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Teste a ‘Hitman 2’

O número pode ser apenas o 2, mas a já longa saga Hitman, ao longo dos anos, ganhou o seu lugar dentro do género dos jogos de ação furtiva. Hitman 2 é a continuação direta do excelente Hitman do ano passado, de tal forma que poderão importar os níveis do primeiro jogo para o segundo, se o tiverem adquirido antes na mesma plataforma, seja PS4, Xbox One ou Steam. E, tal como esse primeiro jogo, podem adquiri-lo de várias maneiras: ou comprando o jogo completo, ou comprando individualmente cada um dos episódios que o compõem, numa lógica de apenas se comprar aquilo a que se joga, ou de se poder comprar um jogo às prestações. O que, diga-se de passagem, é um bom modelo de negócio: os jogadores sentem-se mais à vontade para investir, e a editora recebe o seu capital. O prólogo, tal como no jogo do ano passado, continua a ser gratuito, e funciona como uma espécie de demonstração do jogo, mas que guarda o nosso progresso depois de comprarmos o jogo original. Ou seja, se não o quiserem comprar já, podem experimentá-lo e ver se gostam.

Pois nós gostámos. E muito. Mas Hitman 2 não é um jogo para toda a gente: se pensam em entrar em salas cheias de gente aos tiros, ou se acham que vão enfrentar guardas de metralhadora em punho, esqueçam. Aqui não há mesmo a hipótese de nos armarmos em Rambos, pois qualquer deteção por parte dos muitos NPCs que povoam os cenários significa, quase sempre, uma morte rápida e sem hipótese de luta. Em Hitman 2 controlamos um assassino a soldo, que deve encontrar e assassinar os alvos com o menor alarido possível, de preferência sem ser visto por ninguém e sem deixar qualquer pista que o possa comprometer no momento da fuga. Cada um dos alvos encontra-se num cenário diferente que, sendo em regra pequeno, nos possibilita encontrar dezenas de formas diferentes de matar o nosso alvo. E é esta a genialidade por detrás de Hitman 2: seja com um tiro certeiro na cabeça, seja por envenenamento, seja com o garrote, ou seja ainda num “acidente”, é extremamente gratificante conseguirmos navegar pelo cenário, encontrar diferentes NPCs, roubar-lhes as roupas para nos disfarçarmos, procurar diferentes itens, que vão de gazuas a veneno para ratos, e engendrar um plano, sempre diferente, para abater a nossa vítima. Hitman 2 apela à nossa criatividade, à nossa capacidade de análise, ao nosso sangue frio, para chegarmos ao nosso objetivo, e fá-lo de forma que queremos repetir o mesmo cenário uma e outra vez só para tentarmos encontrar soluções diferentes e desbloquearmos as inúmeras proezas do jogo.

Hitman 2 é surpreendentemente enganador ao nível do conteúdo, mas no bom sentido: parece pequeno, com apenas meia dúzia de cenários de área limitada, mas a quantidade de vezes que vamos querer repetir cada um deles torna o jogo enorme, para nem falar dos diversos modos multijogador, dos quais destacamos o modo competitivo Ghost, no qual dois jogadores correm um contra o outro tentam ser o mais rápido eliminar uma série de alvos escolhidos aleatoriamente. Os Elusive Targets estão de volta, e são alvos que apenas aparecerão uma única vez no jogo, sendo que o primeiro aparece já na próxima semana. Nem todos os jogadores tentarão apanhá-los, e muitos menos ainda conseguirão, mas são estes pequenos eventos que nos fizeram querer voltar ao primeiro Hitman, e vão fazer o mesmo neste segundo jogo.

O argumento de Hitman 2 é interessante, e suficientemente bom para nos fazer crer que estamos dentro de um filme da saga de Bourne, mas apenas fará sentido para quem jogou ao primeiro jogo, pelo que é recomendável que o adquiram antes ou, melhor ainda, que comprem os níveis para jogar neste segundo título. Tecnicamente, estamos perante um jogo quase perfeito: as músicas são tensas, criando a atmosfera que se pretende, o trabalho vocal é excelente, mas o que se destaca mesmo é o grafismo, do melhor que já vimos até hoje, detalhado, realista, colorido, apoiado num motor gráfico fluido, mesmo em alturas que se juntam muitas personagens no ecrã.

Hitman 2 não pretende inovar nem revolucionar a indústria dos videojogos. Não é muito original, não introduz novas mecânicas, não tem momentos de nos deixar de boca aberta. Para dizer a verdade, é o mesmo jogo do ano passado, mas com episódios diferentes. Mas também não precisa. Hitman 2 é divertido, está bem feito, cumpre na perfeição aquilo a que se propõe. Não é isso que interessa?

Pedro Moreira é Reviewer no 8.5Bits | twitter @morenho27 | pedromoreira@8dot5bits.com

Um Olhar sobre a Música de ‘Assim Nasce Uma Estrela’

“Talvez já seja tempo de largar os costumes” é um verso recorrente de uma das mais emblemáticas canções de “Assim Nasce Uma Estrela”. Embora simples, a letra de “Maybe It’s Time”, interpretada por Bradley Cooper, conta-nos muito sobre a personagem de Jackson Maine e o seu destino ainda no primeiro acto do filme. Todos os elementos que compõem uma narrativa têm obrigatoriamente servir e fundamentar as acções das personagens e projectar as suas expectativas, emoções, estados de espírito e pressagiar o futuro. Uma música que esteja num filme e que não tenha fundamento, torna-se num ornamento e deixa de fazer sentido pois não oferece ao espectador nenhum insight. “Assim Nasce Uma Estrela”, para além das excelentes interpretações, surpreende pelo argumento que utiliza as músicas como canais de comunicação e não como meros artifícios.

Os filmes são feitos de acções que levam as personagens do ponto A ao ponto B, do B ao C… As decisões tomadas pelas personagens impulsionam estes movimentos que fazem o argumento progredir. Ao indicar presságios, ou foreshadowings, o argumentista ou realizador está a redireccionar ou a engodar a atenção do espectador para uma concretização final de algo, o pay-off, que poderá ou não fazer parte da reviravolta de acontecimentos, ou o twist. “Maybe It’s Time” caracteriza Jackson em futuras acções e é um presságio para o twist final de “Assim Nasce Uma Estrela”.

Maybe It’s Time To Let The Old Ways Die / “Talvez já seja tempo de largar os costumes”

Esta é uma lenta reflexão sobre a personagem de Jackson Maine. Ele incorpora os the old ways e a complexidade de se superar e, de facto, mudar. A referência à morte é um novo foreshadowing. Fecha-se aqui uma inevitabilidade. Jackson Maine, embora tente mudar, não consegue, o que irá conduzir para um desfecho fatal. Segue-se uma curta exploração do passado, da fé e da realização de que de facto não existe uma entidade superior: “I’ve seen hell in Reno / And this world’s one big ol’ Catherine wheel / Spinnin’ still”. Por mais volta que dê, Jackson vai sempre regressar ao ponto de origem, sem intervenção divina. Ele não vai mudar e isso será o seu fim. Maybe it’s time to let the old ways die.

Shallow / “Futilidade”

Este é o hino do filme. Embora seja de facto uma canção que fica no ouvido, o seu conteúdo é um mecanismo que serve de ponto de viragem. In the good times / I find myself longing for change / And in the bad times I fear myself. Ambos dizem isto antes da bridge para o refrão. Temos aqui de novo um foreshadowing – mas no seu todo, este é um ponto de viragem no filme, em que Jackson e Ally cruzam os seus destinos. Daí ser ser tão especial, onde verificamos um conjunto de elipses que reforçam a sua relação ao longo de vários concertos.

Always Remember Us This Way / “Vou lembrar-me sempre de nós desta maneira”

Para mim esta é uma das melhores canções do filme. É um epílogo de “Shallow”, talvez ainda no ecoar de “In the good times / I find myself longing for change”.

Look What I Found / “Olha o que eu encontrei”

Aqui temos uma canção interessante. “Another piece of my heart just laying on the ground” é quase que um presságio da derradeira canção. Aqui Ally no filme não consegue ajustar a sua voz dentro do booth de gravação, e apenas com as indicações de Jackson para trazer o piano para o interior do estúdio é que Ally consegue coordenar a voz e o ritmo. É uma prova da estreita ligação deles os dois.

I’ll Never Love Again / “Não vou voltar a amar”

A primeira coisa que me lembrei ao ouvir os primeiros segundos da canção foi de Whitney Houston em “One Moment In Time”. Penso que esta canção é fortemente influenciada por um estilo organicamente cinematográfico, o que coloca esta como, na minha opinião, a melhor canção original deste ano. Lembro-me no ano passado de Coco com “Remember Me” que acabou por arrecadar o Oscar de Melhor Canção Original. “Remember Me” serve exclusivamente a narrativa, tanto para pomposidade da personagem de Ernesto de la Cruz, como para a verdadeira essência da canção e o propósito de que Héctor a escreveu. Estas são as canções que servem para oferecer noções, informações adicionais, indícios, de uma forma directa ou indirecta ao espectador. Servem para pintar elipses como “Shallow” e a sequência de concertos, para indiciar a morte de uma personagem como em “Maybe It’s Time To Let The Old Ways Die“, para tonificar a relação de Jackson e Ally como na nostalgia de “Always Remember Us This Way“, ou no assegurar de que tudo está bem se eles continuarem juntos, como em “Look What I Found“.

A banda sonora é composta por uma variedade de músicas que vale a pena ouvir. Até a diferença de tom na transição de Ally para uma cantora a solo nas mãos da Interscope Records, se torna num presságio do que iria acabar por acontecer.

Shallow” entrou no top 100 da canções mais ouvidas do Deezer no mundo inteiro e continua a crescer a subir nessa lista todos os dias. Paris, Charenton-le-Pont, São Paulo, Rio de Janeiro e Londres são as cidades onde a música mais soa nos headphones. França, Brasil, Reino Unido, Alemanha e Holanda lideram o número de vezes em que a canção foi ouvida.

A minha aposta para os principais prémios do ano que vem é sem dúvida esta banda sonora original e “I’ll Never Love Again” como melhor canção original do ano. A procura de público jovem para a gala de entrega dos Oscars vai centrar-se em Lady Gaga e é uma oportunidade única da Academia ter a cantora a actuar em palco.

“Assim Nasce uma Estrela” é um dos melhores filmes do ano, para ver e ouvir. Um filme inspirador que aproveita a alma dos anteriores 3 filmes e transforma a fórmula num evento cinematográfico extraordinário, com representações fantásticas, um argumento sólido e uma realização que, embora não seja o maior destaque, é o suficiente para colocar o filme no nosso TOP 10 de 2018.

A banda sonora pode ser ouvida, gratuitamente aqui:

Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald – Review

Uma sequela sobrecarregada de magia, esta segunda rodagem, da nova saga de filmes da brilhante escritora inglesa J.K. Rowling, é uma continuação do mundo mágico de Harry Potter, agora numa amostra mais aprofundada dos detalhes e enredos pouco explorados do primeiro filme de Monstros Fantásticos, que seguem as aventuras de um jovem Newt Scamander por mundo fora.

Novamente ao comando está David Yates, já o sexto filme do universo Harry Potter que o realizador inglês dirige, chega finalmente amanhã aos nossos cinemas um dos filmes mais aguardados pelos fãs, e se for realmente um verdadeiro e genuíno, vai sair da sua sala de cinema embriagado de todas as revelações que este filme o vai presentear, com muitas novidades e referências ao mundo mágico que esta continuação vai deixar em aberto, num filme que é a verdadeira ponte, como o anterior não foi e por isso falhou, para os próximos capítulos desta nova e revigorada saga mágica.

O casting não podia ser melhor, com Jude Law, num papel de um ainda jovem Albus Dumbledore, e Johnny Depp, a representar o novo vilão Gellert Grindelwald, somando aos restantes atores que fizeram a sua aparição no primeiro filme de Monstros Fantásticos, ainda com a adição de um punhado de novas personagens que o vão certamente deliciar, num filme cativante e que pede por mais.

Resume-se a um filme épico, que começa e pega no final do anterior, e que transporta novamente os pouco convencidos do último filme, diga-se como eu, para novamente uma sensação mágica que nos leva à infância dos filmes que crescemos a ver, e traz de volta a magia, tanto em sequências de batalhas como em efeitos especiais, todo o mistério negro e dramático de um filme de fantasia, e para quem sempre esteve aí para este tipo de filmes, o vai voltar a reconsiderar com prazer, e lhe vai dar novamente aquele clique, mesmo numa história um tanto complexa, com muita nova informação para absorver e acompanhar, vai certamente acabar por achar, no fim do dia, um dos melhores do universo fantástico Harry Potter.

Contudo, falha em alguns aspetos, sobretudo técnicos, e posto assim em pratos limpos, o guião e a história em geral são muito fracos, para quem naturalmente estiver atento a esses detalhes, também a nível do detalhe da produção e design o filme é uma falha, por vezes perde-se a noção do tempo real em que o filme ocorre, e para quem o filme não fizer efeito, vai ser só mais um para encher o pote, um pouco repetitivo para quem não achar piada, muita personagem nova e pouco ou mesmo mal introduzidas, um filme que a certa altura, em aspetos técnicos, lembra a história do cão a perseguir a sua própria cauda, muito à volta da mesma coisa, direções vagas tomadas pelos personagens, história mal construída, mais longa que um autocarro, muito orçamento gasto em pouco conteúdo argumentativo e que desilude quem o toma com a atenção devida, o filme que é em sua medida grandioso mas que em certos e simples aspetos, toma a pior e mais desapontante direção para o abismo fílmico, onde nem havia razão para acontecer, se melhor fosse sido trabalhado.

É confuso, sim, complexo, sim, cheio de informação, sim, muitas vezes sem sentido, sim, parece que estão a pôr cinco filmes num só livro, sim, é esse o resultado do filme, e teve o seu custo para a crítica, mas se tu aí és um fiel fã, vais simplesmente ignorar todo o pouco cuidado no filme e apenas absorver a magia que este reproduz sobre a tela branca da tua sala de cinema, a magia pura dos cenários que recordas de ver há anos atrás, magníficas performances dos personagens que recordavas ver, das consequências do filme passado a serem respondidas, um filme que surpreende pelo modo divertido como volta a inovar, e se o primeiro filme te deixou desapontado, este é capaz de ser a resposta para voltares a seguir de perto e com atenção.

E pensa que é só ainda uma parte, destes 5 prometidos filmes que irão ser lançados ao longos dos próximos dez anos, vais ter muito mais por descobrir, muito mais universo mágico por reencontrar e memorar, filmes mais adultos e sérios que os que outrora vistes, e por isso sobretudo para a geração anterior que relembra com carinho ser uma enorme espectativa, vamos aguardar por mais elementos mágicos que só estes filme têm a capacidade de dar, e vamos, em conjunto, ter muito mais por explorar.

Aproveita todas as espetaculares performances do filme, que este é só uma abordagem e rampa de lançamento para os próximos, e vai ao cinema ver, acreditando que este é, como em magia mas com mais detalhe a nível de história e complexidade do primeiro, que no geral, é um episódio seguro e empolgante para os que virão aí a seguir, e que vais querer acompanhar.

Só uma palavra, mas que em nada surpreende, vindo de quem vem, para a  escritora mais criativa da sua geração, que volta a conseguir pôr nos carris esta magia toda que nos fascina, toda a lógica detalhada da sua fantasia é uma obra que vai para sempre perdurar, e tira-se o chapéu a esta criativa dos tempos atuais, que sistematicamente escreve da sua imaginação o que em nela habita, do mais ínfimo pormenor até ao detalhe mais crepitante, para os fãs deste tipo de leitura é uma referência, certamente de nível mesmo mundial.

Não revelando mesmo nada sobre o filme, apresentamos aqui a nossa sugestão mágica de cinema, para esta semana fria que se aproxima, e vá revisitar o mundo mágico que em si habita, com varinhas ao alto e tudo mais, tire um tempo e passe para ver, Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald.

Fica com o trailer…

 

 

TÍTULO ORIGINAL: Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald
DATA DE ESTREIA: 13/11/2018
REALIZAÇÃO: David Yates
ARGUMENTO: J.K. Rowling
ELENCO: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Folger, Alison Sudol, Ezra Miller, Jude Law, Johnny Depp
GÉNERO: Aventura, Fantasia, Família
PAÍS: Reino Unido, EUA
ANO: 2018
DURAÇÃO: 130 minutos

 

 

 

 

 

 

 

Análise a ‘Big Mouth’ – Temporada 2

Tal como o genérico nos indica através da música Changes, de Charles Bradley, as personagens da série criada por Nick Kroll e Andrew Goldberg vivem momentos de mudança quanto à génese das suas identidades. Com uma segunda temporada mais coesa e matura, Big Mouth prossegue a narração das intempéries vividas por cinco jovens a entrar na puberdade, onde a sua inocência é aprimorada por um toque de robustez adulta.

As suas aventuras são, em grande parte, baseada nas vivências de ambos os criadores. É um elemento que personaliza a série e possibilita a sua diferenciação. Para efeitos cómicos, muitos desses momentos são hiperbolizados e, ao contrário do que sucedera nos capítulos inaugurais, foram manuseados com maior perícia nos novos episódios. Existem elos de ligação entre os episódios que se tornam relevantes para o desenlace da narrativa e eliminam quaisquer pontas soltas. O humor surreal, ainda que presente, não foi considerado como prioridade, tendo sido utilizado pontualmente como suporte secundário de um enredo mais estruturado e com o intuito de envolver a audiência na estória.

Um dos exemplos do salto de qualidade foi a utilização dos Monstros das Hormonas, que continuam a aterrorizar os protagonistas, servindo de metáfora aos ingénuos devaneios que marcam a transição para a adolescência. Na primeira temporada, a sua presença revelou-se algo confusa e, ocasionalmente, forçada, quase que implorando o público para soltar uma gargalhada nada genuína. Agora, na segunda, tornam-se sólidos e pivotais para a compreensão das atitudes de Nick e seus amigos. Contribuem com um humor mais refinado e permitem o desenvolvimento das personagens, que fora descurado anteriormente. Para tal também ajudou a introdução do Feiticeiro da Vergonha, com a voz de David Thewlis, um outro representante do campo simbólico da série. Este acrescenta maior relevo aos comportamentos características de miúdos de treze anos e introduz a noção de consequência e culpa nos atos dos protagonistas, fazendo jus ao nome. A omnipresença de monstros, feiticeiros e outros seres figurativos permite interligar as personagens e evitam a incoerência das suas motivações. Kroll e Goldberg mostram estar conscientes do seu trabalho ao corrigirem, então, algumas unidades menos conseguidas da primeira temporada.

Certo é que mesmo alterando algumas componentes, as idiossincrasias mantêm-se intactas. Em Big Mouth, a mixórdia de universos não se cinge a seres que influenciam o ciclo biológico dos protagonistas. É possível encontrar Nick a questionar os fantasmas de Duke Ellington e Freddie Mercury, a viver no seu sótão, sobre diversos assuntos amorosos. Almofadas e tapetes ganham vida por razões sobre as quais não me irei pronunciar e a imaturidade infantil é refletida não nos jovens da narrativa, mas sim num dos mais peculiares professores de Educação Física da história da televisão.

O absurdo, portanto, mantém-se predominante e garante identidade à série. A elegância com que a comédia se apresenta na segunda temporada pode tornar Big Mouth mais tolerável para qualquer pessoa. Reduziu-se a necessidade de chocar e de exibir conteúdos grotescos (mas sempre dentro dos limites do bom senso). Pôs-se um travão na necessidade de impor a comédia como fator obrigatório e introduziu-se maior estrutura a nível de pensamento criativo. Contudo, os criadores não deixam de desafiar o politicamente correto com abordagens arrojadas a temas que, por vezes, são deixados de parte neste meio de comunicação. É um fator que premeia a coragem de Big Mouth, ao mesmo tempo que faz uma pessoa adulta identificar-se com o relato da premissa da série.

A segunda temporada de Big Mouth pode continuar a não ser para todos os gostos devido ao tratamento sem filtros dos guiões. Um ano após a estreia, continua a solidificar-se na sua viagem de regresso aos tempos atribulados da puberdade, agora com capítulos mais maturos. Conquistou o seu nicho e encontrou um espaço vazio no mercado, onde parece estabelecer-se como uma potência emergente nas comédias de animação.

 

Editor's Choice

Teste a ‘Hitman 2’

O número pode ser apenas o 2, mas a já longa saga Hitman, ao longo dos anos, ganhou o seu lugar dentro do género dos jogos de ação furtiva. Hitman 2 é a continuação direta do excelente Hitman do ano passado, de tal forma que poderão importar os níveis do primeiro jogo para o segundo, se o tiverem adquirido antes na mesma plataforma, seja PS4, Xbox One ou Steam. E, tal como esse primeiro jogo, podem adquiri-lo de várias maneiras: ou comprando o jogo completo, ou comprando individualmente cada um dos episódios que o compõem, numa lógica de apenas se comprar aquilo a que se joga, ou de se poder comprar um jogo às prestações. O que, diga-se de passagem, é um bom modelo de negócio: os jogadores sentem-se mais à vontade para investir, e a editora recebe o seu capital. O prólogo, tal como no jogo do ano passado, continua a ser gratuito, e funciona como uma espécie de demonstração do jogo, mas que guarda o nosso progresso depois de comprarmos o jogo original. Ou seja, se não o quiserem comprar já, podem experimentá-lo e ver se gostam.

Pois nós gostámos. E muito. Mas Hitman 2 não é um jogo para toda a gente: se pensam em entrar em salas cheias de gente aos tiros, ou se acham que vão enfrentar guardas de metralhadora em punho, esqueçam. Aqui não há mesmo a hipótese de nos armarmos em Rambos, pois qualquer deteção por parte dos muitos NPCs que povoam os cenários significa, quase sempre, uma morte rápida e sem hipótese de luta. Em Hitman 2 controlamos um assassino a soldo, que deve encontrar e assassinar os alvos com o menor alarido possível, de preferência sem ser visto por ninguém e sem deixar qualquer pista que o possa comprometer no momento da fuga. Cada um dos alvos encontra-se num cenário diferente que, sendo em regra pequeno, nos possibilita encontrar dezenas de formas diferentes de matar o nosso alvo. E é esta a genialidade por detrás de Hitman 2: seja com um tiro certeiro na cabeça, seja por envenenamento, seja com o garrote, ou seja ainda num “acidente”, é extremamente gratificante conseguirmos navegar pelo cenário, encontrar diferentes NPCs, roubar-lhes as roupas para nos disfarçarmos, procurar diferentes itens, que vão de gazuas a veneno para ratos, e engendrar um plano, sempre diferente, para abater a nossa vítima. Hitman 2 apela à nossa criatividade, à nossa capacidade de análise, ao nosso sangue frio, para chegarmos ao nosso objetivo, e fá-lo de forma que queremos repetir o mesmo cenário uma e outra vez só para tentarmos encontrar soluções diferentes e desbloquearmos as inúmeras proezas do jogo.

Hitman 2 é surpreendentemente enganador ao nível do conteúdo, mas no bom sentido: parece pequeno, com apenas meia dúzia de cenários de área limitada, mas a quantidade de vezes que vamos querer repetir cada um deles torna o jogo enorme, para nem falar dos diversos modos multijogador, dos quais destacamos o modo competitivo Ghost, no qual dois jogadores correm um contra o outro tentam ser o mais rápido eliminar uma série de alvos escolhidos aleatoriamente. Os Elusive Targets estão de volta, e são alvos que apenas aparecerão uma única vez no jogo, sendo que o primeiro aparece já na próxima semana. Nem todos os jogadores tentarão apanhá-los, e muitos menos ainda conseguirão, mas são estes pequenos eventos que nos fizeram querer voltar ao primeiro Hitman, e vão fazer o mesmo neste segundo jogo.

O argumento de Hitman 2 é interessante, e suficientemente bom para nos fazer crer que estamos dentro de um filme da saga de Bourne, mas apenas fará sentido para quem jogou ao primeiro jogo, pelo que é recomendável que o adquiram antes ou, melhor ainda, que comprem os níveis para jogar neste segundo título. Tecnicamente, estamos perante um jogo quase perfeito: as músicas são tensas, criando a atmosfera que se pretende, o trabalho vocal é excelente, mas o que se destaca mesmo é o grafismo, do melhor que já vimos até hoje, detalhado, realista, colorido, apoiado num motor gráfico fluido, mesmo em alturas que se juntam muitas personagens no ecrã.

Hitman 2 não pretende inovar nem revolucionar a indústria dos videojogos. Não é muito original, não introduz novas mecânicas, não tem momentos de nos deixar de boca aberta. Para dizer a verdade, é o mesmo jogo do ano passado, mas com episódios diferentes. Mas também não precisa. Hitman 2 é divertido, está bem feito, cumpre na perfeição aquilo a que se propõe. Não é isso que interessa?

Pedro Moreira é Reviewer no 8.5Bits | twitter @morenho27 | pedromoreira@8dot5bits.com

Um Olhar sobre a Música de ‘Assim Nasce Uma Estrela’

“Talvez já seja tempo de largar os costumes” é um verso recorrente de uma das mais emblemáticas canções de “Assim Nasce Uma Estrela”. Embora simples, a letra de “Maybe It’s Time”, interpretada por Bradley Cooper, conta-nos muito sobre a personagem de Jackson Maine e o seu destino ainda no primeiro acto do filme. Todos os elementos que compõem uma narrativa têm obrigatoriamente servir e fundamentar as acções das personagens e projectar as suas expectativas, emoções, estados de espírito e pressagiar o futuro. Uma música que esteja num filme e que não tenha fundamento, torna-se num ornamento e deixa de fazer sentido pois não oferece ao espectador nenhum insight. “Assim Nasce Uma Estrela”, para além das excelentes interpretações, surpreende pelo argumento que utiliza as músicas como canais de comunicação e não como meros artifícios.

Os filmes são feitos de acções que levam as personagens do ponto A ao ponto B, do B ao C… As decisões tomadas pelas personagens impulsionam estes movimentos que fazem o argumento progredir. Ao indicar presságios, ou foreshadowings, o argumentista ou realizador está a redireccionar ou a engodar a atenção do espectador para uma concretização final de algo, o pay-off, que poderá ou não fazer parte da reviravolta de acontecimentos, ou o twist. “Maybe It’s Time” caracteriza Jackson em futuras acções e é um presságio para o twist final de “Assim Nasce Uma Estrela”.

Maybe It’s Time To Let The Old Ways Die / “Talvez já seja tempo de largar os costumes”

Esta é uma lenta reflexão sobre a personagem de Jackson Maine. Ele incorpora os the old ways e a complexidade de se superar e, de facto, mudar. A referência à morte é um novo foreshadowing. Fecha-se aqui uma inevitabilidade. Jackson Maine, embora tente mudar, não consegue, o que irá conduzir para um desfecho fatal. Segue-se uma curta exploração do passado, da fé e da realização de que de facto não existe uma entidade superior: “I’ve seen hell in Reno / And this world’s one big ol’ Catherine wheel / Spinnin’ still”. Por mais volta que dê, Jackson vai sempre regressar ao ponto de origem, sem intervenção divina. Ele não vai mudar e isso será o seu fim. Maybe it’s time to let the old ways die.

Shallow / “Futilidade”

Este é o hino do filme. Embora seja de facto uma canção que fica no ouvido, o seu conteúdo é um mecanismo que serve de ponto de viragem. In the good times / I find myself longing for change / And in the bad times I fear myself. Ambos dizem isto antes da bridge para o refrão. Temos aqui de novo um foreshadowing – mas no seu todo, este é um ponto de viragem no filme, em que Jackson e Ally cruzam os seus destinos. Daí ser ser tão especial, onde verificamos um conjunto de elipses que reforçam a sua relação ao longo de vários concertos.

Always Remember Us This Way / “Vou lembrar-me sempre de nós desta maneira”

Para mim esta é uma das melhores canções do filme. É um epílogo de “Shallow”, talvez ainda no ecoar de “In the good times / I find myself longing for change”.

Look What I Found / “Olha o que eu encontrei”

Aqui temos uma canção interessante. “Another piece of my heart just laying on the ground” é quase que um presságio da derradeira canção. Aqui Ally no filme não consegue ajustar a sua voz dentro do booth de gravação, e apenas com as indicações de Jackson para trazer o piano para o interior do estúdio é que Ally consegue coordenar a voz e o ritmo. É uma prova da estreita ligação deles os dois.

I’ll Never Love Again / “Não vou voltar a amar”

A primeira coisa que me lembrei ao ouvir os primeiros segundos da canção foi de Whitney Houston em “One Moment In Time”. Penso que esta canção é fortemente influenciada por um estilo organicamente cinematográfico, o que coloca esta como, na minha opinião, a melhor canção original deste ano. Lembro-me no ano passado de Coco com “Remember Me” que acabou por arrecadar o Oscar de Melhor Canção Original. “Remember Me” serve exclusivamente a narrativa, tanto para pomposidade da personagem de Ernesto de la Cruz, como para a verdadeira essência da canção e o propósito de que Héctor a escreveu. Estas são as canções que servem para oferecer noções, informações adicionais, indícios, de uma forma directa ou indirecta ao espectador. Servem para pintar elipses como “Shallow” e a sequência de concertos, para indiciar a morte de uma personagem como em “Maybe It’s Time To Let The Old Ways Die“, para tonificar a relação de Jackson e Ally como na nostalgia de “Always Remember Us This Way“, ou no assegurar de que tudo está bem se eles continuarem juntos, como em “Look What I Found“.

A banda sonora é composta por uma variedade de músicas que vale a pena ouvir. Até a diferença de tom na transição de Ally para uma cantora a solo nas mãos da Interscope Records, se torna num presságio do que iria acabar por acontecer.

Shallow” entrou no top 100 da canções mais ouvidas do Deezer no mundo inteiro e continua a crescer a subir nessa lista todos os dias. Paris, Charenton-le-Pont, São Paulo, Rio de Janeiro e Londres são as cidades onde a música mais soa nos headphones. França, Brasil, Reino Unido, Alemanha e Holanda lideram o número de vezes em que a canção foi ouvida.

A minha aposta para os principais prémios do ano que vem é sem dúvida esta banda sonora original e “I’ll Never Love Again” como melhor canção original do ano. A procura de público jovem para a gala de entrega dos Oscars vai centrar-se em Lady Gaga e é uma oportunidade única da Academia ter a cantora a actuar em palco.

“Assim Nasce uma Estrela” é um dos melhores filmes do ano, para ver e ouvir. Um filme inspirador que aproveita a alma dos anteriores 3 filmes e transforma a fórmula num evento cinematográfico extraordinário, com representações fantásticas, um argumento sólido e uma realização que, embora não seja o maior destaque, é o suficiente para colocar o filme no nosso TOP 10 de 2018.

A banda sonora pode ser ouvida, gratuitamente aqui:

Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald – Review

Uma sequela sobrecarregada de magia, esta segunda rodagem, da nova saga de filmes da brilhante escritora inglesa J.K. Rowling, é uma continuação do mundo mágico de Harry Potter, agora numa amostra mais aprofundada dos detalhes e enredos pouco explorados do primeiro filme de Monstros Fantásticos, que seguem as aventuras de um jovem Newt Scamander por mundo fora.

Novamente ao comando está David Yates, já o sexto filme do universo Harry Potter que o realizador inglês dirige, chega finalmente amanhã aos nossos cinemas um dos filmes mais aguardados pelos fãs, e se for realmente um verdadeiro e genuíno, vai sair da sua sala de cinema embriagado de todas as revelações que este filme o vai presentear, com muitas novidades e referências ao mundo mágico que esta continuação vai deixar em aberto, num filme que é a verdadeira ponte, como o anterior não foi e por isso falhou, para os próximos capítulos desta nova e revigorada saga mágica.

O casting não podia ser melhor, com Jude Law, num papel de um ainda jovem Albus Dumbledore, e Johnny Depp, a representar o novo vilão Gellert Grindelwald, somando aos restantes atores que fizeram a sua aparição no primeiro filme de Monstros Fantásticos, ainda com a adição de um punhado de novas personagens que o vão certamente deliciar, num filme cativante e que pede por mais.

Resume-se a um filme épico, que começa e pega no final do anterior, e que transporta novamente os pouco convencidos do último filme, diga-se como eu, para novamente uma sensação mágica que nos leva à infância dos filmes que crescemos a ver, e traz de volta a magia, tanto em sequências de batalhas como em efeitos especiais, todo o mistério negro e dramático de um filme de fantasia, e para quem sempre esteve aí para este tipo de filmes, o vai voltar a reconsiderar com prazer, e lhe vai dar novamente aquele clique, mesmo numa história um tanto complexa, com muita nova informação para absorver e acompanhar, vai certamente acabar por achar, no fim do dia, um dos melhores do universo fantástico Harry Potter.

Contudo, falha em alguns aspetos, sobretudo técnicos, e posto assim em pratos limpos, o guião e a história em geral são muito fracos, para quem naturalmente estiver atento a esses detalhes, também a nível do detalhe da produção e design o filme é uma falha, por vezes perde-se a noção do tempo real em que o filme ocorre, e para quem o filme não fizer efeito, vai ser só mais um para encher o pote, um pouco repetitivo para quem não achar piada, muita personagem nova e pouco ou mesmo mal introduzidas, um filme que a certa altura, em aspetos técnicos, lembra a história do cão a perseguir a sua própria cauda, muito à volta da mesma coisa, direções vagas tomadas pelos personagens, história mal construída, mais longa que um autocarro, muito orçamento gasto em pouco conteúdo argumentativo e que desilude quem o toma com a atenção devida, o filme que é em sua medida grandioso mas que em certos e simples aspetos, toma a pior e mais desapontante direção para o abismo fílmico, onde nem havia razão para acontecer, se melhor fosse sido trabalhado.

É confuso, sim, complexo, sim, cheio de informação, sim, muitas vezes sem sentido, sim, parece que estão a pôr cinco filmes num só livro, sim, é esse o resultado do filme, e teve o seu custo para a crítica, mas se tu aí és um fiel fã, vais simplesmente ignorar todo o pouco cuidado no filme e apenas absorver a magia que este reproduz sobre a tela branca da tua sala de cinema, a magia pura dos cenários que recordas de ver há anos atrás, magníficas performances dos personagens que recordavas ver, das consequências do filme passado a serem respondidas, um filme que surpreende pelo modo divertido como volta a inovar, e se o primeiro filme te deixou desapontado, este é capaz de ser a resposta para voltares a seguir de perto e com atenção.

E pensa que é só ainda uma parte, destes 5 prometidos filmes que irão ser lançados ao longos dos próximos dez anos, vais ter muito mais por descobrir, muito mais universo mágico por reencontrar e memorar, filmes mais adultos e sérios que os que outrora vistes, e por isso sobretudo para a geração anterior que relembra com carinho ser uma enorme espectativa, vamos aguardar por mais elementos mágicos que só estes filme têm a capacidade de dar, e vamos, em conjunto, ter muito mais por explorar.

Aproveita todas as espetaculares performances do filme, que este é só uma abordagem e rampa de lançamento para os próximos, e vai ao cinema ver, acreditando que este é, como em magia mas com mais detalhe a nível de história e complexidade do primeiro, que no geral, é um episódio seguro e empolgante para os que virão aí a seguir, e que vais querer acompanhar.

Só uma palavra, mas que em nada surpreende, vindo de quem vem, para a  escritora mais criativa da sua geração, que volta a conseguir pôr nos carris esta magia toda que nos fascina, toda a lógica detalhada da sua fantasia é uma obra que vai para sempre perdurar, e tira-se o chapéu a esta criativa dos tempos atuais, que sistematicamente escreve da sua imaginação o que em nela habita, do mais ínfimo pormenor até ao detalhe mais crepitante, para os fãs deste tipo de leitura é uma referência, certamente de nível mesmo mundial.

Não revelando mesmo nada sobre o filme, apresentamos aqui a nossa sugestão mágica de cinema, para esta semana fria que se aproxima, e vá revisitar o mundo mágico que em si habita, com varinhas ao alto e tudo mais, tire um tempo e passe para ver, Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald.

Fica com o trailer…

 

 

TÍTULO ORIGINAL: Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald
DATA DE ESTREIA: 13/11/2018
REALIZAÇÃO: David Yates
ARGUMENTO: J.K. Rowling
ELENCO: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Folger, Alison Sudol, Ezra Miller, Jude Law, Johnny Depp
GÉNERO: Aventura, Fantasia, Família
PAÍS: Reino Unido, EUA
ANO: 2018
DURAÇÃO: 130 minutos

 

 

 

 

 

 

 

Análise a ‘Big Mouth’ – Temporada 2

Tal como o genérico nos indica através da música Changes, de Charles Bradley, as personagens da série criada por Nick Kroll e Andrew Goldberg vivem momentos de mudança quanto à génese das suas identidades. Com uma segunda temporada mais coesa e matura, Big Mouth prossegue a narração das intempéries vividas por cinco jovens a entrar na puberdade, onde a sua inocência é aprimorada por um toque de robustez adulta.

As suas aventuras são, em grande parte, baseada nas vivências de ambos os criadores. É um elemento que personaliza a série e possibilita a sua diferenciação. Para efeitos cómicos, muitos desses momentos são hiperbolizados e, ao contrário do que sucedera nos capítulos inaugurais, foram manuseados com maior perícia nos novos episódios. Existem elos de ligação entre os episódios que se tornam relevantes para o desenlace da narrativa e eliminam quaisquer pontas soltas. O humor surreal, ainda que presente, não foi considerado como prioridade, tendo sido utilizado pontualmente como suporte secundário de um enredo mais estruturado e com o intuito de envolver a audiência na estória.

Um dos exemplos do salto de qualidade foi a utilização dos Monstros das Hormonas, que continuam a aterrorizar os protagonistas, servindo de metáfora aos ingénuos devaneios que marcam a transição para a adolescência. Na primeira temporada, a sua presença revelou-se algo confusa e, ocasionalmente, forçada, quase que implorando o público para soltar uma gargalhada nada genuína. Agora, na segunda, tornam-se sólidos e pivotais para a compreensão das atitudes de Nick e seus amigos. Contribuem com um humor mais refinado e permitem o desenvolvimento das personagens, que fora descurado anteriormente. Para tal também ajudou a introdução do Feiticeiro da Vergonha, com a voz de David Thewlis, um outro representante do campo simbólico da série. Este acrescenta maior relevo aos comportamentos características de miúdos de treze anos e introduz a noção de consequência e culpa nos atos dos protagonistas, fazendo jus ao nome. A omnipresença de monstros, feiticeiros e outros seres figurativos permite interligar as personagens e evitam a incoerência das suas motivações. Kroll e Goldberg mostram estar conscientes do seu trabalho ao corrigirem, então, algumas unidades menos conseguidas da primeira temporada.

Certo é que mesmo alterando algumas componentes, as idiossincrasias mantêm-se intactas. Em Big Mouth, a mixórdia de universos não se cinge a seres que influenciam o ciclo biológico dos protagonistas. É possível encontrar Nick a questionar os fantasmas de Duke Ellington e Freddie Mercury, a viver no seu sótão, sobre diversos assuntos amorosos. Almofadas e tapetes ganham vida por razões sobre as quais não me irei pronunciar e a imaturidade infantil é refletida não nos jovens da narrativa, mas sim num dos mais peculiares professores de Educação Física da história da televisão.

O absurdo, portanto, mantém-se predominante e garante identidade à série. A elegância com que a comédia se apresenta na segunda temporada pode tornar Big Mouth mais tolerável para qualquer pessoa. Reduziu-se a necessidade de chocar e de exibir conteúdos grotescos (mas sempre dentro dos limites do bom senso). Pôs-se um travão na necessidade de impor a comédia como fator obrigatório e introduziu-se maior estrutura a nível de pensamento criativo. Contudo, os criadores não deixam de desafiar o politicamente correto com abordagens arrojadas a temas que, por vezes, são deixados de parte neste meio de comunicação. É um fator que premeia a coragem de Big Mouth, ao mesmo tempo que faz uma pessoa adulta identificar-se com o relato da premissa da série.

A segunda temporada de Big Mouth pode continuar a não ser para todos os gostos devido ao tratamento sem filtros dos guiões. Um ano após a estreia, continua a solidificar-se na sua viagem de regresso aos tempos atribulados da puberdade, agora com capítulos mais maturos. Conquistou o seu nicho e encontrou um espaço vazio no mercado, onde parece estabelecer-se como uma potência emergente nas comédias de animação.

 

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