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‘Sete Minutos depois da Meia-Noite’ – Análise ao Filme

Deviam ser oferecidos pacotes de lenços à entrada deste filme porque muita choradeira vai haver. Este filme é muitas coisas mas é, acima de tudo, uma história muitíssimo bem contada. A narrativa aqui ganha outros contornos, contornos esses que não vemos muitas vezes. A aparente simplicidade do filme esconde uma complexidade enorme, mas está tudo tão bem delineado e imaginado que Sete Minutos depois da Meia-Noite até faz parecer que escrever uma boa história é fácil.

Vida, amor, luto, medo, insegurança – existe tudo aqui. Não há bons nem maus, apenas pessoas que tentam e lutam por viver as suas vidas, e que tentam lidar com o que vai acontecendo da maneira mais humana possível. O filme faz lembrar O Labirinto do Fauno numa escala mais pequena e num universo bem mais contido, mas com a mesma humanidade e profunda emoção.

O uso da animação neste filme é incrivelmente envolvente e flui na perfeição com o resto das cenas. Tem um aspeto tão rico, imaginativo, e captura tão bem a nossa atenção, que torna possível uma maior aderência àquele mundo do miúdo; a forma como o realizador consegue criar e usar a fantasia para ajudar a aguentar e suportar uma tragédia é magistral, nunca nenhum momento soando a falso ou forçado.

Sete Minutos é excelente tanto a nível visual como narrativo mas principalmente como na maneira como consegue aliar estas duas componentes. O realizador pega nos desenhos do protagonista e toma-os como ponto de partida para as histórias fantásticas que nos vai contando, sobre reis e boticários, contando as mais variadas lições humanas, servindo-se delas para nos aproximar do miúdo e de toda a situação que ele está a viver. O interessante (e invejável, para os seus realizadores contemporâneos) é que Bayona consegue juntar o quotidiano e o mundano deste rapaz inglês com todas as sequências fantasiosas e criativas que ele tem com o monstro.

Todo o elenco está muitíssimo bem nas suas interpretações (mal seria, com Sigourney Weaver, Felicity Jones ou Liam Neeson) mas o destaque vai obviamente para o protagonista. O miúdo, Lewis MacDougall, está completamente à altura daquilo que o que filme é e que quer atingir. Nem por um momento sentimos que destoa daquela história; se numa cena nos consegue pôr a rir, na próxima põe-nos a chorar, mas nunca nada disto sai forçado, tudo é credível e, principalmente, humano. Tudo isto porque, em última análise, ele é a história. Ele serve de veículo para todos os eventos, ele direciona os seus sentimentos mas, mais importante que isso, não sucumbe àquilo que seria fácil fazer (tornar isto num melodrama gigante) e eleva a sua personagem para uma bonita fábula sobre as nossas inseguranças e medos mais profundos.

Sete Minutos depois da Meia-Noite é um filme cheio de sentimento, esperança e humanidade. Não é tradicional, é único, é storytelling no seu expoente máximo. Consegue acertar em todas as notas, tempos e compassos, como poucos filmes o fazem, sem, no entanto, se tornar melodramático. Recomendável para quem chora com filmes e mais ainda para quem não chora – aqui está o filme que vos vai fazer chorar garantidamente.

Pedro Gomes é Editor de Cinema no 8.5Bits | pedrogomes (arroba) 8dot5bits.com

Com a escrita e a música em plano de fundo desde pequeno, e sendo licenciado em Argumento pela ESTC e autodidata musical por natureza, ambiciona escrever filmes, séries, e compôr música para cinema.

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