Análise – “The Weather”, dos Pond (2017)

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A juntar à sua bem composta e prolífera discografia (é o sétimo álbum em oito anos), os Pond lançam finalmente The Weather. Digo “finalmente” não porque o álbum anterior tenha sido lançado há muito tempo, mas porque o psicadelismo da banda australiana é sempre algo irreverentemente fresco no panorama musical – e assim se verifica mais uma vez. Contando, como de costume, com composições tão estranhas quanto cativantes, e com a produção e mistura novamente a cargo de Kevin Parker, este é um álbum cheio de melodias dançantes e paisagens contemplativas, mas também algo que, bem à imagem dos Pond, se pode revelar bastante extravagante e invulgar.

Não foi por acaso que a primeira faixa do álbum foi lançada no dia em que Donald Trump ganhou as eleições americanas. Punida de um sintetizador hipnótico e de uma letra em tom de premonição aterrorizadora, “30000 Megatons” abre as portas de entrada para um álbum sobre o mundo que nos rodeia e sobre todo o medo que daí surge: “And if I was the man on the Moon, I wouldn’t let us near / I’d stand on a crater with my shotgun to the sky / And leave us to our mines and our Tinder ‘til we die / And the Earth will sigh, and the Moon will wipe its brow”. Este é um início incrivelmente poderoso e bem arquitetado; enquanto as trompas anunciam a iminência de um futuro mergulhado em negrume, mais próximo de um “Dr. Strangelove” do que propriamente de uma praia paradisíaca em Perth, a faixa culmina numa calmaria inesperada entre uma melodia solitária e o assobio de uns pássaros, como se, apesar de tudo o que vai acontecendo no planeta, ainda existisse esperança para a Humanidade – o ambiente teatral e catártico desta primeira faixa é uma espécie de apocalipse que nos entra pelos ouvidos e que não queremos deixar de ouvir.

Mas The Weather não é um álbum que se contenta apenas em olhar para o que o rodeia e tecer alguns pensamentos sobre isso, também está profundamente ligado com o mais pessoal e humano que há em nós, e aí “Sweep Me Off My Feet” e “Paint Me Silver” (com uma melodia emprestada pela antiga banda de Todd Rundgren, eterna influência da família Pond e Tame Impala) são certamente os momentos mais imediatamente apaixonantes de todo o catálogo da banda. Com refrões cheios e melodias que fazem voar, as duas faixas constituem uma diferença bastante marcada do clima assombrado do resto do álbum. Mais próximas da introspeção – “I’m not bold or cool or masculine”, “I am not an angel, I’m barely a man” -, ambas pintam com mestria um lugar onde o pop mais ingénuo se funde com o mais doce e dançante psicadelismo, sem por isso perderem qualquer originalidade.

Para além das influências das bandas mais expectáveis, como Pink Floyd ou Flaming Lips, até Prince parece ter emprestado a sua sombra a algumas das músicas, desde os falsettos até aos ritmos e ares mais atraentes. Ainda assim, e mesmo que os Pond tenham ido buscar inspiração a sítios tão aparentemente distintos, existe uma aura retro futurista que cobre qualquer uma das dez faixas do álbum e é precisamente esse ambiente nostálgico e ansioso que a banda melhor consegue trabalhar com total à vontade.

Ambas as partes de “Edge of the World” são um verdadeiro paraíso para os fãs de música progressiva. Não raros são os momentos épicos ao longo do álbum, mas é nestas duas faixas que o clímax chega a um novo degrau de potência – “Pt. 1” pode abrir com um órgão melancólico e um ambiente alienado mas culmina numa rapsódia desenfreada e numa parafernália de instrumentos própria de luta de fim do mundo. Por outro lado, “Pt. 2” tem possivelmente dos melhores momentos instrumentais de todo o álbum e surge quase como um final alternativo a Dark Side of the Moon: a aura de esperança melancólica é complementada pelos acordes solitários da guitarra e Watson entrega a sua voz para encerrar aquela que é uma das mais sonantes e grandiosas composições da banda australiana.

No entanto, se uma parte do álbum está incrivelmente bem executada e pensada, existe outra que merecia uma atenção reforçada durante a fase de escrita de The Weather. “Colder Than Ice” é uma dessas faixas; tem uma atmosfera interessante (parece saída de um policial cool dos anos 80) mas é só isso que tem a seu favor, uma vez que nem sequer soa a uma música acabada – parece uma demo que teve a sorte de entrar na versão final do álbum. “Zen Automaton”, na sua demanda em fundir jazz com beats modernos, acaba por também não conseguir desbocar em terreno particularmente excitante, nem “A/B” consegue aliar de forma orgânica o frenesim pulsante dos Pond mais rockeiros e despreocupados com o piano invocador de um universo mais Frank Ocean do que de um experimentalmente psicadélico. “All I Want for Xmas”, em contrapartida, tem um groove bem construído e a progressão de acordes é realmente vibrante, mas a música é cortada no preciso momento em que o instrumental ganha contornos interessantes com o flanger da bateria a ecoar no sintetizador exuberante; aquela que seria certamente uma bela viagem espacial não chega sequer a levantar voo.

Porém, nenhum destes tiros menos certeiros consegue abafar a grandeza do trabalho que a banda apresenta neste álbum. Se a sua discografia já apontava para um caminho cada vez mais sintetizado e cheio de texturas contemplativamente atmosféricas, The Weather é o ponto alto dessa viagem. A faixa-título conclui com uma paisagem colorida por arpeggios eletrónicos e uma guitarra a gritar num mundo cada vez mais ácido e esse é o culminar perfeito de toda a jornada; cada vez com mais experiência e sem nunca fugir da ponte cósmica que une a música pop à música psicadélica, os Pond estão melhores que nunca.

8
Ótimo
Escrito Por
Com a escrita e a música em plano de fundo desde pequeno, e sendo licenciado em Argumento pela ESTC e autodidata musical por natureza, ambiciona escrever filmes, séries, e compôr música para cinema.

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