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‘The Get Down’ – Análise à Série

“Épica. Urbana. Operática. Épica na ambição de criar algo de único no âmbito narrativo. Urbana no sentido de que se trata de uma história num local e tempo muito específicos: a cidade de Nova Iorque no final da década de 70, do ponto de vista daqueles que são habitualmente ignorados – negros e porto-riquenhos jovens, pobres, artistas e sonhadores. Operática devido à magnitude da sua escala, desde a colorida paleta visual à emoção dramática transmitida através do desempenho dos atores, até a própria música. Épica. Urbana. Operática”, é o que diz o argumentista e coprodutor executivo Aaron Rahsaan Thomas sobre a sua experiência a trabalhar em ‘The Get Down’. E é exatamente isto que acontece, uma descrição perfeita do que trata a série e como é apresentada.

A série segue o percurso de ascensão do hip-hop no pano de fundo dos últimos dias da música “disco”, contado através das vidas e da música dos miúdos do South Bronx que iriam mudar o mundo para sempre.

O elenco de The Get Down inclui Shameik Moore, Justice Smith, Herizen Guardiola, Yahya Abdul-Mateen II, Skylan Brooks, Tremaine Brown Jr., Mamoudou Athie, Jimmy Smits, Giancarlo Esposito e Jaden Smith. E, para contar esta história de ambição, amor e provações, foram incorporadas entre as personagens fictícias alguns ícones da vida real, muitos dos quais foram também consultores da série, como Grandmaster Flash, que serve de consultor para a cultura da época e orienta Mamoudou Athie, o ator que interpreta a sua personagem na série.

No ambiente de desespero de Nova Iorque, os jovens retratados em The Get Down lutam para fazerem ouvir a sua voz, para que se saiba que existem, e que tencionam refazer o mundo que os adultos lhes legaram, seja a ouvir discos, a fazer rimas, a cantar, a pintar carruagens do metro ou a arranjarem novos nomes.

“O que mais me impressiona no Baz é a sensibilidade com que honra o mundo, as culturas e as personagens que retratamos. Há uma sinceridade que o impele e ao resto da nossa equipa a não falharmos nos detalhes e a honrarmos as fontes de inspiração, as nossas musas”, diz Thomas.

O que é o ‘Get Down’?

O que é, então, the get down?  Ouçamo-lo da boca do próprio mestre, Grandmaster Flash. “Fui eu quem inventou o termo. É a parte mais sossegada do álbum. Para mim, é a mais curtida. Agora, chamam-lhe break, mas a parte do get down é a parte em que o menor número de membros da banda tocam. Às vezes, é só o baterista, o baterista e o baixista, ou o baterista e o violoncelista, ou o baterista e o guitarrista. Essa parte ficava sempre demasiado curta no álbum, mas eu conseguia tirar uma pausa de bateria de uns dez segundos e, com cópias das gravações e pondo os meus dedos nos discos, inventar aos poucos esta ciência que me permitia tirar dez segundos e torná-los em dez minutos, o que, à sua maneira, criou o rap. Isto foi tudo antes dos MCs. Antes de os MCs surgirem em cena, eram os DJs que tinham obrigação de trazer os sons mais em voga. Muitas vezes, tínhamos de encontrar os álbuns em lojas de discos tradicionais, era aquela cena de tentar encontrar a batida perfeita. E, quando o DJ fazia isso, era uma arte. Foi quando o MC (rapper) surgiu, tipos como o Shaolin e o Books na série, que se desenvolveu a ligação entre o DJ e o MC. E isto, na minha opinião, foi o princípio do rap”.

O Elenco e Personagens

No papel do jovem poeta Ezekiel “Books” Figuero, o ator Justice Smith (Cidades de Papel) é, de certa forma, o cerne da série. Apesar da sua dura vida no Bronx, é um sonhador e um amigo dedicado, que não permite que as circunstâncias o deitem abaixo.

Após conhecer Shaolin Fantastic (Shameik Moore), o aspirante a DJ, a vida de Ezekiel muda de imediato. Os dois não podiam ser mais diferentes, mas criam um vínculo com base no seu amor pela música e no sonho de serem bem-sucedidos.

Shaolin Fantastic, conhecemos primeiro como Shao007, o seu nome artístico que assina nos graffitis que faz pela cidade, o herói de Dizzie, e que depois de o conhecermos percebemos que o seu sonho é ser o melhor Dj, com a ajuda de Flash. Enquanto isto, trabalha também para a gangster local Fat Annie.

Shaolin foi a personagem que menos me impressionou, talvez por terem feito grande caso dele no primeiro episódio uma figura mítica na comunidade, mágica, raramente visto, mas imortalizado através dos graffitis, que usa as Pumas vermelhas e nunca as suja, nunca vemos a sua cara até ao momento em que conhece os rapazes, e depois parece ter sido um pouco esquecido quando lhe deram uma vida ‘normal’. O que mais gostei foram os sons próprios da personagem, sempre que aparecia ouvíamos os mesmos sons, e a forma como se movimenta é teatral, desde o primeiro ao último episódio, a única coisa que se mantém igual na personagem o tempo todo, o que não é mau.

Mylene Cruz (Herizen Guardiola) também acalenta grandes sonhos, mas, em contraste com Brooks e Shaolin, os ídolos dela vêm do mundo glamoroso e cintilante do disco. A jovem cantora é também objeto da afeição de Ezekiel, embora os seus caminhos diferentes ameacem separá-los.

Jaden Smith (Karate Kid, Em Busca da Felicidade) interpreta o papel de Dizzee, o amigo de Ezekiel que representa a outra faceta da emergente cultura hip-hop: os graffitis. Filho do ator e rapper Will Smith, Jaden entrou no projeto já com algum conhecimento de causa sobre o tema.

Fazem também parte do grupo de Ezekiel Skylan Brooks, no papel de Ronald “Ra-Ra” Kipling e o jovem de 14 anos Tremaine Brown Jr., no papel de Miles “Boo Boo” Kipling, irmãos de Yolanda Kipling (Stefanée Martin), uma das melhores amigas de Mylene. Shyrley Rodriguez faz de Regina Diaz, outra amiga próxima de Mylene.

Muitos espetadores certamente reconhecerão o ator veterano Jimmy Smits, (Os Homens do Presidente, Sons of Anarchy, A Balada de Nova Iorque, L.A. Law), que interpreta o papel de Francisco “Papa Fuerte” Cruz, um vereador local que fará o que for preciso para que a sua sobrinha Mylene tenha o reconhecimento que merece.

Yahya Abdul-Mateen II interpreta o papel do determinado e bem vestido Cadillac, filho do gângster local Fat Annie (Lillias White) e um príncipe do disco, cujos passos de dança fluidos escondem uma alma ardilosa.

Por fim, o estreante Mamoudou Athie, outro licenciado da Yale School of Drama, faz de Grandmaster Flash, o herói da vida real que foi o mentor de Shaolin. Flash trabalhou de perto com Athie, um ator que nunca tinha sequer tocado num gira-discos em toda a sua vida, para garantir que era bem representado.

A Música

Tal como em todas as outras produções de Luhrmann, a música é o elemento essencial que dá vida a The Get Down. A nível narrativo, The Get Down decorre entre 1977 e 1979, mas cada episódio tem uma introdução de Mr. Books, o narrador da série e o eu futuro de Books, imaginado como um ícone moderno do hip-hop de meados da década de 90. O MC faz rimas sobre o seu passado e questiona o seu presente diante de uma plateia esgotada. Cada episódio começa com isso mesmo, e essa rimas sobre o passado intercalam com imagens de cada episódio anterior, um ‘Previously on’ diferente do que estamos habituados, mas muito bem incorporado no tema da série.

Alguns dos momentos que acho que ficarão marcados de certos episódios, são ter mais do que uma, até quatro, ramificações da narrativa, várias camadas da história, a decorrer ao mesmo tempo, e que partilham uma temática comum, como termos de um lado o produtor musical Jackie Moreno, interpretado por Kevin Corrigan, completamente maluco a tocar piano e a tentar concentrar-se, uma ou duas horas depois de ter quase morrido de uma overdose, e imagens de Cadillac a ameaçar dois rapazes para obter respostas sobre quem tentou assassinar Fat Annie. A música acompanha os dois momentos de forma extraordinária, tal como quando de um lado temos as três amigas a cantar o hino nacional, e do outro lado os rapazes numa batalha de dj’s, onde as vozes ficam abafadas com o som altíssimo das colunas.

As imagens são como um só momento, “contramelodias numa composição abrangente em vez de composições individuais, consegue-se um efeito dramático combinado que é impossível de alcançar quando as seguimos de forma linear”.

Uma série muito boa, com boas histórias, uma narrativa complexa e vários pontos de vista, bons atores, um olhar diferente pelos finais dos anos 70, pela disco, pelo hip hop, imagens bonitas, um musical bem encenado, uma banda sonora criada mesmo para cada imagem e cada cena no momento da escrita.

Cada episódio tem pouco menos de uma hora, sem contar com o primeiro que tem uma hora e meia, que podia ser um filme.

Nova Iorque é magnífica, e as imagens capturam cada espaço e ambiente de forma impressionante. Sem dúvida que a Netflix se devia focar mais em séries do que filmes, e num pouco período de tempo trouxe duas das séries mais faladas, ‘Stranger Things’ e ‘The Get Down’.

Os primeiros 6 episódios já se encontram disponíveis na Netflix.

Francisco Sampaio é Editor de Cinema e Séries do 8.5Bits | franciscosampaio (arroba) 8dot5bits (ponto) com

Há 8 anos a estudar cinema e técnicas audiovisuais, terminou em 2016 a licenciatura em cinema, estando agora a trabalhar como produtor de conteúdo de vídeo, crítico de cinema e gestor de redes sociais em diversas empresas. Amante de cinema e música, gosta de viajar e aprender coisas novas para aumentar os seus conhecimentos em várias áreas.

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