos animais, procura a sua primeira vítima humana em Alyssa, uma rebelde destemida e sem papas na língua que decide fugir de casa perante os problemas da sua vida familiar. O par aventura-se na fuga com planos diferentes para o seu desfecho, numa viagem atribulada, cheia de pequenos e grandes delitos, num mundo que se revela incrementalmente perigoso para quem procura viver à margem da sociedade.

A excentricidade particular destes personagens, potenciada pelas suas experiências pessoais perturbantes, resulta em solidão por isolamento social autoinfligido. Uma das primeiras ações de Alyssa na introdução da sua personagem é espatifar o seu próprio telemóvel no chão, em resposta à apatia de um mundo onde a sua colega prefere trocar mensagens de texto mesmo quando se encontram frente a frente.

É esta solidão que a atrai para James, ele próprio fechado na sua própria cabeça, um companheiro no desdém pelas normas sociais, e alguém capaz de, como ela, quebrar as regras sem medo das consequências. Esta visão negativa do mundo à sua volta, é tema recorrente e de certa forma justificado ao longo da série, através de vários encontros que exploram as tendências corruptas da natureza humana, quando confrontados com situações ocultas do olhar público.

No lado oposto aos protagonistas, duas polícias seguem no seu encalço enquanto se debatem com a sua relação pessoal. Esta faceta de TEOTFW foi bastante modificada em relação à banda desenhada, adicionando um espírito de policial que destoa da narrativa desconcertante dos adolescentes, e quebra por vezes o ritmo da história de forma desnecessária. Estas cenas mais sérias sedimentam, no entanto, o mundo aparentemente paralelo onde o par de adolescentes vive uma aventura de escapismo, contrastando-o com a realidade que os persegue.

A apresentação da série, dirigida na sua primeira metade por Jonathan Entwistle e nos restantes por Lucy Tcherniak, faz jus ao seu espírito, com uma cinematografia excêntrica reminiscente dos trabalhos de Wes Anderson. Várias composições visuais ilustram narrações dos personagens; enquadramentos cuidados com foco na beleza natural da simetria tornam cada cena em arte visual capaz de falar só por si; slow motions ao som de rock de décadas passadas levam-nos para o imaginário dos personagens.

A inclusão dos pequenos trechos narrativos na mente de Alyssa e James dá-nos a sensação de estar a folhear páginas de um livro escrito a duas perspetivas, encadeando os eventos de forma cativante e criando aquela de vontade de “ler só mais um capítulo”. Para isso contribui o excelente desempenho dos atores principais Alex Lawther e Jessica Barden. As personagens dos quadradinhos de Charles Forsman são trazidas à vida de forma credível e cativante, com todas as suas particularidades, incluindo o foco na interpretação não-verbal requerida na sua estranha relação.

A banda sonora é outro elemento que merece destaque. Maioritariamente composta por escolhas de rock, country e blues dos anos 50 aos 70, dá a sensação de estarmos a explorar uma arrojada coleção de discos de vinil. Os temas de solidão, insegurança e tristeza contrastam com os temas mais divertidos e rebeldes, tal qual coração adolescente.

9.5
Muito Bom
“The End of The F***ing World” é uma série impetuosa, irreverente e emocional, que com apenas oito episódios de 20 minutos cada, é também imperdível. Se não pelas personagens carismáticas ou pelo humor negro britânico, pelo menos para apreciar a beleza do sul de Inglaterra através das lentes de Entwistle e Tcherniak, ao som do imaginário gira-discos de um colecionador excêntrico.
@SopraCartuchos
Estudante de jornalismo, amante de histórias em todas as formas: escritas, no pequeno e grande ecrã, ou exploradas com um comando de videojogos na mão.

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