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‘Life: Vida Inteligente’ – Análise ao Filme

Daniel Espinosa decidiu fazer um Alien para as gerações que ainda não conhecem esse clássico do cinema. Felizmente para elas, a obra-prima de Ridley Scott continua incrível e quando a virem podem aperceber-se da má imitação que Life é.

Em termos visuais há momentos bastante interessantes, como quando a paisagem é ocupada por partículas de sangue imóveis na atmosfera, ou até os primeiros designs do próprio Calvin (deram esse nome ao extraterrestre). Refiro só os primeiros porque, infelizmente, os responsáveis pela direção artística da criatura acabaram por deixar que a preguiça se apoderasse deles, porque o rosto (à falta de melhor palavra) do extraterrestre acaba por ganhar contornos incrivelmente humanos. Isto é, tem basicamente a cara de um vilão assassino. Ora, a vastidão cómica é praticamente infinita, por isso não é de todo impossível que existam algures seres que tenham características que se possam assemelhar às nossas, mas as de Calvin são tão notoriamente falta de imaginação que se torna difícil não nos pormos pensar em como este filme, com tantas ambições, se deixou ficar pelo caminho em tantas e tantas áreas.

Para um filme onde os protagonistas são cientistas, a inteligência não impera. Várias são as decisões parvas que grande parte deles tomam, fazendo com que a única pessoa com mais de dois dígitos de QI ali seja a astronauta russa. Todos os outros encenam um festival de atitudes dignas de um filme de série-B. É sabido que a plot do filme anda à volta de um organismo extraterrestre que ameaça a vida de toda a gente abordo da estação espacial. Aquilo que não se sabe antes de entrar na sala de cinema é que os cientistas parecem fazer de tudo para se meterem no caminho deste estranho organismo com tendências perigosamente assassinas. Não se pode dizer que o argumento faça um bom trabalho em tornar credíveis aquelas ações; a partir do momento em que um cientista – supostamente o melhor, a nível planetário, neste tipo de missões – se afeiçoa de tal maneira a um organismo desconhecido que passa a ignorar todas as regras do protocolo… depois desse “descuido”, o objetivo destes cientistas passa por fechar todas as aberturas possíveis por onde Calvin possa entrar. Essa é uma missão nobre, no entanto, a tripulação decide correr riscos facilmente evitáveis, fazendo com que, obviamente, a estranha criatura se consiga apoderar de tudo o que lhe apetece. O trabalho de personagens é praticamente nulo, elas simplesmente são manequins em toda aquela ação – talvez a palavra Life devesse sido alastrada a toda a história e não só ao título do filme.

Para além do filme deixar muito a desejar, nem os créditos o safam – Espinosa decidiu colocar “Spirit in the Sky”, de Norman Greenbaum, (que, aliás, já tinha sido utilizada em Guardians of the Galaxy) na conclusão da história, achando que seria uma piada incrível. E até podia ser… se o tom do filme tivesse sido trabalhado para este sentido. Por comparação, é como se nos créditos do Titanic tivessem metido o clássico dos Rolling Stones, “I Can’t Get No Satisfaction”. É tão totalmente despropositado – é uma tentativa clara de parecer cool. E sim, é cool quando se põe este tipo de músicas tão mexidas e tão aliadas a uma imagem rockabilly numa situação dramática… desde que esteja em concordância com o tom do filme. Os irmãos Coen fazem isso bem, bem como o Scorsese e o Tarantino. Mas este realizador não faz a mais pequena ideia de como usar a música; Daniel Espinosa nem os créditos do seu filme sabe realizar.

Life é formulaico e entretém razoavelmente, mas em termos de imaginação é miserável. Haverá público para este filme, claro, mas isso não quer dizer que seja um filme interessante ou refrescante. O filme é muito familiar, é tudo bastante Alien. Não é um spin particularmente novo sobre uma história de sobrevivência, é só uma tentativa de capitalizar num tipo de filme que as pessoas vão sempre querer ver. O argumento poderia ser bem mais imaginativo, e nem sequer faz um bom trabalho em nos deixar claustrofóbicos, como The Thing fez e continua a fazer de maneira magistral. A atmosfera, nesse sentido, é pouco trabalhada, dando lugar a sequências de ação que já se sabem como vão acabar.

Pedro Gomes é Editor de Cinema no 8.5Bits | pedrogomes@8dot5bits.com

Com a escrita e a música em plano de fundo desde pequeno, e sendo licenciado em Argumento pela ESTC e autodidata musical por natureza, ambiciona escrever filmes, séries, e compôr música para cinema.

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