‘The Last Face’ – Análise ao Filme

É notável como Sean Penn conseguiu desrespeitar não só o tema nobre que quis abordar como também a inteligência da audiência.

Chegam alturas na vida de um crítico em que o filme que tem diante dos olhos não o satisfaz completamente. Existem muitas alturas assim, aliás. Mas raros são os filmes que não se assemelhem a nada que o crítico goste; encontra-se sempre alguma coisa que esteja bem feita, bem pensada, bem filmada… o caso de The Last Face é completamente diferente. Aqui está um filme em que nada resulta. Cursos deveriam ser criados sobre este filme, livros deveriam ser escritos, documentários realizados. É realmente fascinante como este filme alguma vez viu a luz do dia.

Primeiro de tudo, é importante referir que existem maus e maus filmes. Existem aqueles que são tão maus que se tornam bons (sendo o The Room o maior embaixador desse belo género cinematográfico), e depois existem aqueles que são só… maus. Muito maus, mesmo. São aquele tipo de filme que se sente quase vergonha alheia (principalmente quando nomes tão sonantes estão envolvidos, como é o caso) não só sobre os pequenos detalhes, mas ainda mais pelos maiores; pela construção das cenas, pela inexistência de um pensamento sobre personagens, pela realização que nem um aluno de primeiro aluno da escola de cinema teria o mau gosto de fazer,…

Dizer que The Last Face é o pior filme de Sean Penn acaba por não fazer justiça a estes cento e trinta minutos de nada. Esta obra não é o pior filme de Sean Penn; é um dos piores filmes alguma vez feitos. Mesmo passando à frente de questões técnicas, o filme desrespeita e de que maneira toda a mensagem que desesperadamente quer tratar. The Last Face deseja ardemente ser um filme humanitário, que consiga mudar perspetivas e que tenha impacto social, mas falha redondamente em conseguir qualquer uma desses objetivos porque passa o tempo todo a achar que é um filme importante, sem nunca nos mostrar porquê. É como se Sean Penn achasse que a logline fosse o essencial e não tivesse de conceber um filme inteiro à volta.

The Last Face não só não consegue criar um romance decente entre os dois protagonistas como também tem uma dificuldade gigante em criar algo para além disso – um plot de intriga, algo que prenda a atenção, por onde uma história possa ser arrastada e cativar uma audiência. Mas isso nunca chega a acontecer; é como se Sean Penn disparasse em todas as direções mas não conseguisse nunca acertar em nada que se parecesse com um alvo.

O filme tem inúmeras coisas péssimas mas uma das mais fascinantes é o argumento. Eu não sabia que era possível um argumento achar-se o maior da sua aldeia, pelo menos não a este nível. Mas com o guião de The Last Face é mesmo isso que acontece: há uma aura palpável de complexo de superioridade, de achar que a sua história é incrivelmente humana, incrivelmente importante, e ainda mais que isso, que merece ser contada a todo o custo. Não se enganem; a única coisa que merece ser contada aqui é o cachê que toda a equipa recebeu para decidir embarcar neste filme destinado a fracasso instantâneo.

É impossível levar o filme a sério. É tudo criado de uma forma tão falsa, desde o argumento até à música, da montagem à direção artística, que é impossível por um momento sequer sentirmos perante o filme uma emoção que não seja confusão, indignação ou simplesmente profundo ódio. Não há profundidade nenhuma em nada do que o realizador pretende retratar, tudo no filme tem a dimensão psicológica de uma cadeira. O filme é tão arrogante na maneira de apresentar a narrativa que não nos deixa alternativa senão apreciar o espetáculo que é ver o último filme que um realizador alguma vez fará na vida (bom, caso o nome fosse outro que não Sean Penn, claro).

O realizador quis fazer um filme sobre ajudar pessoas, mas o resultado é um filme que mostra o quanto ele quer ser visto como um bom ativista que ajuda as pessoas mais desfavorecidas. Afinal, de que outra maneira se explica o facto de o filme se passar em África e as personagens que os atores negros interpretam tenham zero profundidade? Como é possível que o realizador supostamente tenha a intenção de se focar no facto daquelas comunidades sofrerem com tantas e tantas coisas, e acabar a fazer um filme sobre um romance entre um casal que tem a mesma química que um gato e uma bola de bowling?

Como se isso não bastasse, a maneira como Penn concebe o filme é complemente ridícula. Tudo é descabido. A imagem é de uma qualidade estupidamente amadora, e não só em termos de enquadramentos estou a falar; existem mesmo momentos de desfoque completamente aleatórios, inúmeras sequências que parecem ter sido filmadas por alguém que comprou uma vez uma Canon por engano.

Até à música, composta por Hans Zimmer, vale zero. Mas, sejamos sinceros, mesmo que fosse boa nunca na vida conseguiria salvar um filme destes. Sean Penn, mesmo tendo o maior compositor de cinema dos últimos anos a trabalhar para si, passa o filme todo a fazer referências estapafúrdias a Red Hot Chili Peppers. O realizador parece ter uma gigante obsessão na banda americana; existem umas quatro ou cinco referências à banda, uma das quais ocorre durante uma operação cirúrgica em que Bardem está a operar um paciente e, nos seus fones, vai ouvindo o clássico “Under The Bridge”.

Existe uma cena que ilustra totalmente o falhanço total que este filme é. É uma cena em que Bardem e Theron, juntamente com a restante equipa médica, estão a tratar de vários pacientes. Theron apercebe-se, no entanto, que a sua paciente vai ter uma vida miserável, independentemente de a curarem ou não, e decide matá-la e acabar com o seu sofrimento, injetando uma qualquer substância no sangue. Bardem apercebe-se do que se está a passar e, virado para Theron, diz somente isto: “Isso é errado”. Dito isto, volta a virar-se para trás, acabando ali a sua missão tão humanitária e impeditiva de Theron matar uma paciente. Esta cena funciona como resumo do filme – Penn quer tanto contar uma história sobre o sofrimento e angústia que se vive em África durante a guerra, mas acaba por só fazer os minímos, achando que o importante é parecer e não criar de facto uma narrativa que vá ao encontro das questões nobres do tema.

Existe uma outra sequência tão má que se torna risível. Bardem e Theron são um casal que passa o filme às turras, e a certa altura estão a discutir durante uma viagem de carro. Theron acaba por sair porta fora, farta da discussão. Bardem pede-lhe para voltar, ela aproxima-se da porta, ainda zangada, e põe a cabeça dentro do carro para falar. Nesse preciso momento, Bardem acha duma hilaridade suprema fechar a janela, o que resulta com que Theron fique com a cabeça presa na janela. Quando isto acontece, não só Bardem se parte a rir, como também os passageiros atrás soltam gargalhadas enormes. Ah, humor do bom. (E, claro, tudo isto acontece ao som de Red Hot).

Uma das cenas que fecha o filme é incrivelmente sensacionalista, e nem sequer tenta esconder o facto de estar a manipular a audiência de uma forma tão poderosamente errada. Existe um gang – completamente aleatório, que nunca foi apresentado durante o filme – que decide aparecer à frente do carro de Bardem, Theron, e mais alguns médicos, e exige que um dos médicos mate o seu próprio filho. Ele não obedece e, face a isso, o gang exige que então seja o filho a matar o pai. O filho não o quer fazer e, quando o pai lhe garante que está tudo bem, acaba por pegar na arma e… dá um tiro na sua própria cabeça e morre ali. É uma cena que tem o objetivo de chocar, só porque sim? Sim. Que importância tem isto para a narrativa? Zero. Sean Penn quer tanto passar a imagem de que ele se preocupa com tudo o que de mal se passa em África, que acaba por sair desta demanda como o pior tipo de ativista possível: aquele que só aparentemente quer saber das coisas, sem se importar realmente com o que se passa à sua volta.

É incrível como um filme passado em África não tenha nada de relevante a dizer sobre as condições dos países onde o filme se passa ou sobre as pessoas que lá vivem. Sean Penn esqueceu-se claramente que para fazer um filme de causas nobres tem de estar à altura do que quer contar – não basta parecer -, e para isso fez uso da maior quantidade de sentimentalismos baratos que conseguiu encontrar.

(Ah, e existe um médico chamado Dr. Love. Não ironicamente.)

Pedro Gomes é Editor de Cinema no 8.5Bits | pedrogomes@8dot5bits.com

Escrito Por
Com a escrita e a música em plano de fundo desde pequeno, e sendo licenciado em Argumento pela ESTC e autodidata musical por natureza, ambiciona escrever filmes, séries, e compôr música para cinema.

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