‘Kingsman – O Círculo Dourado’ – Análise ao Filme

User Rating: 7.5

Ver um filme do Kingsman é sempre uma experiência sui-generis: O filme está constantemente a tentar convencer-nos que o que estamos a ver não passa de apenas um estúpido filme de acção,  mas olhem para as direcções em que ele se atira! Kingsman – The Golden Circle não é o filme perfeito. E descrevê-lo é difícil porque melhora sobre o original em certos aspectos (este episódio tem muito mais piada, por exemplo) mas piora consideravelmente em outros (20% do argumento é lixo).

Portanto, o que dizer acerca do Golden Circle? Se me perguntassem, eu diria que de entre as vinte extravagâncias de mais de 100 milhões de dólares que Hollywood pariu em 2017, The Golden Circle é facilmente uma das três melhores (as outras duas seriam o fenomenal Spider-Man e o simpático Guardians of the Galaxy). E no entanto também me aborreci de vez em quando — tal como me aborreci no Guardians, para ser sincero. Recomendo-o? Absolutamente. Apesar das suas falhas, os Kingsman são uma das franchises mais interessantes que andam por aí. E afinal de contas, para além de ser das comédias mais divertidas do ano, também é o filme com mais descarado grande-plano de uma vagina deste lado do Nymphomaniac.

Matthew Vaughn… tu és qualquer coisa.

Ainda hoje, mesmo depois de ter realizado pelo menos dois clássicos modernos, Matthew Vaughn é ainda falado com um certo horror pelas virgens imaculadas da crítica internacional que insistem em sentir-se ofendidas com as negríssimas sátiras que ele assina. É verdade os filmes de Vaughn são pueris, grosseiros, hilariantes, perturbadores e ultra-ultra-violentos. Mas nunca nenhum dos filmes de Matthew Vaughn foi estúpido ou amoral. Vaughn é apenas o campeão mundial de doublethink, descendente directo de Paul Verhoeven e muito provavelmente o Anticristo. É também um raios-partam de um bom realizador, capaz de fazer os blockbusters mais refinados ao mesmo tempo que não se coíbe de sair de tom e safar-se com paródias escabrosas do próprio tipo de filmes que ele parece emular.

Não julguem que eu estou a brincar — Matthew Vaughn é um realizador com classe. Lembram-se da princesa sueca do primeiro filme? A que prometeu sexo anal se Eggsy salvasse o mundo? Bem… Parece que desde esse dia, Eggsy e a Princesa Tilde passaram a ser namorados. Ele leva-a às festas dos amigos no bairro social, ela leva-o a jantar com os pais no Palácio Real. E esta?

Mesmo  sendo uma fantasia desavergonhada, é o tipo de pormenor enternecedor e até galante que diz milhões sobre o caráter destas personagens: ele não é um imbecil, ela é boa praça e gostam um do outro. É o suficiente para torcermos pelo casal. Taron Egerton felizmente tem olhos de cachorrinho que o fazem parecer ainda bastante inocente, mesmo quando despacha os maus (tirando Daniel Craig, ele partilha esta característica com todos os heróis de Vaughn). E por outro lado, Hanna Alström pode-se comportar como realeza mas tem um à-vontade natural que a torna acessível. É o facto dela ser — graças a Deus… — tão normal é o que nos vende esta personagem.

Agora é verdade que por muito colorido que seja o mundo dos Kingsman, tal como James Bond, o que distingue os filmes são os seus vilões. Desta vez a vilã de serviço é Poppy Adams, a líder do epónimo Golden Circle: o maior cartel de drogas do mundo; o que faz de Poppy a mulher empresária mais bem sucedida de sempre. Ela é uma senhora encantadora e maviosa capaz dos actos de violência mais horrendos sem quebrar o sorriso. Uma das alegrias deste filme é ver Julianne Moore, a falar cantado e a mandar um desgraçado para a picadora de carne. Ela tem esbirros, robôs, cães mecânicos, um covil na selva asíatica com cinema, restaurante e cabeleireiro e até o Elton John amarrado a um piano vermelho. Poppy tem tudo, só não tem legitimidade. Para a ganhar, ela põe em prática um ambicioso plano de chantagem a nível global, em que ela envenena, todos os consumidores de droga do mundo com os seus produtos e revela aos media que todos os infectados irão morrer caso todos os países não legalizem as drogas no espaço de uma semana (Salvem vidas. Legalizem. — é o slogan da sua campanha). E assim, pessoas de todos os estratos sociais, desde pobres drogados a certas princesas suecas começam a aparecer afectados por terem consumido as drogas de Poppy.

Elton John aparece para um daqueles cameos que agora estão na moda fazer com malta famosa. John tem múltiplas cenas e cada vez que está em campo, o cantor é hilariante — mais pela caturrice dupla de velho cansado e ícone gay do que pelas suas qualidades como actor — e, junto com Moore, os dois são a melhor parte do filme. Mais azar têm Jeff Bridges, Halle Berry e Channing Tatum, que em grande parte, não têm muito que fazer durante o filme (ainda que Tatum apareça para dar um pezinho de dança). Apesar de não ter destaque no material promocional, uma das personagens mais importantes é o agente Whiskey de Pedro Pascal. Não é segredo para quem vê Narcos ou Game of Thrones o quão alarmantemente charmoso Pascal consegue ser. E o que é facto é que, tirando o sotaque sulista, Pascal não se desvia muito da fórmula que o tornou famoso. A sua confiança sexual quase sórdida serve-lhe bastante bem e Pascal é bastante cool a lutar com um laço de cowboy. Não deixa de ser uma prova da popularidade de Pascal que um actor chileno seja o Statesman com que Eggsy mais interage e, por consequência, o mais importante representante dos Estados Unidos no filme.

O quê? Quem são o Statesman? Bem… vejam o trailer, se ainda não viram. Existe ainda tanto por descobrir ao longo dos velozes e densos 141 minutos que Vaughn e a sua co-argumentista habitual Jane Goldman nos prepararam… Eu ainda nem sequer vos falei de Colin Firth que regressou para este filme, apesar de parecer ter morrido em The Secret Service!

Agora, eu disse que havia 20% do filme que eu não gostava e tudo se prende com a parte central do filme, que se arrasta um pouco demais e que está por detrás de maior parte das críticas que o filme irá sem dúvida receber. Enquanto os enredos de Goldman e Vaughn são sempre um pouco labirínticos, normalmente eles fazem sentido a nível lógico e emocional. No entanto, muitas coisas neste filme não fazem muito sentido. Grande parte do segundo acto opõe Eggsy a Charlie, um antigo rival do primeiro filme, tornado agente do Golden Circle. Edward Holcroft não tem nem metade da presença que Sofia Boutella tem no primeiro filme, e ao manter Julianne Moore longe da acção, o filme perde algum do seu interesse.

Por outro lado, ainda que a coreografia de acção seja geralmente excelente— Vaughn nunca filmou uma luta como a que inicia o filme —, as duas sequências mais secantes seguem-se uma atrás da outra à volta dos 90 minutos. Na primeira, Eggsy, Harry e Whiskey envolvem-se numa obrigatória rixa de bar quase igual à do primeiro filme que pára o ritmo da narrativa e pouco mais serve senão como um callback de franchise. Na segunda, os três agentes vão aos Alpes atrás da namorada de Charlie e envolvem-se numa sequência de acção pouco interessante num teleférico.

E depois acho que a maneira como os Statesman são introduzidos no mythos dos Kingsman, é uma desilusão. Então… os Kingsman e os Statesman são organizações secretas de elite e não sabem da existência uma da outra? Sobretudo quando os Statesman têm o logo deles escrito no topo do Edifício MetLife, um dos mais icónicos de Manhattan… Como é que ninguém se deu ao trabalho de tentar saber quem é que eles eram? E o pior de tudo é que não sei se este não é uma espécie de comentário meta-textual à maneira como os blockbusters são feitos (Deus nos livre que seja).

Quem conhece o trabalho anterior de Vaughn e Jane Goldman a sua co-argumentista habitual, sabe que dissonâncias emocionais estão no coração dos seus argumentos. Em Kick-Ass, somos convidados a aplaudir enquanto uma criança e um adolescente em máscaras de halloween assassinam um batalhão de mafiosos. Em X-Men: First Class, Vaughn e Goldman deliberadamente deixam-nos satisfeitos e incomodados quando Magneto finalmente mata Sebastian Shaw. E no primeiro Kingsman, o agora famoso arraial na igreja redneck faz-nos rir com o massacre de dezenas de fanáticos cujo único crime é serem republicanos e ignorantes. Goldman e Vaughn são ambos cineastas profundamente éticos, mas adoram pôr a nossa resposta emocional em contradição com as nossas morais. E muitas vezes, mais do que em filmes anteriores até, parece que Goldman e Vaughn estão a utilizar os Kingsman como pódios para poderem dizer aquilo que realmente lhes vai na alma. É bastante fixe que eles tenham essa oportunidade de fazerem os filmes que querem com o dinheiro que tiverem. E no entanto…

Sejamos sinceros, nenhum dos Kingsman é uma paródia tão mordaz como Kick-Ass. Enfim… quantas mais paródias podem ainda haver de 007 até já nenhuma ter grande coisa a acrescentar? Num mundo em que existe internet, cada vez mais irrelevantes se tornam os espiões tradicionais.

E sejamos sinceros, nenhum dos Kingsman é uma personagem tão interessante como Magneto no X-Men: First Class. Eles são, na sua grande maioria, bonecos de acção e é um pouco descorçoador olhar para a qualidade dos filmes anteriores aos Kingsman e depois olhar para esta nova franchise que tem ocupado Vaughn desde 2011.

Eu gosto deste filme. Mas verdade seja dita, que me sinto um pouco insatisfeito quando os créditos começaram a correr — preferia que Vaughn estivesse a experimentar novas ideias, em vez de perder uma década com os Kingsman, que são os filmes menos interessantes da sua carreira. O que eu não daria para ver uma versão vaughnesca de Saviour do Mark Millar. Ou da trilogia Illuminatus!. Ou até um filme de guerra no estilo do Guns of Navarone. Isso seria falar na minha língua. Mas provavelmente não na de Vaughn.

Continua o teu trabalho, seu sacana maluco.

Ponderação Final
Ao mesmo tempo melhor e pior que Kingsman - The Secret Service, o último filme de Matthew Vaughn encontra-o em velocidade de cruzeiro.
7.5
Bom

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