DocLisboa ’17 – Análise a Alguns dos Filmes do Festival

O DocLisboa, festival de cinema documental, chegou ao final de mais uma edição. Não tendo tido oportunidade para ver todos os filmes que lá foram exibidos, eis a análises a alguns deles:

If I Think of Germany at Night (Romuald Karmakar) – Alemanha; 106’

Este é um filme que prometia retratar uma atmosfera vibrante e frenética de música eletrónica disparada por colunas potentes. No entanto, o filme é território desinteressante. Num suposto documento sobre música, é normal esperar-se música; Romuald Karmakar discorda, perdendo mais tempo em reflexões e devaneios pessoais do que em clubs, sem nos deixar emergir realmente no mundo que ele tão desesperadamente quer tratar.

5/10

Bill Frisell: A Portrait (Emma Franz) – Austrália; 114’

Emma Franz mostra um Bill Frisell – um dos mais influentes e criativos guitarristas da contemporaneidade – adorado por todos os colegas de profissão e feliz com a sua carreira. Mas ainda que o retrato seja interessante para fãs de jazz e conhecedores da sua obra, o filme não se esforça minimamente em ensinar o legado de Frisell de maneira a que mais pessoas (não ligadas à música jazz) o tenham vontade de ouvir e seguir.

5.5/10

Sleep Has Her House (Scott Barley) – Reino Unido; 90’

Scott Barley, habituado a experimentalismos com paisagens naturalistas, trouxe a Lisboa a sua primeira longa-metragem. Sleep Has Her House mostra a natureza no seu estado mais pesadamente contemplativo; a imagem, mais próxima da pintura do que do cinema comercial, consegue transpor aquilo que de mais negro existe nas aparentemente calmas paisagens cobertas por árvores, cascatas, e todos os outros elementos necessários para a criação de uma floresta global.

O filme acaba por se estender demasiado e talvez tivesse sido mais bem-sucedido num formato mais restrito e fechado, como uma curta-metragem. Por mais bem construída que esteja toda a Fotografia ou o design sonoro, o filme acaba por impedir que o espetador se emirja totalmente porque não chega a apresentar setpieces diferentes o suficiente umas das outras, fazendo com que a nossa mente vá, invariavelmente, divagando para outras coisas que não o filme que temos diante dos olhos.

A sequência final, no entanto, faz valer completamente a pena. É uma das imagens mais aterradoras e brilhantes de todos os filmes lançados este ano.

7/10

The Fish (Martin Verdet) – França; 82’

Muito resumidamente, o filme é um mar de aborrecimento. Se um peixe grande é o ponto mais alto do filme, então os restantes setenta e tal minutos são reles plâncton. Os planos estendem-se por demasiado tempo, a história não é tão interessante assim; o documentário falha no mais importante: manter-nos ligados ao filme.

A questão mais interessante do filme tem a ver com a sua génese e consequente resultado – será The Fish um documentário? Terá partes ficcionadas? Até que ponto é que Martin Verdet quer que reflitamos sobre isto? A resposta, aparentemente, não deve ser muito extensa, uma vez que o filme está tão preso a si mesmo, mergulhado na sua própria monotonia e rotina, que não dá espaço ao espetador para se envolver nele e se interessar seriamente.

3/10

Electro-Pythagorus (A Portrait of Martin Bartlett) (Luke Fowler) – Reino Unido e Canadá; 45’

Navegando por entre filmagens de arquivo, bem como fotografias, cartas e blocos de notas, Electro-Pythagoras é um documento bem construído sobre Martin Bartlett. O resultado é um filme experimental, fora de si mesmo e que ambiciona (e talvez consiga mesmo) criar um retrato tridimensional de um dos pioneiros da música eletrónica. A música funde-se com as imagens, a sua vida privada funde-se com os seus medos e inseguranças, as suas ideias com descrições das suas emoções. O filme é rico exatamente nesse aspeto – Luke Fowler absorveu tudo o que pôde sobre Bartlett e desenhou um mundo onde podemos realmente espreitar para dentro da cabeça do músico.

8/10

Conversation with a Cactus (Marcel Türkowsky & Elise Florenty) – França, Alemanha e Japão; 45’

Este é um daqueles filmes cuja premissa nos faz automaticamente querer vê-lo. Infelizmente, também se trata de um daqueles filmes que soa melhor em teoria do que na prática. O conceito de alguém falar com um cato é extremamente aliciante, sim, mas o filme falha em conseguir trazer essa ideia a bom porto. Ainda que a sua duração não seja própria de uma longa-metragem, o filme demora-se mais do que o que devia. Arrastando-se por planos superficiais à história e cenas pouco importantes à narrativa geral, Marcel Türkowsky & Elise Florenty criaram um documento que consegue chamar a atenção mas não prendê-la totalmente.

6/10

Escrito Por
Com a escrita e a música em plano de fundo desde pequeno, e sendo licenciado em Argumento pela ESTC e autodidata musical por natureza, ambiciona escrever filmes, séries, e compôr música para cinema.

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