Videojogos

Retrobits – ‘Final Fantasy VII’

Retrobits – Final Fantasy VII

Antes de mais, e antes que inauguremos este espaço, uma pequena apresentação: Retrobits será uma rúbrica mensal que tenta recuperar parte da história dos videojogos. Desde grandes sucessos a joias escondidas, tentaremos deixar-vos neste espaço algumas sugestões para que descubram alguns jogos que estejam perdidos no tempo.

Esta semana surgiu a notícia de um novo projeto da Sony: Playstation Classic. Aproveitando a ideia do que a Nintendo fez com a NES e a SNES, a nova mini consola da Sony sairá no princípio de dezembro, mesmo a tempo para o Natal, e incluirá vinte jogos. Entre eles, estará o jogo que mais contribuiu para o sucesso da Playstation original: Final Fantasy VII.

Pelo número, vê-se que a série Final Fantasy não nasceu na Playstation. Os primeiros três jogos eram de NES, e os três seguintes de SNES. A mudança da Squaresoft (hoje Square Enix) da Nintendo para a Sony fez correr muita tinta naquele longínquo ano de 1997, mas compreende-se o motivo alegado pela companhia: as consolas de cartuchos da Nintendo não tinham capacidade para armazenar e reproduzir vídeos, nem muito menos bandas sonoras com qualidade de CD, o que para a altura era bastante inovador. Final Fantasy VII vendeu em três dias, só no japão, dois milhões de cópias, um número estratosférico tendo em conta a época e a localização limitada. Os últimos dados disponíveis são de 2015, e apontam para mais de 11 milhões de cópias distribuídas pela miríade de plataformas para que Final Fantasy VII foi lançado: Playstation, PS3/PSP/PSVita, PS4, PC, Android, iOS, e brevemente também para Nintendo Switch. Já houve mais oito Final Fantasy depois deste VII, sem contar com diversos spin-offs e afins, mas nenhum conseguiu chegar sequer perto do grau de influência na cultura pop ou adoração quase religiosa que os jogadores têm pela aventura de Cloud e companhia. Se já o conhecem, recordem-no connosco. Se é a primeira vez que ouvem falar de FF VII, preparem-se para conhecer não apenas um dos melhores JRPG jamais feitos, mas sim um dos melhores videojogos de todos os tempos.

Esta é a introdução em vídeo, bastante boa pelos padrões de 1997, que dava o mote à aventura. Este foi um dos trunfos que levaram ao sucesso de FF VII: a qualidade técnica ao nível gráfico, tridimensional e fluido. O segundo trunfo é o argumento. Passaremos algumas horas na cidade que se vê no vídeo, Midgar, como parte de um grupo terrorista (!), fazendo atentados à bomba contra reatores de energia pertencentes a uma megacorporação, a Shinra, sem sabermos ainda muito bem onde nos levará uma história carregada de preocupações com a preservação do planeta. Vinte e um anos depois, as questões ambientais patentes em Final Fantasy VII, aliadas à ganância das corporações e governos, são tão atuais como o eram na altura. Esta intemporalidade, à semelhança de qualquer clássico da literatura, prova a qualidade da obra. A história de Final Fantasy VII é não só intemporal mas suficientemente profunda para nos fazer querer descobrir que vem a seguir, tal como quando vemos um bom filme ou série ou lemos um bom livro. A forma como as personagens que acompanham Cloud são descritas, como se fossem vivas e tivessem personalidade, apaixona-nos, faz-nos odiá-las, mas nunca nos deixa indiferentes. Não há aqui personagens planas: até Cloud, que parece ser transparente e imutável, tem um passado que apenas descobriremos durante as muitas reviravoltas de um enredo onde quase nada é o que nos parece a princípio.

Este foi o terceiro ponto em que a Squaresoft acertou em cheio: as personagens. Não poderemos abordá-las aqui todas, mas falaremos das mais importantes, começando pelo protagonista, Cloud, que como já dissemos é uma personagem que parece completamente desinteressante a princípio, o típico herói superpoderoso e indiferente em relação aos demais, mas que na realidade se revelará muito interessante ao longo da narrativa, ao ponto de, ainda hoje, ser considerado o protagonista mais carismático da série Final Fantasy. Podemos encontra-lo, por exemplo, em Super Smash Bros. como personagem jogável, o que diz muito do seu carisma.

Aeris (Aerith no oriente) é a personagem feminina que marca a mudança na personalidade de Cloud. É impossível falar da sua importância sem dar um grande spoiler, portanto, se não o querem, passem para depois da próxima imagem.

Aeris marcou quem jogou Final Fantasy VII ao ponto de haver pessoas que tinham comprado Playstation só por causa deste jogo, tinham comprado o jogo, e o deixaram a meio, chegando a pedir reembolsos. Outros foram, simplesmente, reclamar para os fóruns da Squaresoft e assinaram petições exigindo a Yoshinori Kitase, o responsável máximo pelo jogo, que se voltasse atrás com a decisão de matar Aeris. Esta morte foi considerada, ao longo dos anos, um dos momentos mais emotivos de sempre num videojogo, que fez homens de barba rija chorar como meninas, que fez crianças largarem as consolas para chorar ao colo dos pais, e não, não estamos a exagerar: Final Fantasy VII mereceria ser jogado só por nos demonstrar que os videojogos também despertam sentimentos fortes nos jogadores.

Para os que ainda gostavam de voltar a ver Aeris (Aerith) e Cloud (pronunciado Koraud, em japonês), podem encontra-los em Dalaran, em World of Warcraft.

Finalmente, a terceira personagem que abordaremos é Sephiroth. Sephiroth não é apenas um vilão, não é só o mau da fita deste jogo: é O vilão. Dificilmente encontraremos um antagonista como este, credível, assustador, poderoso, astuto, inteligente, louco, imprevisível. E, com Sephiroth, a Squaresoft guardou mais um trunfo na manga, que apenas quem jogasse até ao fim descobriria: “One Winged Angel” poderá ser, segundo jogadores e críticos, o mais épico tema até hoje composto para uma batalha contra um boss final. Não acreditam? Ponham o som bem alto enquanto disfrutam desta arrepiante interpretação…

Outra característica de Final Fantasy VII é o exagero, mas no bom sentido, sobretudo da ação, completamente over the top. Desde as armas absolutamente desproporcionais de Cloud e Sephiroth, às típicas invocações de Final Fantasy, tudo é exagerado ao nível de um qualquer anime como Dragon Ball. A invocação dos cavaleiros da Távola Redonda, por exemplo, demonstra isso:

 

Ou então, a Supernova de Sephiroth na batalha final:

Final Fantasy VII teve, posteriormente, alguns spin-offs. Dois jogos, Dirge of Cerberus, para PS2, e Crisis Core, para PSP, contam as histórias de Vincent e Zack, duas das personagens secundárias do jogo. Last Order é um pequeno filme de animação, que conta também a história de Zack durante os eventos anteriores a Final Fantasy VII. Finalmente, Advent Children é uma longa metragem em CGI que retoma a história de FF VII, e pode dizer-se que é a verdadeira continuação da história.

Há muito que se pede um verdadeiro remake de Final Fantasy VII, pois mesmo com todas as suas virtudes, tem 21 anos, pelo que os seus gráficos, na altura bastante bons, são agora demasiado datados. Os primeiros rumores de que tal seria possível surgiram quando a Square Enix realizou o seguinte vídeo, uma Tech Demo para a PS3 que usava a introdução do jogo original, que temos atrás, para demonstrar as potencialidades da consola da Sony.

Em 2016, finalmente, o sonho dos fãs tornou-se realidade: a Square Enix anunciou, oficialmente, o remake de Final Fantasy VII, originalmente previsto para 2018 mas adiado para o próximo ano de 2019, modificando o grafismo, as mecânicas de combate, inclusivamente alargando a história. Em princípio, será lançado em formato episódico, o que poderá não ser mau, dependendo do conteúdo que cada episódio tenha. Sabe-se que será lançado para PS4, mas não há mais informações relativamente a outras plataformas.

Haveria tanto mais a dizer sobre Final Fantasy VII, mas deixaremos que o descubram por vocês mesmos. Descubram o mundo aberto à exploração, descubram os milhentos segredos, descubram as várias dezenas de horas de jogo, descubram os diversos minijogos, descubram os bosses secretos. Descubram toda a emoção deste marco na história dos videojogos em qualquer versão do jogo, Playstation, PS3/PSP/PSVita, PS4, PC, Android, iOS, ou esperem pela Playstation Classic ou pela versão da Switch, mas façam um favor a vocês próprios: joguem-no. Só não escolham a primeira versão de PC, a que saiu ainda nos anos 90, porque essa tem as músicas em midi…

Retrobits é uma rúbrica mensal que tenta recuperar parte da história dos videojogos. Desde grandes sucessos a joias escondidas, tentaremos deixar-vos neste espaço algumas sugestões de jogos perdidos no tempo.

Pedro Moreira é Reviewer no 8.5Bits | twitter @morenho27 | pedromoreira@8dot5bits.com

Jogador desde os tempos do Spectrum, aficionado a jogos de Luta, Condução e RPG. Estudou Línguas e Literaturas na Universidade Nova de Lisboa, e Línguas, Literaturas e Culturas na Universidade de Évora. É Professor de Português e Espanhol, e nos (poucos) tempos livres consegue, por vezes, ligar o PC.
Scroll to top