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‘Desbobinar’: A narrativa interativa no cinema tradicional

O 8dot5 tem uma nova rubrica, o ‘Desbobinar’, dedicada à análise do estado atual da Sétima Arte. Nesta primeira edição, centrar-me-ei numa questão com nuances futurísticas, mas que é uma realidade já bem assente no presente – a interatividade das narrativas e a capacidade de resposta do cinema tradicional a essa transformação.

A génese deste artigo é, curiosamente, o anúncio do início de produção da quinta temporada de Black Mirror. Nenhuma surpresa, pois a série criada por Charlie Brooker tem estreado num regime anual. Contudo, a grande notícia residiu na intenção de realizar um episódio interativo, onde a audiência, usufruindo da logística dos menus da plataforma de streaming, decidirá o rumo da narrativa. Este modelo de participação ativa no enredo já foi testado e utilizado por alguns criadores de conteúdo no YouTube, por exemplo, pelo que não é nenhuma raridade. Trata-se de uma clara evolução na produção audiovisual televisiva e uma prova de que são eficazes a providenciar uma resposta rápida às necessidades de consumo da era digital. A Netflix assume-se, então, como pioneira desta experiência que pode revolucionar o modo convencional de fazer série e filmes.

É aqui que as maiores produtoras cinematográficas encontram o seu maior desafio. Vivemos num período onde interagimos, predominantemente, através de ecrãs de todos os tamanhos imagináveis. A nossa atenção foca-se naqueles pequenos artefactos reluzentes e perdemos a noção do meio envolvente. Ora, a chave reside no tópico em escrutínio – interação – algo que as telas nas comuns salas de cinema ainda não garantem aos espetadores, limitando a sua atenção à ação que nela decorre. Portanto, serão os cinéfilos capazes de acompanhar o ritmo das mudanças e adequar o grande ecrã às necessidades interativas do público? Realisticamente, será muito difícil, mas é um passo que a indústria têm de dar futuramente, por vivermos numa sociedade de constante evolução.

Teoricamente, a solução mais viável poderia passar por adaptar as infraestruturas que enchem em grandes estreias comerciais. Mas, em termos práticos, não deverá surtir efeito. Embora os custos adjacentes fossem tão dispendiosos quanto a preparação de salas de cinema IMAX ou 3D, no caso destas duas, toda a audiência partilha as mesmas vivências, sentem o mesmo relevo e testemunham a mesma qualidade de imagem.

Numa sala interativa, poderíamos desenhar dois modelos. O primeiro, mais democrático, onde o público votaria na narrativa que quereria seguir. A mais votada seria, obviamente, a que passaria no ecrã. Contudo, facilmente se encontraria um contra-argumento para esta situação. Vários membros da audiência poderiam sentir descontentamento e desinteresse se os seus votos não obtivessem a maioria necessária para exibir o pedaço de enredo que escolheram ver. A segunda, mais trabalhosa, teria por base a construção de várias salas se anexassem à principal e exibissem as narrativas alternativas. Cada um dos indivíduos do público dirigir-se-ia à porta correspondente à narrativa que escolheu para assistir à conclusão, ou continuação, do filme. Novamente, a originalidade teórica (ou falta dela) volta a não suplantar a exequibilidade da execução. Um processo logístico complexo e, além disso, há que considerar indivíduos providos de inércia que lhes dificulta a deslocação, preferindo assumir a posição confortável na cadeira.

A comodidade é, aliás, uma das vantagens dos serviços streaming, para além da sua concorrência intensa. A sensação de ver um filme sem sair de casa, de pernas esticadas no sofá preferido, vence a maioria das cadeiras nas salas de cinema. Saber que se paga uma mensalidade fixa, provavelmente inferior ao valor total inerente à deslocação, preço da bebida e pipocas e do bilhete para a sessão da meia-noite, são outros fatores a favor do streaming a ter em conta. No entanto, há que atender ao controlo sobre a narrativa e a capacidade de esta prender a nossa atenção.

Em casa, podemos escolher quando parar, quando retroceder ou avançar, enquanto no cinema somos participantes passivos. Mal percebamos que a opção de tomar uma decisão voluntária, baseada numa escolha nossa, nos foi negada, mergulhamos num mar de frustração. Porque, na grande parte da nossa vida, raramente temos controlo absoluto sobre as nossas ações. Assim, rapidamente perdemos o interesse, viramo-nos para outra situação onde nos é dada a soberania sobre o rumo dos acontecimentos. A título ilustrativo, já testemunhei vários indivíduos obcecados com o conteúdo nos seus pequenos brilhantes ecrãs de bolso em pleno clímax de uma narrativa. Outros, não tão incomodativos (se a sua respiração for suave), decidem descansar os olhos durante a sessão. Compreensivo, pois o escuro e temperatura ambiente convidam a isso, mas desvirtua o sentido da obra artística. Daí o abraço entre cinema tradicional e narrativa interativa poder ser benéfico para captar a atenção da audiência. Esta seria colocada numa posição privilegiada de comando e com a necessidade em centrar o foco exclusivamente no enredo. As suas escolhas teriam preponderância e, automaticamente, sentir-se-iam valorizados, permitindo uma maior repetição da experiência.

A solução que os produtores audiovisuais arranjaram para se alinharem com as novas tendências foi criar sinergias com alguns distribuidores que têm surgido no campo do digital. Uns optam por disponibilizar as suas obras em plataformas como a Netflix, por exemplo, e outros já criam filmes exclusivos para o serviço que conta com mais de 130 milhões de subscrições. A meu ver, estas associações poderão ser benéficas para a inovação da Sétima Arte, pois farão com que o consumidor queira experimentar novas formas de ver cinema.  Não quer isto dizer que o cinema convencional se tornará obsoleto. Este, juntamente com as plataformas streaming, não são mutuamente exclusivas. São formas diferentes e válidas de consumir conteúdo, portanto, a sua relevância mantém-se intacta, não obstante a ausência de interatividade. Podem tirar partido da sua coexistência para poder responder ativa e eficientemente às cada vez mais constantes mudanças na sociedade. Pelo menos, de maneira a poder envolver, realisticamente, uma audiência que procura maior envolvimento nas narrativas.

O cinema continua, contudo, a ser uma experiência imersiva. Daí estarmos distantes de uma realidade semelhante à do universo ficcional de Black Mirror. Desfrutar uma sessão de cinema interativo numa sala convencional é, de momento, um conceito embrionário. Mas, acredito que, melhor que eu, os realizadores e produtores sabem qual o caminho a tomar para manter a atratividade no cinema. Se forem capazes de introduzir interatividade nas salas vulgares, serei o primeiro a saudá-los. Isto, pois a Sétima Arte detêm uma infindável capacidade de se adaptar e inovar.

 

A escrita, o cinema e a Netflix são o norte deste rapaz que procura não se perder no Mestrado em Gestão de Marketing.
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