‘Sol de Chumbo’ – Análise ao Filme entrevista com o Realizador Dalibor Matanić

por Marta e Silva de Almeida

Sol de Chumbo é um filme croata que nos conta três histórias de amor que surgem no clima de guerra instaurado na zona das Balcãs. O filme estreou em 2015 no Festival de Cinema de Cannes na secção Un Certain Regard, na qual ganhou o Prémio do Júri. Falámos com o realizador Dalibor Matanić e fizemos-lhe algumas questões relativas ao filme.

Qual foi o motivo principal para a realização deste filme?

DM –  Ao longo do tempo falei com algumas pessoas que eram tão obcecadas com política, história e conflitos e que também eram pessoas tão cheias de amor mas  que estavam constantemente obcecadas com nacionalidades e com o passado, e isso foi o que me fez querer analisar profundamente a história e as pessoas. O meu objectivo era tentar perceber como conseguiria filmar arte e fazer uma declaração visual para chegar a um novo rumo, parar a história e filmar aquilo que eu considero ser o que move as pessoas, o amor.

O filme surge com três narrativas em três décadas diferentes. 1991, 2001 e 2011. A importância do amor entra como uma tentativa de sobreposição do ambiente de ódio e medo imposto pela guerra e a sociedade na altura. A demonstração de um país que viveu e continua a viver na memória da guerra cuja história se manifesta através da fragilidade do amor. As três histórias contadas no filme são diferentes e referem-se a casais nas diferentes décadas do pré e pós guerra. O sentimento que as acompanha é inerente às três narrativas – o questionamento acerca do amor e daquilo que o tenta apagar.

Quais foram as suas maiores dificuldades na escrita deste argumento e em que é que se baseou para o filme?

DM Não foi muito fácil porque o escrevemos em cinco, seis anos. A minha primeira ideia era fazer um filme acerca da guerra; não para a ver mas para a sentir. Era fazê-lo da forma mais subtil possível, quase invisível. Ser mais um sentimento do que algo verbal e tentar fazê-lo de forma subconsciente. As três histórias do filme têm todas a mesma energia. O desenvolvimento do argumento foi bastante difícil mas nós sabíamos qual era o nosso objectivo.

A primeira história de 1991 surge dentro da atmosfera da guerra quase a acontecer, em que um casal de diferentes etnias, está apaixonado. O começo da mesma é filmado quase de forma idílica, na praia, onde o casal está; o rapaz toca trompete e a rapariga descansa. O casal não é bem recebido pela família e o seu amor acaba por ser um problema no clima de pré-guerra em que se encontram.

A segunda história é passada em 2001 e nesse momento já a guerra terminou. Uma rapariga e a sua mãe regressam à sua casa que está agora, destruída. Para a reconstrução da mesma contratam um rapaz da zona. A tensão entre a filha e o rapaz é desde logo palpável mas, embora tentem concretizar a sua paixão, a memória da guerra e daquilo que se passou, faz com que nenhum dos dois consiga avançar com a sua vida.

A terceira e última história é contada em 2011 com o regresso de um rapaz à vida no campo depois da vida na cidade. Embora tenham passado vinte anos, o clima da memória da guerra ainda está presente e as personagens parecem agir à margem do que realmente sentem. Este regresso à vida no campo, acaba por ser um regresso à sua própria vida, e a uma tentativa de recuperar dos anos de medo e confusão.

 

Qual o motivo para que o filme se divida em três histórias?

DM Eu quis criar algo a que chamei a timeline da dor da memória da guerra. Na primeira história é possível ver uma guerra que é quase possível de tocar e sentir e quase mesmo ver. Na segunda história é algo que vem de dentro para fora das personagens e da sua impossibilidade de perdoar alguém. Na terceira, queria falar acerca da memória de algo que já aconteceu há vinte anos atrás mas que é como um eco – continua a dividir as pessoas. Ou seja, em três décadas, não conseguimos perceber qual delas é a pior.

Os actores que Dalibor Matanić escolhe, representam nas três histórias como personagens diferentes de décadas diferentes. Esta permanente introdução das mesmas caras parece querer representar uma certa universalidade na criação de histórias individuais e, que, ao mesmo tempo representam uma sociedade que vive reprimida e estagnada no passado. As interpretações dos actores são excelentes e a naturalidade que transmitem ajuda na criação da ambiência criada pelo filme – é possível sentir as suas dores, anseios e medos e, embora não exista muito diálogo explícito acerca da interioridade das personagens é possível sentir tudo através dos seus gestos, expressões e acções.

Porque decidiu escolher os mesmos actores para as três histórias e como foi o seu processo com eles?

DMEu queria filmar a um nível subconsciente e criar uma atmosfera para a audiência de que  História está sempre à tua espera e à espera do erro que se vai cometer – História que se repete. As histórias são diferentes, diferentes décadas mas as mesmas caras para que haja uma espécie de aviso para os erros que já foram cometidos. Uma atmosfera para criar algo que mostre que se as pessoas não encontrarem a força para perdoar, irá tudo acontecer novamente. Às vezes perguntam-me qual seria a quarta história do filme e, embora eu seja optimista, se as pessoas não encontrarem a força de perdoar, a quarta história do filme, seria novamente a primeira. Que é o que se pode encontrar agora nos políticos como Angela Merkel, Trump ou Putin – a repetição dos mesmos erros. Não é muito encorajador!

Em relação ao método que usei… Os actores são muito corajosos e gostam de experimentar e fizeram muita improvisação. Tinham muita liberdade porque quando deixas os actores sem muitas indicações, eles mostram-te algo que não sabiam que tinham dentro de eles e isso é como testar a sua animalidade e natureza. Foi importante sentir a natureza do espaço porque o local onde filmámos não é uma zona onde as pessoas falam mas sim onde elas se comportam. A maior dificuldade para os actores foi criar personagens diferentes, mas que ao mesmo tempo eram iguais; criar mudanças subtis para que transmitissem a mesma energia nas três narrativas.

Foi importante sentir a natureza do espaço porque o local onde filmámos não é uma zona onde as pessoas falam mas sim onde elas se comportam.

A importância da natureza é claramente visível. Todas as histórias são contadas em meios rurais e as personagens existem na mesma, seja praia ou floresta. A própria natureza surge quase como uma outra personagem. Intensifica a sensação de vazio que parece assolar o ambiente que passa para o espectador. A natureza parece também ter um papel importante na criação de imagens contemplativas e idílicas que acabam por refutar com aquilo que nunca é visto ou presenciado no filme. Também a animalidade surge na figura de um cão. O silêncio é outro dos factores que ressoa em todo o filme. Este acaba por se aliar à natureza que se instiga como símbolo desse silêncio – daquilo que se quer dizer mas que nunca é dito e daquilo que é sentido mas nunca extrapolado para o exterior.

 

O filme é quase todo filmado no campo ou em locais com presença da natureza. Porquê? E qual a importância do cão que reaparece em todas as histórias?

DMEsta área onde filmámos é simbólica no sentido em que foi o local onde começou a guerra. Nas cidades em guerra e mesmo agora, na era moderna, as cidades são um local de escapismo para as pessoas fugirem delas mesmas. Esta área é linda, cruel, mas linda, e representa bem este teste aos humanos. Nas cidades as pessoas parecem estar a desaparecer, mas nestas áreas consegue-se testar mesmo os humanos.

Em gosto desta relação dos animais e da natureza serem observadores silenciosos do que se passa. Nos filmes usamos animais que observam as pessoas a serem estúpidas porque o tempo passa e a natureza fica. Mas eu acho que cada espectador deve pôr as suas emoções no cão… há uma enorme possibilidade de entender o cão e o filme.

Em termos plásticos, o filme é muito apelativo visualmente com tendência para a contemplação. A construção de planos abertos com acesso à paisagem, remonta a um ambiente distinto daquele que é retratado – a guerra. Na segunda história, o enredo principal passa-se dentro de uma casa antiga (já quase destruída) e na reconstrução da mesma. A meu ver, foi a narrativa mais interessante em termos visuais, onde houve quase que um desenhar da câmara pelo próprio espaço com diversos planos filmados de janelas da casa para o exterior que as personagens observavam. Estes planos aparecem quase como se a casa simbolizasse a segurança que faltava a estas pessoas. O tratamento do som também parece ter sido outros dos elementos pensados com cuidado, ajudando este a criar a atmosfera e a tensão nos momentos certos da acção.

Como foi realizar este filme e quais foram a dificuldades que encontrou? Podia falar de algumas das suas influências?

DM É sempre como fazer as coisas mais reais. É importante realizar sem se ver o realizador. Quando começamos a filmar, eu disse ao meu Director de Fotografia que ele devia filmar com os olhos fechados. Era importante ele sentir. Basicamente, estávamos a testar como entrar dentro do material e como combinar as personagens, a natureza e os sons presentes no espaço onde filmamos e criar algo consistente.

É todos os dias. Filmar algo é encontrar sempre inspiração. No cinema moderno, encontro sempre algo nos filmes do Haneke ou Paul Thomas Anderson. Depende… vem de todos os sítios do mundo mas eu acho que o mais importante é criar a nossa própria expressão. É bom fugir de qualquer tipo de influências. Podemos sempre nos lembrar de Bresson e Tarkovsky na criação das ideias, mas na realização é melhor nos afastarmos e criarmos a nossa própria fórmula ou expressão.

O filme foi vencedor do prémio do Júri, Un Certain Regard no Festival de Cinema de Cannes em 2015 e foi aclamado não só pela crítica mas também pelo público.

O que mudou desde que ganhou o prémio no Festival de Cannes? Era algo que previa?

DM Não estávamos à espera. Percebemos que as pessoas estavam a reconhecer o filme e isso foi brilhante. Acho que o melhor é não pensar sobre isso mas fazer cinema da forma mais honesta possível.

Sol de Chumbo é, certamente, um filme a ver devido à sua subtileza no contar de histórias que representam uma única história tão difícil para a sociedade das Balcãs. A demonstração de um ambiente onde prevalece o amor, mas numa sociedade que tem dificuldade em perdoar e esquecer o que se sucedeu há duas décadas atrás.

Por último, gostaria de saber qual é a sua ligação com Portugal e com o cinema português.

DMEu conheço cinema português e lembro-me que tinham o realizador mais velho do mundo… Mas o que para mim é importante na Europa e no cinema em geral, é que se seja o mais universal possível. No cinema português é a mesma coisa… torná-lo o mais universal possível. Mas há uma coisa da qual eu me arrependo… é que ainda não fui a Portugal, mas irei, certamente, no futuro.

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