Os dez anos de “Cross”, dos Justice

User Rating: 10

Há dez anos atrás saiu um dos álbuns mais explosivos da música eletrónica. Gaspard Augé, com então 28 anos, e Xavier de Rosnay, 24, pegaram nas suas maiores influências e referências, desde o hip-hop, à disco e ao hard rock, e criaram algo incontornável no panorama da música de dança. Isto deveu-se tanto ao uso esquizofrénico de samples – tirados de cerca de 400 álbuns – e à produção pulsante que assombra cada uma das faixas, como também à cinematografia e imagética que todas as músicas conseguem projetar.

As trompas de ”Godzilla vs. Mothra”, filme japonês de 1992, abrem as hostilidades. Imponentes e premonitórias, surgem como um início épico e que promete um seguimento não menos épico. É assim que entramos no mundo áspero e insano de Cross: baixo vigoroso, batida forte, distorções a emergirem. Se os Daft Punk têm uma tendência em colorir a pista de dança com melodias quase românticas, alegres, e espaciais, os Justice deste álbum incendeiam tudo o que veem à frente e fazem a festa à sua maneira: barulhenta e pesada.

Para alguém que descartava totalmente a música eletrónica e de dança – por mero preconceito – e estava habituado a ouvir apenas música mais virada para o rock e com a guitarra sempre enquanto protagonista, como foi o meu caso durante a adolescência, este álbum surge como um murro no estômago. Puxa imediatamente as atenções para si por ter uma atmosfera tão infinitamente pesada e bem trabalhada e por não cair nunca em fórmulas convencionais ou num estilo aborrecido. Por essa mesma razão, não é descabido comparar este álbum ao Appetite for Destrution dos Guns N’ Roses, por exemplo. Mesmo que a “banda mais perigosa do planeta” se tenha lançado vinte anos antes dos Justice, ambos são álbuns de estreia, ambos fortemente explosivos e rebeldes, e ambos com bastante peso nas respetivas indústrias e géneros musicais. Nos dois casos, tratam-se de músicas completamente desreguladas e que vieram abafar tudo o que se criava na altura, mostrando que ainda era possível remar contra a maré e produzir algo irreverentemente novo e inovador.

A título de exemplo da produção obsessiva de Gaspard e Xavier, “Genesis” utiliza samples de músicas do 50 Cent, Queen, Slipknot e Prince, para além do início retirado do filme asiático. É uma mistura que em teoria não deveria funcionar mas que quando posta em prática pelos músicos franceses, aliada a uma produção tão potente e com as várias secções arranjadas de uma forma tão narrativa – quase como se de um filme se tratasse -, funciona de maneira bastante orgânica e todo o fulgor que assola a música torna-se realmente memorável.

Basta ouvir a música que abre o álbum para sermos imediatamente atirados para um universo tão estrondoso quanto atraente – e a festa nunca vai abaixo durante os 48 minutos. Mas ainda que uma atmosfera vibrante cubra todas as faixas e elas fluam umas nas outras de forma natural, todas são bastante diferentes entre si; se algumas são compostas com sintetizadores à lá Laranja Mecânica e kicks sólidos, outras pediram emprestado o baixo das sessões do Off the Wall do Michael Jackson e fazem a festa com vocais que se entranham na nossa cabeça e não a abandonam mais. Há variedade instrumental suficiente para que a viagem nunca se torne aborrecida e desinteressante, seja no gaguejo operático dos hi-hats em “Let There Be Light”, em “D.A.N.C.E.” enquanto homenagem ao Rei da Pop com o seu refrão e coro orelhudos, na veia mais romântica que sobressai em “Valentine”, ou em “Phantom”, que vai buscar uma melodia composta pelos Goblin para um filme do Dario Argento, génio do terror, e que os Justice reaproveitaram para um contexto de milícia de club.

No entanto, mesmo sendo um álbum algo acessível, não significa que riscos não foram tomados. Antes pelo contrário. “Waters of Nazareth” é um bom exemplo de como os Justice despiram completamente as suas influências e as trouxeram para um mundo submerso em frequências graves e batidas tão corpulentas quanto as maiores bandas do metal mais pesado. Ainda que o padrão da linha de baixo seja algo que possa ser reminiscente de música disco, tudo foi tão distorcido ao ponto de não-retorno que entretanto deixou de ser uma melodia simplista e passou a ser um autêntico e desconhecido frenesim pulsante.

“Stress” é um ótimo exemplo do quão musicais podem ser Gaspard e Xavier. Poucas são as músicas que transmitem uma sensação de pânico e ansiedade tão bem como esta; é um autêntico turbilhão de terror do início ao fim – como aliás se pode comprovar no seu videoclip. Usando um sample de um clássico da disco dos anos 70, “Night on Disco Mountain” do David Shire, a atmosfera é de uma agressividade incendiária tal que praticamente nos implora a comprar um bilhete para um concerto deles e a sonhar experienciar este ambiente alarmante ao vivo.

A principal razão de Cross resistir ao teste do tempo deve-se ao facto de se tratar de um álbum de música eletrónica que tem tanto estilo quanto substância. A começar na capa e a acabar no glorioso fade out de “One Minute to Midnight”, este é uma obra de verdadeiras proporções bíblicas. Com toneladas de distorção e aspereza à mistura, foi composto como se de uma sinfonia se tratasse e por isso conseguiu cimentar o seu som enquanto ícone da música de dança. Os Justice fizeram com que todos os outros artistas da música eletrónica parecessem flores de estufa – o álbum ouve-se como o pesar de um martelo numa indústria que estava cada vez mais confortada com composições fáceis e estruturas banais mas principalmente com produções que não faziam vibrar os músculos e as sinapses mais escondidas.

Ainda que os Justice agora tenham um som bem mais domado, este é um dos melhores álbuns de estreia deste século. Nenhum dos seus seguintes lançamentos conseguiu superar – ou alcançar sequer – o estatuto de Cross mas, felizmente para nós, poderemos sempre ouvi-lo vezes e vezes sem conta até o disco ficar riscado e o som começar a distorcer mais ainda.

 

 

10
Brutal
Escrito Por
Com a escrita e a música em plano de fundo desde pequeno, e sendo licenciado em Argumento pela ESTC e autodidata musical por natureza, ambiciona escrever filmes, séries, e compôr música para cinema.

Deixa o teu Comentário

Recuperar a Password

Escreve o teu nome de utilizador ou e-mail. Vais receber um link para criares uma nova password na tua caixa de correio electrónico.

Registar

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.