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Tudo Sobre ‘Carbono Alterado’!

Takeshi Kovacs (Joel Kinnaman) é um homem sem tempo. Um homem do séc. XXII
que voltou à vida 300 anos no futuro e é forçado a procurar um assassino. Na tentativa de reconstituir as pistas que levantaram dúvidas quanto à forma como a vítima morreu, o primeiro passo de Kovacs será falar com a própria vítima. Em Altered Carbon, a morte não é
inevitável. Ao fim de três séculos, os humanos podem armazenar a sua consciência em discos transferíveis e ser inseridos em novos corpos. Mas os muito ricos, que vivem numa cidade nas nuvens, têm corpos melhorados por designers, ou clones de si mesmos. Laurens Bancroft (James Purefoy) não é apenas o homem mais rico da Terra. É um dos homens mais ricos dos Mundos Colonizados, e assim tem sido ao longo de séculos – até que alguém o matou e vaporizou o seu dispositivo cortical. À medida que Kovacs deambula por Bay City, uma violenta localidade na Terra, vai recolhendo mais perguntas do que respostas. De quem será o corpo para o qual foi transferido? O que será feito da mulher que ele em tempos amou? Porque estará a tenente Kristin Ortega (Martha Higareda) tão interessada em Kovacs? E poderá Kovacs confiar no antigo oficial militar Elliott (Ato Essandoh) e na entidade de IA conhecida como Poe (Chris Conner), que habita o decrépito hotel Raven?

Com gráficos revolucionários, ação extraordinária e uma intensa paisagem plena de temáticas vanguardistas, Altered Carbon é baseada no aclamado romance de Richard K. Morgan, criada por Laeta Kalogridis (Alita: Battle Angel, Shutter Island) e produzida pela Skydance Television para a Netflix. 

Quem fomos, quem somos, o que podemos alcançar e o que podemos destruir, tudo isso depende de fins e inícios. Altered Carbon passa-se num mundo em que esses conceitos são indistintos. Um futuro a centenas de anos de hoje, repleto de néones, perigosamente polido, viciado em tecnologia e moralmente vazio, em que as pessoas podem armazenar as mentes em discos nos seus pescoços, em  “dispositivos corticais”, e em que os dados que compõem a mente humana, apelidados de Carga Humana Digital, ou CHD, podem ser transmitidos para dispositivos de corpos diferentes.

No tempo que leva a fazer uma cópia de segurança dos dados mentais na nuvem via satélite, uma pessoa fica pronta a viver novamente, seja no espaço de um dia, uma semana, ou séculos mais tarde. A tecnologia proveniente de avanços alienígenas, foi aperfeiçoada por um revolucionário do séc. XXI e, no séc. XXIV, é levada a extremos violentos e perturbadores.

No entanto, serve também de ajuda a um guerreiro de outra era, que quer resolver um homicídio. Mais especificamente, o homicídio do homem mais rico da Terra… que ainda está vivo.

A chave para este mistério psicadélico reside na abastada classe dirigente conhecida como os “Matus”, que vivem bem acima do mundo sombrio e decadente em arranha-céus nas nuvens, no apelidado Aerium, onde a consciência de cada um é gravada a cada 48 horas e pode ser transferida para corpos de “designer” ou para clones dos seus antigos corpos, permitindo-lhes viver literalmente para sempre. Os rasteiros, os menos privilegiados, vivem na incerteza do deus-dará nas ruas perigosas e esquálidas da Terra. A consciência de alguns desperta num corpo que foi alugado ou destacado para funções de serventia, por exemplo, guarda-costas, ou prostituta, ou outra qualquer função que responde perante o Protetorado da ONU, que supervisiona a lei interplanetária.

Outros dão com as suas mentes transferidas para corpos mais velhos ou em mau estado, os únicos disponíveis para o seu nível económico. Crianças despertam em corpos de idosos e pessoas veem os seus entes queridos com sexos ou raças diferentes. Este mundo multiconetado está cheio de pessoas que despertaram várias vezes em corpos diferentes, o que as deixa em risco de ataques psicóticos. Mas, quando a própria vida é um produto, passa a ter um valor diferente daquele que alguma vez lhe foi atribuído pela humanidade.

Neste mundo futuro, há quem escolha não tornar a viver e sujeitar-se à chamada “morte verdadeira”. Mas, para os superricos, conhecidos como “Matus”, a morte não é permanente. Vivem numa sucessão de novos corpos, são sempre senhores do seu destino. Neste mundo de corpos permutáveis e vida modificada, tudo pode ser comprado, vendido ou corrompido, e aquilo que separa o certo do errado foi completamente apagado.

É isso o que descobre um homem chamado Takeshi Kovacs (Joel Kinnaman: House of Cards, The Killing, Esquadrão Suicida, Robocop) nas suas primeiras semanas de regresso à Terra, quase 250 anos após ter sido morto. Kovacs, nascido num planeta colonizado por operários japoneses e eslavos, foi um “Emissário”, um combatente da resistência. Agora, com um novo corpo e atormentado por um amor que perdeu há mais de dois séculos, Kovacs descobre que foi “alugado”. É então que Laurens Bancroft (James Purefoy: Hap and Leonard, Roma), o rico magnata de Matusalém que pagou para que a consciência e aptidões de Kovacs fossem implantadas num novo corpo, revela o seu objetivo: o corpo anterior de Bancroft foi morto – e fizeram com que parecesse um suicídio – e ele quer que Kovacs descubra o responsável. Se Kovacs resolver o caso, terá direito à sua liberdade.

Caçar o assassino do homem que diante dele se encontra pode ser a saída que Kovacs procura. Com a ajuda da detetive Kristin Ortega (Martha Higareda, Mágoas de Grandeza, Os Reis da Rua), uma mulher polícia dura que trabalha na Divisão de Danos Orgânicos do departamento de polícia de Bay City, ele aceita a missão. Mas o que o futuro de Kovacs lhe reserva e o que regressa do seu passado é algo que ele nem imagina.

 

DAR VIDA A UM NOVO MUNDO

Desde 2002 que o assombroso e ricamente detalhado mundo de Altered Carbon, o aclamado, influente e impressionante romance cyberpunk de Richard K. Morgan, intriga os leitores, que desejam uma adaptação cinematográfica desde a publicação do livro. No entanto, transportá-lo para fora das páginas não tem sido tarefa fácil. Não foi senão quando a criadora da série e produtora executiva Laeta Kalogridis se juntou à Skydance Television e à Netflix para lançar Altered Carbon em 10 episódios revolucionários de narrativa abrangente, que o épico de Morgan pôde efetuar o salto entre meios.

Com esse salto vieram impressionantes valores de produção, sequências de ação elaboradas e uma estrutura elegante que permite o crescimento de personagens que a história pede. “A televisão já começava a experimentar temporadas mais curtas e cinemáticas, com um tipo de energia bem diferente”, diz Kalogridis. “E isso permitiu-nos criar uma história que parecia realmente um filme mais longo.”

Kalogridis – argumentista de Shutter Island, Exterminador: Genisys e do ainda por estrear Alita: Battle Angel e produtora de Ataque ao Poder e Avatar, o fenómeno e bilheteiras de James Cameron – diz que a sua paixão pela história de Morgan, que ganhou o prémio Philip K. Dick para Melhor Romance de 2003 (e que o autor desenvolveu em outros dois livros subsequentes) e a sua ligação a aspetos elementares da experiência humana foram o que mais a impeliu na sua adaptação inovadora de Altered Carbon. A temporada um desta série épica é fiel ao livro, mas destaca-se pelos próprios méritos.

“O livro do Morgan é um texto de ficção científica tão pioneiro”, diz Kalogridis, referindo-se à obra que serviu como modelo para a série. “É uma história de ficção científica bem séria, que fala da tecnologia que nos permite prolongar as nossas vidas indefinidamente, mas que ainda assim explora emoções humanas perfeitamente identificáveis. Tem tudo o que se espera de uma grande obra de ficção científica, mas, no fundo, é uma história bem humana. E era também ao estilo noir, que eu adoro.”

“O livro também redefine de uma forma muito bonita a relação dos seres humanos com a nossa forma física”, diz Kalogridis. “No mundo de Altered Carbon, dá para existir em qualquer tipo de corpo. É uma ideia fascinante, esta de que os humanos terão evoluído ao longo de milhões de anos para poderem existir em simultâneo com os seus corpos físicos.”

“O mundo que Morgan criou é tão grande e tão impressionante, que precisaríamos de 10 temporadas para englobar tudo!” diz Kalogridis. “O ponto a que ele imaginou todos os mundos colonizados, a arquitetura alienígena, as ruínas alienígenas, a tecnologia avançada e mitologia, é tudo tão rico e texturizado… Dou-me por satisfeita por termos conseguido arranhar a superfície, mas há ainda muito que ainda mal começámos a explorar.”

Kinnaman diz que a adaptação que Kalogridis fez da história lhe deu muito que mastigar, muito por que lutar e com que trabalhar, enquanto se preparava para representar o papel de Takeshi Kovacs.

“Trabalhar com a Laeta tem sido uma experiência emocionante”, diz Kinnaman. “Li o livro e imaginei o Kovacs à minha maneira, mas a Laeta viu-o de forma diferente. E, quando compreendi a visão dela e conseguimos um compromisso, criámos algo que nem um, nem o outro tinha imaginado. Unimos forças e criámos algo novo.”

“A Laeta tem o mundo inteiro da série na cabeça”, acrescenta Kinnaman. “Fala-se-lhe de um detalhe e ela diz-nos tudo o que há para saber acerca desse detalhe. Podemos perguntar-lhe o que quisermos. Ela imergiu-se completamente neste mundo e a paixão que sente por ele contagiou toda a gente em todos os departamentos. Foi mesmo isso que nos transmitiu, de tal forma se tinha embrenhado nele.”

Essa paixão nota-se em cada pormenor de todas as linhas temporais e histórias da série. Um nível astuto de pensamento futuro, que pondera de que forma poderemos chegar de hoje para o amanhã – do mundo em que vivem os espetadores àquele a que Altered Carbon os transporta – compôs parte dos alicerces criativos da série, segundo Kalogridis.

“Tentámos de forma consciente fazer este mundo parecer o mais realista e de pés tão assentes na terra quanto possível”, explica Kalogridis. “Um elemento consistente do mundo de Altered Carbon é a continuação das divisões sociais, que apenas se agravaram. Este futuro pode ser ótimo para quem vive bem, já que adquirem e podem fazer cada vez mais, mas as pessoas que vivem abaixo do seu nível – aqueles cuja existência tem cada vez menos – vão ter uma experiência de pesadelo.”

“Isso é tão mais verdadeiro num contexto em que as pessoas que mandam não podem ser depostas nem podem morrer”, acrescenta. “Um grupo concentrado de pessoas açambarca todos os recursos, incluindo o recurso mais precioso de todos – a própria vida – e não largam mão dele. Tudo o resto, e todos os demais, são matéria-prima a ser explorada. E, como sabemos que é esse o pior aspeto da natureza humana, essa faceta da história parece-nos assustadoramente realista.”

Como qualquer boa obra de ficção científica, Altered Carbon mapeia tópicos morais e sociológicos para os espetadores ponderarem. É algo que este género consegue fazer de uma forma que mexe com as nossas esperanças, medos, sonhos e expetativas daquilo que ainda está por vir.

Em Altered Carbon, o dispositivo é a chave para a forma como a civilização humana se desenvolveu”, explica o produtor executivo James Middleton. “O dispositivo é uma peça tecnológica implantada na base do crânio, que permite que a mente seja armazenada, para que, caso o corpo morra, a mente possa continuar a existir noutro corpo. Todo o indivíduo recebe o seu dispositivo ao primeiro ano de idade, um facto que mudou tudo, ao ponto de os corpos serem agora vistos como algo descartável.

“A divisão na série entre os ricos e os pobres ecoa as disparidades que vemos hoje”, diz Higareda. “No mundo de Altered Carbon, um pequeno grupo de indivíduos tem muito dinheiro e os restantes, os rasteiros, vivem abaixo deles e acham que é injusto que apenas os ricos possam ter clones e viver para sempre. Os mais pobres também podem arranjar outros corpos, mas apenas em casos pontuais, como serem atropelados ou um qualquer sucedido injusto. Aí, têm direito a um corpo novo, mas não o podem escolher.”

“A ideia central desta história futurista é, na sua essência, a de que os seres humanos se tornaram deuses – mais, deuses com falhas profundas”, diz Kalogridis. “As suas preocupações são egoístas: o que terei? O que poderei conservar? O que será meu no futuro, para sempre?”

Purefoy acredita que estes temas são universais.

“Acho que qualquer história em que sejam discutidos temas como estes – amor, perda, esperança, tragédia, morte, luto, pesar, qualquer uma destas coisas que todos nós sentimos ou acabaremos por sentir – vai encontrar eco junto dos espetadores”, diz Purefoy. “Não importa se é passada 500 anos antes, ou 1000 anos antes, ou 500 anos no futuro. Desde que estes temas sejam cuidadosamente explorados pelos atores, produtores, realizadores e argumentistas, e sejam histórias elementares, fascinantes e interessantes, terão sempre sucesso.”

“A mitologia de Altered Carbon é complexa, mas assenta muito naquilo que sabemos”, diz Kalogridis. “Esquecemos o ponto a que a tecnologia transformou as coisas nos tempos em que vivemos. Coisas que há 15 anos atrás nunca teríamos considerado normativas, são agora coisas que achamos serem dados adquiridos.”

“Em boa verdade, isso até torna mais difícil a tarefa de criarmos um mundo ficcional em que uma nova tecnologia virou tudo do avesso, da mesma forma que a Internet o fez”, continua Kalogridis. “Esse é provavelmente o maior desafio da série – construirmos um mundo com base numa ideia que, apesar de simples na sua essência, traz consigo muitos elementos bem diversos na forma que podem ser implementados, e a ética por detrás deles.”

Middleton ressalva que a dualidade embriagante e tingida de noir da história faz parte do seu encanto – incluindo o elo que Kovacs partilha com as mulheres do seu passado e presente.

Altered Carbon é, no fundo, um mistério policial, mas é também uma história de amor”, diz Middleton. “O que vemos em Takeshi Kovacs é uma personagem que leva consigo o amor da sua vida, mesmo centenas de anos no futuro, até ao presente em que decorre a história. Esse eco do amor é algo com que muitos espetadores se podem identificar, mesmo numa história de ficção científica.”

Todos estes elementos são sintetizados numa personagem principal que é, simultaneamente, retro e ultramoderna.

“O cerne de Altered Carbon é a personagem de Takeshi Kovacs e o quão quebrado ele está”, diz Kalogridis. “É um homem que quer acreditar que é um sociopata, mas não o é de todo. Quer acreditar que não quer saber de nada, mas isso não podia estar mais longe da verdade. Kovacs é alguém que foi arrancado da sua vida e atirado a um mundo do qual não queria fazer parte. Pode estar vivo, mas não se sente vivo.”

“Kovacs é um veterano de uma rebelião falhada que ocorreu há séculos atrás, e um homem em guerra consigo mesmo”, continua Kalogridis. “Em jovem, era uma espécie de assassino de operações secretas. E, quando certos elementos da sociedade se insurgiram contra os ricos e poderosos que prolongavam as suas vidas indefinidamente – consolidando e fazendo crescer o seu poder – houve uma Revolta, durante a qual ele foi treinado por uma mulher pela qual se apaixonou.”

“Quando a Revolta falhou, ele tornou-se um mercenário, e foi-lhe tirado tudo. Kovacs sente-se permanentemente em tensão entre a pessoa que era e a pessoa em que se tornou. Agora que tem um novo corpo num momento diferente no tempo, o revolucionário que queria mudar tudo ainda existe e impõe-se.”

Kinnaman vê Kovacs como um homem cuja vontade de lutar contra a injustiça na sociedade atravessa literalmente milénios, planetas e invólucros corporais.

“Acho que o Kovacs tem um sentido moral muito forte”, diz Kinnaman. “Está longe de ser perfeito, mas sabe distinguir o bem do mal. Quando recebe um novo corpo, é como uma segunda oportunidade para ele. Por isso, quando escolhe aceitar o caso e embarcar nesta viagem, encontra uma renovada vontade de viver graças à realidade que tem diante si e as pessoas que conhece neste novo mundo.”

EMBRENHANDO-NOS EM ALTERED CARBON

Os desafios de criar arte visionária são inúmeros. Mas um dos maiores obstáculos que Altered Carbon enfrentou foi o mosaico de uma história ficcional fascinantemente intrincada, a profunda história por detrás dos seus muitos elementos, uma terminologia única, e regras universais que estabelecem este mundo extraordinário.

No mundo de Altered Carbon, Takeshi Kovacs tem duas identidades: aquela com que nasceu no Mundo de Harlan, 250 anos antes do início da série, e a do seu novo corpo no primeiro episódio. O governo totalitário conhecido como o Protetorado há muito que detém uma influência interplanetária, e o Mundo de Harlan foi povoado com operários japoneses e eslavos da Terra (daí a herança multicultural de Kovacs). O “Kovacs de nascença” e Reileen, a sua irmã mais nova, sobreviveram a um pai abusivo. Quando era jovem, Takeshi deu mostras de coragem e aptidões de luta invulgares, e foi recrutado para uma força especial, mas perde contacto com a irmã, que é levada a um orfanato, algo que terá um efeito dominó na personalidade dela.

Anos mais tarde, o Kovacs adulto (representado por Will Yun Lee, coprotagonista de “Hawai Força Especial” San Andreas, e Wolverine) é recrutado por um grupo de combatentes da liberdade chamado os Emissários, que se opõe ao reinado totalitário dos Matus e o Protetorado, bem como à própria noção de imortalidade. Enquanto o fértil e verdejante Mundo de Harlan era tomado pelo Protetorado, Kovacs treinou com a líder dos Emissários, uma corajosa rebelde e inventora chamada Quellcrist Falconer (Renee Elise Goldsberry, coprotagonista de A Vida Imortal de Henrietta Lacks e The Good Wife, e vencedora de um prémio Tony pelo papel de Angelica Schuyler em Hamilton, o fenómeno da Broadway) pela qual Kovacs se apaixonou.

Quando os grupos de elites abastadas, conhecidos como “Matus”, instituíram o seu plano baseado em dispositivos e corpos para viverem para sempre, os Emissários deram início a uma Revolta. “Essa guerra destinava-se a impedir os Matus de existirem”, diz Kalogridis. “Quellcrist achava que a vida eterna seria sempre destinada aos piores e mais corruptos entre nós. Caso continuassem a acumular bens materiais indefinidamente, o seu poder não pararia de aumentar. O fosso entre ricos e pobres tornar-se-ia um autêntic abismo.”

Quando o “Kovacs de nascença” é morto, o dispositivo dele é congelado, uma espécie de prisão virtual. Transferido para um novo corpo mais de 250 anos mais tarde, Kovacs dá consigo em Bay City (a velha São Francisco) no corpo do antigo amor da detetive Ortega, um detetive da polícia caído em desgraça, cuja CHD foi congelada enquanto aguarda julgamento. Devido às suas crenças éticas e religiosas, Ortega optou por nunca ser transferida para outro corpo. Ela concorda em ajudar Kovacs a encontrar o assassino de Bancroft, mas fá-lo pelos seus próprios motivos, que cedo serão revelados.

Torna-se rapidamente evidente que, mesmo após tantos anos congelado, Kovacs ainda tem Quellcrist bem cunhada no seu subconsciente. “O Kovacs tem manifestações das suas memórias dela”, diz Kalogridis. “Ele ouve a voz dela e vê ecos dela, e ela diz-lhe de forma críptica que ele tem uma tarefa a cumprir nesta nova era, em que os Emissários são recordados como terroristas.”

Goldsberry explica: “A Quell continua bem viva na mente do Kovacs. Quando ele é transferido para um novo corpo, continua a aceder a ela nos seus momentos mais extremos. Ela torna-se a intuição dele, a personificação do seu inconsciente, a pessoa que basicamente lhe salva a vida, o anjo da guarda que vela por ele num mundo muito perigoso. Acabaremos por perceber qual a significância dela neste mundo, e para ele.”

Reileen também não permanece no passado de Kovacs, e quando reaparece na sua vida (representada por Dichen Lachman, coprotagonista de The Last Ship, Os Agentes S.H.I.E.L.D., No Limite e The 100), Kovacs vê-se confrontado com uma vida que acreditava ter enterrado noutro mundo.

Enquanto isso, o poderoso e influente Matus que aprovou a transferência do dispostivo de Kovacs para um novo corpo é o enigmático Laurens Bancroft, que sabe que, por ser o último Emissário, Kovacs tem aptidões e habilidades peculiares. Bancroft, cuja fortuna lhe permite criar clones infinitos do seu corpo,  oferece a Kovacs um perdão pelas suas atividades enquanto Emissário, a troco de apurar quem o assassinou e fez com que parecesse um suicídio. Isto porque, embora a consciência de Bancroft seja gravada e armazenada a cada 48 horas, o seu assassinato ocorreu durante um espaço em branco na sua memória antes de ter sido armazenado. Agora num novo clone, Bancroft quer respostas.

“Bancroft tem 375 anos. No momento em que foi assassinado, estava a ter a sua mente e toda a sua memória e personalidade transferidas para um satélite. Por causa disso, faltam-lhe as últimas 48 horas da sua vida”, explica Purefoy. “Bancroft nada mais quer que expandir o seu império. É a isso que dedica o seu tempo. E, se não estiver a expandi-lo na Terra, está a fazê-lo em novos mundos.”

“Acho que um dos temas da série é o efeito corruptor da imortalidade”, acrescenta Purefoy. “Se alguém nos concede a oportunidade de sermos imortais, até que ponto não terá isso um efeito progressivamente corruptor na nossa alma? Acho que a resposta é evidente para quem quer que pondere um pouco sobre essa questão: sim, o mais certo é ter.”

“Um dispositivo contém aquilo que nós somos: a nossa personalidade, mente e memórias”, diz Kalogridis. “A mente é contida na forma de impulsos elétricos nesse dispositivo cortical. Dessa forma, existe uma cópia em satélite do Bancroft, que ele pode transferir para o seu novo clone, mas sem os detalhes cruciais de quem o assassinou, e porquê.”

“Uma das coisas que mais me fascinou no Laurens Bancroft foi o quão familiar ele me parecia”, diz Kalogridis. “Ele é como nós, embora pertença nem propriamente à elite de 1 por cento da sociedade, é mais .00001 por cento. Ele vem do nosso tempo e cultura e desde finais do séc. XXI que anda a clonar-se no mesmo corpo. Embora tenha uns 350 anos, o corpo dele tem entre 45 a 55 anos, porque ele acha que é por volta dessa idade que se alcança o verdadeiro poder.” A mulher de Bancroft, Miriam (Kristin Lehman), também foi transferida para clones cada vez mais belos e fortes do seu corpo original. Há 118 anos que este casal está junto.

Entre outras personagens que impactarão a investigação de Kovacs e Ortega encontram-se também Vernon Elliot (Ato Essandoh: Chicago Med, Vinyl, Jason Bourne), um antigo médico das forças militares do Protetorado, atormentado pelo encarceramento da sua mulher e pelas visões da sua filha, Lizzie, uma alma perdida e toxicodependente que, sem que Elliott o saiba, se tornou prostituta em Bay City e foi assassinada.

“A mulher de Elliott foi apanhada a imiscuir-se ilegalmente nas vidas dos ricos e famosos”, diz Kalogridis. “Foi presa por isso, e a sua consciência fica congelada durante 30 anos, ao passo que o seu corpo é vendido a um negociante corporativo”. O que acaba por ter consequências trágicas para a filha de ambos, da qual Elliott quer a todo o custo reaproximar-se no mundo virtual.

Outra personagem crucial de Altered Carbon é a nova encarnação de um icónico autor americano. Edgar A.I. Poe, apelidado simplesmente de Poe (Chris Conner: coprotagonista de American Crime Story: O Caso de O.J. Simpson), é um sistema de inteligência artificial altamente desenvolvido e que opera no belo e retro Hotel Raven, a residência de Kovacs na suja Bay City. Um sistema operativo consciente, Poe manifesta-se na forma de um avatar digital do famoso escritor, ajudando Kovacs a pôr os pensamentos em ordem e partilhando a sua perspetiva à medida que o caso de Bancroft vai levando Kovacs por vias moralmente dúbias. (Embora Poe, um espírito jovial fascinado pelos adornos do passado dos humanos, passe também alguns dos seus tempos livres a jogar póquer virtual com uma outra inteligência artificial.)

Uma das coisas mais fascinantes do universo de Altered Carbon é a existência das inteligências artificiais, e como elas, apesar de criadas pelos seres humanos, se tornaram independentes”, diz Middleton. “Poe é uma IA independente que gere um hotel. Adora tudo o que tenha que ver com os humanos, embora não tenha hóspedes no seu hotel há décadas. Kovacs é o seu primeiro hóspede desde há muito tempo, e Poe torna-se como que no seu parceiro. Há nele uma nobreza que qualquer humano invejaria, e ela serve como grande ajuda para Kovacs perceber as coisas.”

“No universo de Altered Carbon, as IA são apenas outra espécie, e sabem-no”, explica Kalogridis. “Algumas IA desdenham os humanos. Outras querem ser como os humanos. O Poe, por exemplo, quer mesmo compreender o que os seres humanos são, razão pela qual assumiu a sua “persona”. Claro que parte do motivo pelo qual Poe é a IA ideal desta história é o facto de Altered Carbon ser uma história noir, e o verdadeiro Poe inventou o conto policial moderno no séc. XIX. Assentava que nem uma luva.”

Os temas de Altered Carbon obrigam os espetadores a pensar, não só no futuro, mas também no presente, de uma forma que não é de fácil interpretação.

“O tema habitual da ficção científica – cuidado com aquilo que se deseja – faz certamente parte desta obra, bem como a capacidade humana de conceber tecnologia que quase sempre é superior à nossa capacidade de a usarmos de forma sensata”, diz Kalogridis. “Mas acho que também tentamos explorar a noção da assimetria de recursos. Quando demasiado vai para um grupo pequeno e os restantes não têm que chegue, os perigos são terríveis. E qualquer história distópica como esta tocará na grande pergunta da ficção científica, que é: o que significa ser humano? Quando se olha para um mundo em que a humanidade está degradada e rebaixada, o que diz isso acerca de nós?”

O panorama e temática noir permitem também uma reflexão acerca da redenção, e de como a busca de Kovacs leva, por fim, não só à simples resolução de um homicídio.

“O género noir nunca é sobre a redenção para nós mesmos – os heróis noir normalmente sabem isso, lá bem no fundo, e nesse aspeto o Kovacs assemelha-se a um protagonista clássico, sem deixar de ser único”, diz Kalogridis. “Os heróis noir sabem que provavelmente não sobreviverão, que aquilo que fazem é pelos outros. Embora possam parecer niilistas, na verdade não o são. O Kovacs está a tentar redimir-se das escolhas que fez no passado, que tiveram consequências que ele não tencionava.”

UMA EQUIPA INTEMPORAL

Dar vida a Altered Carbon necessitou de um elenco que conseguisse ver o passado e futuro das suas personagens, e imbuí-las com o conhecimento de que cada uma delas é, na verdade, várias personagens. Para Kalogridis, o eixo da roda era Joel Kinnaman, que transmitiu uma dureza nervuda e inteligente a filmes como Esquadrão Suicida, Robocop e Millennium 1: Os Homens Que Odeiam as Mulheres, bem como a série de televisão The Killing. No papel de Kovacs, Kinnaman remonta aos mais memoráveis detetives do cinema pós-guerra, procurando a verdade por uma questão de dever e seguindo um código moral próprio.

“O Joel é fantástico”, diz Kalogridis. “Ele entra na personagem de uma forma com a qual nós só poderíamos ter sonhado. Interiorizou completamente o Kovacs, quem a personagem é e as questões com que ela se debate. O Joel faz com que pareça tão fácil, que quando o vemos representar não imaginamos mais ninguém no papel. O que é engraçado, tendo em conta que, na primeira temporada, vemos o Kovacs em dois outros corpos, e ele não é a pessoa como a qual nasceu. Mas o desempenho do Joel é incrível. As pessoas vão ficar impressionadas com a intensidade dele neste papel.”

“Num romance, como é óbvio, dá para vivermos a vida interior de uma personagem sem lhe vermos o rosto”, diz Kalogridis. “Mas, quando vemos um ator, identificamo-nos com ele. Vivemos a história através do ator. E mudar o rosto do ator numa história de ficção científica como esta é algo disruptivo. É como se estivéssemos a ter uma conversa metatextual com os espetadores, que esperamos que continuem a acompanhar a história após verem as personagens em corpos diferentes. Queremos que eles concluam, no fundo: Ok, aquele é o Kovacs, e aquele é o Kovacs, e aquele também é o Kovacs”. E a fisicalidade do Joel corresponde à personagem e é mais que convincente.”

“Quando luta, o Kovacs é uma máquina de matar”, diz ela. “É assustador em combate! O Kovacs do Joel é carismático, mas, quando se zanga, é intenso.”

Larnell Stovall, coordenador de duplos, reconheceu a importância do estilo de luta único de Kovacs, bem como a dedicação de Kinnaman em fazer com que tudo parecesse real.

“Adoro a forma como o Kovacs se adapta a este novo mundo e ao novo corpo a que foi transferido, a forma como ele está sempre a olhar por cima do ombro, a lembrar-se das lições que aprendeu centenas de anos atrás e a recordar o seu treino”, diz Stovall. “Por muito que o futuro possa influenciar quem somos, ele está em sintonia com a fisicalidade do seu passado. E o Joel adora fazer as suas próprias cenas, na medida do possível, a bem da segurança dele, claro. Dedicou-se completamente a cada sequência de ação. Entra com tudo. É profissional, decora a coreografia e dá sempre tudo.”

No papel da tenente detetive Kristin Ortega, Martha Higareda, uma superestrela do cinema e de televisão no seu México natal, traz uma presença cativante e bela, reforçando a humanidade da nova existência de Kovacs e dando-lhe coragem e consciência.

“A intensidade da Martha não fica atrás da do Joel”, diz Kalogridis. “São ambos atores intensos e dedicados, e combinam muito bem a sua energia inacreditável. A Ortega que ela representa é uma mulher que faz parte de Bay City, mas não deixa de fazer parte da sua cultura.”

“É incrivelmente enérgica e dedicada”, acrescenta Kalogridis. “E compreende a Ortega de uma forma que talvez nenhum de nós conseguiria, porque a Ortega vem de uma família com crenças religiosas arraigadas e de um meio de muitos conflitos, e a Martha traz ao papel a sua experiência de vida, bem como o que sabe de uma cultura diferente. Ela é fenomenal.”

“Uma outra peça do puzzle, algo que abordamos muitas vezes na história, é: o que é o amor? E este é um elemento importante do arco narrativo da Ortega. Até que ponto é algo químico ou físico? Ou até que ponto toca a alma? A ligação entre a Ortega e o Kovacs aborda isso mesmo.”

Para Will Yun Lee, a composição psicológica daquilo que a equipa de produção de Altered Carbon chamou de “Kovacs de Nascença” ou “Kovacs Original” tinha de se repercutir através das histórias e linhas temporais. A solução que ocorreu a Lee veio do coração.

“Tinha de encontrar as tramas que os espetadores podiam seguir ao longo da série, e, para mim, eles eram as relações mais cruciais para o Kovacs – com a Quellcrist e com a sua irmã Reileen”, diz Lee. “Senti que isso daria ao Kovacs do futuro algo que poderíamos ver desenvolver-se ao longo do arco narrativo da temporada inteira. Senti que essas duas relações eram baseadas no mais puro amor, mesmo enquanto o Kovacs do futuro lutava para encontrar o seu lugar. Eu e a Laeta falámos de como a Quell foi a primeira pessoa que voltou pelo Kovacs quando ele foicapturado pelo Protetorado. Foi esse o ponto de viragem para um homem que crescera sozinho. Os Emissários foram a primeira família que o acolheu, graças à Quell.”

A complexidade, humanidade e intensidade desta personagem feminina também ajudam Altered Carbon a impor-se no atual “zeitgeist” da cultura popular.

“Adoro que as personagens femininas desta série sejam tão poderosas e perigosas à sua maneira”, diz Goldsberry. “Adoro que a Quell lute com a Reileen. E que ela pareça toda-poderosa e invulnerável, mas não deixa de se apaixonar, e depois o que representa o seu maior desafio é outra mulher. Há algo de frágil na Quell, mas ela não deixa de ser 100% feminina e 100% heroína forte. É inteligente, calculista e perigosa, e a série evidencia tudo isso sem paninhos quentes.”

“Acho que algumas pessoas confundem a ficção científica com um género para homens – que é só engenhocas e lutas ou uma qualquer versão de guerras interestelares, e que não há espaço para dramas emocionais. Eu discordo completamente”, continua Goldsberry. “Aquilo que sempre adorei na ficção científica foi o facto de que, a meio de tanta coisa fixe e durona, pode também haver desenvolvimento das personagens. As personagens embarcam em viagens emocionais entre si, e relações desenvolvem-se. É um mundo muito negro, o que estamos a imaginar, e o amor entre o Kovacs e a Quell, e mesmo entre a Ortega e o Kovacs, tornam-no mais interessante e tornam a história universal.”

“Sou um grande fã de ficção científica, mas mesmo as pessoas que ainda não sabem que adoram ficção científica vão gostar desta série, porque ela não se cinge a um único género”, acrescenta Goldsberry. “Todos gostamos de histórias bem escritas que nos digam algo acerca do mundo em que hoje vivemos, e Altered Carbon tem tudo isso. E é tão internacional. Mas, acima de tudo, é tão Netflix – não se trata apenas de um público ou grupo de pessoas, ou de um país ou idioma. É maior que isso. É esse o mundo em que hoje vivemos, e é isso o que a Laeta está a incorporar.”

Higareda concorda com esta perspetiva acerca das personagens femininas de Altered Carbon. “A Kristin Ortega é uma mulher forte que está sempre à beira do abismo, porque há uma situação muito complexa a decorrer com ela ao longo da série”, diz Higareda. “Ela é forte, mas, ao mesmo tempo, está sempre prestes a quebrar, devido à sua complicada situação. É muito inteligente, e um dos seus mais fortes valores é a noção de justiça. É isso o que a impele.”

Dichen Lachman comenta que Reileen, a irmã de Takeshi Kovacs, irá deixar os espetadores sem saber por quem devem torcer, e que isso por si só foi crucial para a sua compreensão do papel.

“A Reileen é incrivelmente complicada”, diz Lachman. “Ela acredita mesmo naquilo por que luta. Tem um passado conturbado e um lado negro bem vincado, mas adora o irmão Takeshi acima de tudo. É sempre um desafio representar alguém que faz coisas tão impensáveis, mas também conseguir infundir-lhe humanidade.”

“A Reileen luta pelo amor do irmão e pelo seu perdão, mas também luta para poder viver para sempre, e não acho que ela se imagine a fazê-lo sem ele”, acrescenta Lachman. “Ela está a erigir um império para que, quando ela e Takeshi forem reunidos e ele a perdoar, poderem viver juntos para sempre. No Mundo de Harlan, ele era tudo para ela. Mas, na sua nova vida na Terra do séc. XXIV, ela meteu-se em coisas horríveis, cometeu grandes atrocidades e foca-se em dinheiro e poder. É bom ver todo o tipo de mulheres representadas nesta série, não só as suas vidas íntimas, forças e fraquezas, mas também em termos de diversidade e antecedentes.”

Kalogridis conhece bem o modelo clássico para histórias e filmes de ficção científica, e como explorar novas dimensões a partir dele.

“O tema habitual da ficção científica de – cuidado com aquilo que se deseja – é parte integrante do livro e do filme, bem como a capacidade humana de conceber tecnologia que quase sempre é superior à nossa capacidade de a usarmos com sensatez”, diz Kalogridis. “Mas também estamos a explorar a noção da assimetria de recursos – quando demasiado vai para um grupo pequeno e os restantes não têm que chegue, que impacto tem isso numa sociedade em expansão? E qualquer história distópica como esta tocará naquela que acho que é a grande pergunta da ficção científica: o que significa ser humano? Quando se olha para um mundo em que a humanidade está degradada e vergada,o que significa, no fundo, ser-se humano?”

Para guiar os episódios ao longo da sua primeira hipnótica temporada, Kalogridis trouxe uma equipa de cineastas formidáveis a bordo.

“Os nossos realizadores são todos eles espantosos”, diz Kalogridis. “Miguel Sapochnik (Guerra dos Tronos, Punho de Ferro, House) é um visionário. É brilhante e foi o responsável pela toada pela qual a série se pauta. Ter uma visão forte foi crucial, já que estamos a criar um futuro mitológico em Altered Carbon. Nick Hurran (Sherlock, Doctor Who), o nosso diretor de produção, é tão espirituoso e perspicaz, e apoiou-os muito ao longo de todo o processo.”

“Cada um dos nossos realizadores – incluindo a Uta Briesewitz, o Peter Hoar, o Andy Goddard, o Alex Graves – é diferente, e cada um traz a sua versão daquilo que Altered Carbon é”, diz Kalogridis. “Os cineastas visionários que criaram este mundo deram-lhe vida.”

Segundo Essandoh: “Ter vários realizadores numa temporada ajuda a dar forma às personagens, porque cada um tem uma forma diferente de ver as coisas, o que nos dá mais que explorar. E cada realizador tem a sua própria personalidade, como é óbvio, e tem formas diferentes de abordar o mundo da série. O Richard Morgan estabeleceu um universo incrível, e o livro é negro e violento, mas com muita coisa excêntrica e porreira. E o que a Laeta fez foi pegar nisso e criar algo de épico.”

 

DESIGN VISUAL IMPRESSIONANTE, AÇÃO INTENSA, TECNOLOGIA DESENFREADA:
UMA SANTÍSSIMA TRINDADE FUTURISTA


A ficção científica revolucionária sempre tratou da interligação entre uma estética vanguardista e uma narrativa visionária. Desde os filmes de George Méliès (Viagem à Lua, de 1902, The Impossible Voyage, de 1904) a Vida Futura (1936), de William Cameron Menzies, A Máquina do Tempo (1960), de George Pal, 2001: Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick, o influente Blade Runner (1982), de Ridley Scott e a sua sequela de 2017, Blade Runner 2049, as parábolas da ficção científica sempre nos abriram os olhos e as mentes a noções muitas vezes surpreendentes daquilo que o futuro nos reserva.

Agora, Altered Carbon dá o passo seguinte. Quando Kalogridis transpôs a multifacetada história distópica do séc. XXIV de Richard Morgan para a nova série da Netflix, a tapeçaria épica do projeto exigia um trabalho não menos pioneiro nos bastidores.

“O livro tinha muitas camadas e apresentava muitos desafios, razão pela qual levámos anos a fazer isto”, diz Kalogridis. “Conseguimos explorar temáticas enquanto ideias tecnológicas e ideias intelectuais. E pudemos explorá-las com efeitos especiais fantásticos: efeitos de câmara, próteses, tiroteios, efeitos visuais alcançados através de ecrãs verdes e ecrãs azuis, e tudo isso de uma forma unificada que faz com que tudo pareça visualmente orgânico e impressionante a todos os níveis.”

Everett Burrell, supervisor de efeitos especiais, diz que criar o mundo de Altered Carbon – com todos os seus designs elegantes e recombinados, a atenção de um escritor ao detalhe e sequências de ação emocionantes e agressivas – foi tão aliciante, que mal pôde esperar para começar.

“Encontrei-me com a Laeta e o Steve Blackman, e eles explicaram-me o mundo e partilharam comigo os seus pensamentos”, explica Burrell. “Assim que vi os esboços iniciais, fiquei logo preso ao projeto.”

Os elementos do design da série estão recheados com noções provocantes ao nível micro e macro, segundo Burrell.

“Na São Francisco do futuro – aqui conhecida como Bay City – temos elementos icónicos como a Golden Gate Bridge, mas acrescentámos uns elementos únicos ao ambiente. À medida que veem a série, as pessoas perguntar-se-ão por que razão haverá um dique gigante em redor da baía, e que lá está porque as alterações climáticas fizeram subir o nível da água em redor de São Francisco.”

“Mas, uma vez na rua, a maior parte da cidade foi criada com efeitos reais”, acrescenta Burrell. “Construímos um cenário gigantesco da cidade, que tem um visual de câmara fantástico. Bay City tem níveis diferentes: o fundo é para os rasteiros, as classes mais pobres. A classe média reside numa área chamada o Crepúsculo, uma área intermédia na cidade, acima da qual se encontra o Aerium, onde vivem os Matus, o .00001 por cento da população da Terra. As classes mais baixas vivem num sítio sujo e granuloso, com fumo permanente do qual não conseguem escapar. O Crepúsculo tem condomínios caros, e dá para ver um pouco do céu. Já no Aerium, há torres de marfim, arranha-céus, dinheiro, privilégio, decadência – uma vida nas nuvens.”

Carey Meyer, designer de produção de Altered Carbon, reconhece os fantasmas dos filmes de ficção científica do passado que assombram a imagem dos rasteiros.

“Há uma série de referências no livro do Morgan, e isso, juntamente com a pesquisa extensa que fizemos de diferentes filmes de ficção científica – sendo o Blade Runnerde 1982 uma influência óbvia – foi o nosso ponto de partida”, diz Meyer. “O cenário que mais gostei de criar foi o da rua. Foi a primeira visão que tive para este projeto.”

“O mais importante eram as texturas e cores das ruas principais”, diz Meyer. “O nosso mundo vive muito numa textura de cimento, ferrugem e decadência. As ruas situam-se no nível de base de Bay City, por isso têm água e textura e ferrugem e cimento rachado – é o pior sítio para se viver em Bay City. Tentámos dar a essa rua o revestimento mais básico e texturizado que conseguimos.”

“Passámos muito tempo a pensar: De quanto fumo precisaremos aqui? Podemos evitar usar o ecrã azul ali?”, diz Burrell. “Manter o mundo dos desfavorecidos sem efeitos especiais gerados por computador foi uma decisão consciente entre a Laeta, o Carey Meyer, eu e todos os diretores de fotografia.”

Um aspeto de Altered Carbon que requer muita dinâmica visual são as sequências de ação – incluindo a cena memorável de uma batalha em gravidade zero.”

“Nessa sequência, temos um poço sem fundo onde o Kovacs está a lutar, e em que qualquer movimento que caia fora da zona de gravidade zero vai fazê-lo precipitar-se para a sua morte”, diz Meyer. “Assim, à medida que entram e saem da zona de gravidade zero, colidem contra paredes, lutam nas laterais e saltam de volta para a arena para agarrarem em armas. É algo impressionante de se ver.”

Larnell Stovall, o coordenador de duplos da série, não teve mãos a medir nessa cena.

“Cada episódio tem uma série de cenas de luta, mas a batalha da gravidade zero destaca-se das demais”, diz Stovall. “Como é que fazemos as pessoas flutuarem no ar em segurança, ensaiamos tudo como deve ser, e conseguimos fazer com que pareça credível, ao ponto em que os participantes acreditam que está mesmo a acontecer, para que seja intenso, brutal e seguro ao mesmo tempo? Foi um desafio muito especial e emocionante para todos nós.”

Os desafios de Stovall ao longo da temporada um de Altered Carbon incluíram encontrar o estilo de luta futurista indicado para todas as personagens, mas sobretudo para Kovacs e Ortega.

“Pegámos em cada personagem e montámos um híbrido de estilos diferentes para cada uma”, acrescenta Stovall. “O treino dos atores foi como um campo de treino militar. Preparámos treinos táticos para eles, com pistolas e metralhadoras. O Kovacs teve muito treino militar nos seus corpos anteriores e a Ortega é da polícia. Queríamos que cada movimento, cada arma e cada gesto seu ao porem alguém sob a sua mira refletisse isso. Queríamos que cada um tivesse o seu estilo individual ao lutar.”

“Tínhamos bem presente que, no passado, o Kovacs tinha treinado imenso com os Emissários, e imaginámos como isso se refletiria no futuro, com o avanço da tecnologia e dos estilos de luta”, acrescenta Stovall. “Por isso, demos-lhe um misto de combate militar: estilos russo e americano, um pouco de hapkido, um pouco de judo, taekwondo e luta de facas, e um pouco de kali. Examinei estilos indonésios, como o silat, e misturei tudo.”

Os atores entregaram-se com entusiasmo a este aspeto mais físico dos seus trabalhos, revela Stovall.

“O Joel treinava judo e jiu jitsu connosco e, quando passávamos à parte da coreografia, lá estava ele a atirar e a ser atirado por pessoas”, diz Stovall. “Ele acompanhou-nos em todo o processo, e isso nota-se nos episódios. Muitas vezes é mesmo ele, e não um duplo.”

“Já tinha feito bastante ação, mas para mim esta era uma oportunidade para ir mais longe ainda”, diz Kinnaman. “A sequência da gravidade zero foi alucinante. E é a parte emocionante desta série, os momentos em que podemos tomar parte nesta ficção científica em larga escala que, normalmente, só vemos em filmes de grande orçamento. Houve também uns truques cenográficos na batalha da gravidade zero, que já antes tinha feito, mas nunca nada a este nível!”

“Quanto à Martha, ela é boa com as mãos, por isso pusemos bastante boxe no estilo de luta da Kristin Ortega”, diz Stovall. “Muitos pontapés baixos e coisas que vão em linha com o que uma polícia faria, misturados com técnicas táticas e de arma. O estilo da Ortega é um híbrido de boxe de rua sujo com um estilo tático de polícia. O que eu queria mesmo era que o que lemos dela no livro transparecesse no seu estilo de luta. A Ortega é uma pessoa apaixonada, com uma série de problemas ocultos sob a sua personalidade, e achei que seria bom evidenciar isso nas sequências de luta. A Ortega é alguém que não desiste.”

Para Will Yun Lee, preparar-se para as exigências físicas de Altered Carbon significava prescindir de certas coisas na sua vida.

“Há muito que eu e a Laeta somos amigos. Certo dia recebi um SMS dela muito vago, que dizia só: Quanto tempo levarias a ficar em forma?”, recorda Lee. “Eu tinha acabado de ganhar mais de dez quilos para outra série, e vai daí, recebo o SMS dela. Estava nesse preciso momento a ir ao Costco com a minha mulher, para comprar uma senhora tarte de maçã na qual tínhamos andado a pensar. Quando acabei a troca de mensagens com a Laeta, disse à minha mulher: Não sei bem o que a Laeta quer, mas já não vai dar para comprar essa tarte de maçã!”

“Depois disso, foram muitos brócolos e coisas odeio que comer em circunstâncias normais, muito exercício cardiovascular, treino de pesos,e arriar no saco no ginásio”, diz Lee.

Outro aspeto da série que faz com que os espetadores se embrenhem no seu mundo é a embriagante, e por vezes assombrosa tecnologia que ajudou a criar o sistema de castas da sociedade do séc. XXIV, onde a morte é uma mera inconveniência e a ética, como tudo o mais, um produto. Um aspeto que os espetadores quererão manter debaixo de olho é o ONI.

O que é um ONI? Nas palavras de Burrell, no universo de Altered Carbon, um ONI “é um implante neural ocular, que funciona como uma interface com o utilizador. É como uma lente de contacto, uma espécie de iPad avançado no olho, que se controla com o cérebro e que deteta os nossos pensamentos e padrões oculares”. Burrell diz que, por muito bizarra que a tecnologia possa parecer, “é bem capaz de estar aí ao virar da esquina no nosso mundo.”

Nevin Swain, aderecista da série, acrescenta: “O ONI é inserido com um dispositivo chamado SCLEROFIT, que se encosta ao olho e, com o premir de um botão, injeta uma lente de contacto no nosso olho. A outra parte do ONI é a forma como ele é controlado, e as personagens também têm dispositivos que lhe permitem fazê-lo.”

Burrell diz que o ONI foi adaptado para cada personagem. “Toda a gente na série teve direito a personalizar o seu ONI, da mesma forma que o fazemos com os nossos iPhones de hoje, com autocolantes ou o uso de Emojis no texto. O mesmo se passa com o ONI, e adaptámo-lo a cada uma das personagens. A Ortega, por exemplo, usa uma versão tático-militar do ONI que mais ninguém tem. Desenvolver esse conceito e identificar o ONI de cada personagem foi um desafio bem complicado, mas valeu a pena.”

Kalogridis revela o subtexto do nome ONI.

“’Oni’ é o termo japonês para diabo ou demónio”, explica. “Estávamos a atirar ideias ao ar e dissemos: Quer dizer, daqui a 250 anos, já ninguém vai encostar dispositivos ao ouvido! Por isso, concebemos aquilo que achámos que era a forma mais natural de as pessoas comunicarem umas com as outras.

“Quando demos início a este processo, examinámos aquilo que as pessoas diziam que estava para vir”, diz Kalogridis. “Da mesma forma que agora temos o Google Glass e o Oculus. Estávamos todos muito interessados na noção de uma interface tecnológica integrada, embora tenha a certeza de que o que quer que surja daqui a 250 anos seja muito para lá daquilo que imaginámos.

“Por exemplo, sempre adorei aquela cena do Blade Runner, em que o Harrison Ford está num bar e liga à Sean Young num ‘videofone’, que é, tipo, uma televisão de ecrã pequeno antiga. Em 1982, era o que se esperava ver no futuro, em 2019, e olhem bem para nós agora.”

Segundo Burrell: “Acho que o ONI é um elemento bem assustador da série. Nunca quereria tanta informação a invadir-me os sentidos a toda a hora!”

Meyer, cujo design de produção alia uma série de estéticas diferentes, mundos variados e diversos temas, diz que, em última análise, o aspeto visual de Altered Carbon foi unificado através de uma abordagem temática inovadora.

“Num mundo tão visual como este, o mais importante é criarmos um visual e atermo-nos a ele, sermos consistentes e elaborarmos uma estética futura”, diz Meyer. “Não dá para dizermos: “Olha, precisamos de um monitor holográfico nesta cena”, ou “este elemento de tecnologia avançada tem de estar aqui ou ali”. É tudo por camadas. E o essencial é sermos consistentes para criarmos um visual memorável e um futuro que pareça realista e orgânico.”

Via Netflix

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