‘T2 – Trainspotting’ – Análise ao Filme

Trainspotting 2 não consegue deixar de viver à sombra de glórias passadas

Havia dúvidas que quando Renton fugiu com o dinheiro dos amigos, ele não iria escolher a vida? De facto esperávamos alguma coisa que não fosse exactamente aquilo que vemos no T2 – Trainspotting? Bem… de facto não esperávamos que o futuro de Renton fosse muito melhor que o futuro de Sick Boy, ou o futuro de Spud, ou o futuro de Begbie. Mas esperávamos que a continuação da história fosse bem melhor do que o T2 tem para oferecer.

T2 é um filme criado não por haver algo a dizer, mas antes por razões sentimentais. Não é difícil olhar para o primeiro Trainspotting com olhos nostálgicos: é um filme brilhante, que casava a brilhante prosa de Irvine Welsh ao estilo hiper-cinético de Danny Boyle. Era uma injecção de adrenalina no coração do zeitgeist britânico pós-Thatcher. Quase tão popular como foi na altura, continua a ser, hoje em dia, mais do que qualquer outro, o filme britânico e o filme sobre droga dos anos 90. A um nível mais pessoal, é também o longínquo pináculo da relação de Boyle com McGregor, relação essa que foi quase irremediavelmente acabada quando Boyle teve de largar o seu protagonista habitual e escolher Leonardo diCaprio para fazer o The Beach.

É fácil olhar com lentes cor de rosa para o passado. Ele é constante, imutável, e quando o futuro parece incerto ou difícil, o passado por glorioso ou terrível que seja, está sempre lá, reconfortante, reafirmando quem tu és, ou pelo menos quem pensas que és. No entanto, ninguém é um bom juiz de si próprio. E quando uma pessoa olha para o mundo com lentes cor de rosa, todos sinais vermelhos parecem normais. Enquanto Trainspotting cortava a direito através das vidas das suas personagens, T2 é um filme sentimental sobre pessoas sentimentais, fascinado com um passado que não pode recuperar nem consegue superar.

À cabeça de todas as pequenas frustrações que uma pessoa pode ter a ver este filme, enquanto Trainspotting era um slice of life, T2 tem um enredo. Uma pequena desculpa de enredo que se espalha pelo filme como um câncro não tratado. Num desnecessário update ao enredo de Porno, a sequela literária de Trainspotting e que serve como uma distante inspiração ao filme actual, Begbie foge, da maneira mais descarada e mal planeada da prisão e durante duas horas aguardamos pelo muito empatado, e, em última análise, decepcionante confronto final entre Renton e Begbie, que está mais próximo do final de um thriller policial medíocre, do que um final merecido para a relação destas duas personagens.

Quando Boyle ainda estava seriamente a pensar em fazer uma sequela a Trainspotting, ele disse que não queria adaptar Porno directamente ao ecrã. “Porno, is not a great book in the way that Trainspotting, the original novel, is genuinely a masterpiece”, disse ele em 2010. E sim, Porno não é um livro tão bom como Trainspotting, mas é uma sequela merecida. É uma história mais leve, mas o olhar aguçado de Welsh em relação às fraquezas humanas dos pobres, dos desesperados e dos pervertidos dava vida e verdade ao aparente chorrilho de desaventuras em que as suas personagens se metiam. Elas podiam ser idiotas, mas nunca Porno parece ter sido concebido por um idiota.

É bastante difícil falar de T2 e não falar no quão perdida e estúpida é a plotline de Begbie, porque ela é a parte mais fraca do filme. Em vez de pura e simplesmente sair da prisão, como no livro original, Begbie agora foge da prisão com uma punção auto-infligida no fígado. Ele convence o guarda que supostamente o tem de vigiar a abandoná-lo sem supervisão durante tempo suficiente para que ele pudesse sair do quarto; pôr um médico KO no meio do hospital sem ninguém reparar; ir para casa da família durante uma temporada, independentemente de este ser o primeiro local a que a polícia iria (como a família de Begbie evita a polícia é um mistério que o filme não explica), e ainda por cima, o homem perde uns dias a assaltar casas com o seu próprio filho que nunca fez nada de mal na vida e está demasiado aterrorizado para dizer o que quer que seja. Estas são só as primeiras quatro cenas relativas à história de Begbie. O facto deste apenas escapar à justiça no mesmo fim de semana em que Renton decide regressar de Amesterdão para fazer um pouco de turismo pela sua adolescência perdida é uma daquelas coincidências formidáveis que só acontecem na terra das histórias.

O que é ainda mais frustrante é que Robert Carlyle consegue ao fim de vinte e um anos, imprimir ao seu papel tanta energia como a que tinha em 96. Aliás, todos os actores principais do Trainspotting original entregam-se aos seus papéis com a mesma dedicação que demonstraram no primeiro filme. O Ewen Bremner, com o seu corpo de espantalho e olhos esbugalhados, volta a demonstrar uma aptidão tão grande pelo humor físico que uma pessoa se chega a perguntar porque é que ele, como actor, continua a ser tão desconhecido. Johnny Lee Miller é um estudo em amargura adquirida e fermentada ao longo de anos nos andares mais baixos da sociedade. E Ewan McGregor apesar dos seus quarenta e cinco anos continua a parecer tão angelical e inocente que uma pessoa seria perdoada por confiar num dos protagonistas mais amorais e destrutivos dos anos 90. A sua energia colectiva ao ser associada ao nome Trainspotting fazem uma pessoa ganhar bastante simpatia pelo filme, uma simpatia que não seria tão facilmente ganha caso este filme não tivesse outro filme tão icónico por trás.

O grupo de quatro homens são arredondados pela presença da búlgara Anjela Nedyalkova, no papel de Veronika, uma prostituta associada a Sick Boy. Ao contrário de Nikki em Porno, que tem a honra de ser uma das personagens femininas mais bem trabalhadas em toda a obra de Welsh, o argumento de John Hodges não dá o mesmo tratamento a Veronika, que no todo não passa da velha personagem da prostituta com coração de ouro, que se afeiçoa a Renton e a Spud e ajuda este último a escrever o livro que se irá tornar Trainspotting.

Veronika faz parte de um ângulo inexplorado em Porno: a onda de imigrantes de Leste — sobretudo mulheres, que trabalham na indústria clandestina do sexo para sustentar familiares nos seus países de origem — que tomou conta do submundo britânico, um submundo que já não tem tanto de caracteristicamente escocês, mas agora, graças às redes sociais, se tornou mais cosmopolita, um pouco mais Starbucks.

No entanto, nada disto é verdadeiramente abordado muito além do obrigatório update ao monólogo  “Choose Life” do filme original — “Choose Facebook, Twitter, Instagram and hope that someone, somewhere cares”, declama Renton a Veronika —, dos diversos planos que mostram a evolução de Edimburgo dos anos 90 para os anos 10 e das colossais máquinas de entretenimento que pululam nos apartamentos dos pobres que se julgam novos-ricos. A parcimónia com que esta mudança é abordada é frustrante num filme que é obcecado com o passado. Tendo em conta que o Trainspotting tinha o retrato social de Edimburgo como um dos seus elementos centrais, o facto de pouco ou nada da evolução da Escócia nestas últimas décadas ser abordado é uma oportunidade perdida.

Boyle, na posição de único realizador que merece fazer uma sequela a Trainspotting mas na condição de realizador que nunca mais se deveria aproximar de Trainspotting, não consegue fazer mais do que elevar os truques visuais do primeiro filme de um 10 a um 100. Boyle é um realizador bastante dado a experiências visuais e a sua indomável originalidade expande os horizontes da linguagem visual do cinema a cada filme que ele lança: uma das principais razões pelas quais cada vez que Boyle faz um filme, este deveria ser acolhido com respeito pelos cinéfilos de todo o mundo. Boyle também é um realizador visceral, apaixonado pelos instintos básicos do ser humano, sobretudo no que toca à violência e aos vícios. E no entanto, Boyle tornou-se um realizador sentimental, sobretudo desde que esteve dois anos a fazer Slumdog Millionaire e se apaixonou por Bollywood. Quando Aron Ralston corta o braço no 127 Hours, segue-se uma montagem libertadora ao som do Festival dos Sigur Rós. Quando o pó assenta em Trance, o filme revela-se ser uma história de vitória de uma mulher abusada. E quando Steve Jobs chega ao fim, o filme explode numa gigantesca e até incongruente celebração do espírito de Jobs, por mais negligente que ele tenha sido em relação às pessoas à sua volta. Em T2, por mais do que uma vez encontramo-nos a meio de montagens positivas e de pequenas epifanias vazias. Quando Spud entrega o seu manuscrito à ex-mulher e esta acaba de o ler e diz-lhe, em tom solene: “Eu sei como este livro se pode chamar”, uma pessoa quase tem vontade de gemer com o mau gosto do momento. É como se Boyle estivesse a apropriar-se do pior que Paolo Sorrentino tem a oferecer.

Ao ler Porno depois de ver o filme, não deixo de sentir que, talvez, ter adaptado directamente Porno tivesse sido melhor. Certamente a narrativa teria sido mais interessante, mais credível, menos filme de género, mais verdadeira. Por mais que queiramos, o Trainspotting original não era sobre as suas personagens. O Trainspotting era sobre o mundo em que elas viviam, sobre o momento no espaço e no tempo que elas ocupavam e o desespero e a alegria e a violência desse momento. T2 é apenas sobre quatro pessoas que olham para trás. O realismo social que dá vida aos filmes mais “sérios” de Boyle está presente, mas o argumentista foi dar uma volta. O filme tem boas sequências, como a cena em que Renton e Sick Boy têm de inventar uma cantiga no momento para evitarem ser apanhados a roubar uma enorme quantidade de cartões de crédito num bar. Mas durante maior parte do tempo, não existe qualquer tipo de tensão na narrativa nem nada do que estas quatro personagens fazem é surpreendente ou nos toca como real.

Quando chegamos ao clímax os quatro homens de Trainspotting em vez de estarem mais desenvolvidos que nunca, foram reduzidos a personagens-tipo: Begbie é o lunático homicida, Renton o anti-herói por quem torcemos, Spud o amigo idiota e emasculado e Sick Boy o amigo traiçoeiro. É um triste fim para estas personagens. No que toca a comédias britânicas recentes sobre viciados que querem recuperar a imagem gloriosa do que foram enquanto deambulam por um Reino Unido descaracterizado, existe um filme bastante melhor e mais profundo sobre esse tema: chama-se The World’s End e é bem sucedido em tudo o que T2 não é.

E no entanto…

O filme acaba com um plano incrível, em que Renton dança sozinho ao som de Lust for Life, num quarto que se estende, como um túnel, infinito escuro e sem saída. Não é como se Danny Boyle tivesse perdido o seu jeito a encontrar imagens que vividamente ilustram a situação dos seus protagonistas, é só porque este foi o pior argumento que Boyle realizou desde The Beach. Não se pode dizer que não haja uma pequena ironia no meio disto tudo.

António Mendes é Editor de Cinema no 8.5Bits | antoniomendes (arroba) 8dot5bits.com

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