Ratazanas, cadáveres e cenários decrépitos recheiam esta incrível longa-metragem, que abre com a data 6 de Abril numa projeção escura, seguida pelo título 1917, centrando imediatamente a ação e não demorando mais que dez minutos a revelar e direcionar a trama urgente, que catalisa as duas horas de rodagem deste triunfo cinematográfico.

Em plena Primeira Guerra Mundial, à frente de um descampado verde no norte de França, podemos avistar dois soldados britânicos a descansarem, os cabos William Schofield (George MacKay) e Tom Blake (Dean-Charles Chapman), quando são abordados por um oficial que os ordena a deslocarem-se à presença do general Erinmore (Colin Firth).

Em reunião com o general, este informa-os que o exército alemão encontra-se em retirada estratégica, e que o regimento designado para os atacarem na linha da frente está prestes a cair numa armadilha que resultará no massacre de 1600 soldados, entre eles o tenente Joseph Blake, irmão do cabo Tom Blake.

Torna-se assim a missão destas duas personagens atravessarem apressadamente o território abandonado, na expetativa de alcançarem a primeira vaga a tempo de impedirem a tragédia iminente, e é assim que arranca esta jornada horrifica, realizada, coproduzida e coescrita (juntamente com Krysty Wilson-Cairns) por Sam Mendes (American Beauty; Skyfall; Spectre), que dedica este filme ao seu avô Alfred H Mendes, veterano da Primeira Guerra que se alistou aos 17 anos e mais tarde contou as suas crónicas ao neto.

A cinematografia neste filme é infalível e totalmente fora de série, foi filmado no sentido de projetar a história em tempo real e designado para parecer um único plano de sequência (em semelhança com Birdman de Alejandro González Iñárritu). É um objetivo incrivelmente ambicioso mas cirurgicamente executado por Roger Deakins, que imerge a audiência na história, criando um suspense inquietante em cada cenário por onde estes desgraçados soldados passam e singularizando dessa forma esta longa-metragem na enorme lista de filmes do género. A tática de cinema guerrilha permite que o filme se concentre num enredo curto dentro de um universo enorme, e deixa assim muito espaço para os pequenos detalhes dos horrores da guerra.

A cinematografia digna de Óscar é acompanhada por uma edição soberba, uma atenção minuciosa ao detalhe, uma banda sonora épica e aterradora (por Thomas Newman), maquilhagem e guarda-roupa fantásticos, atuações excelentes e cenários estranhamente belos mesmo dentro dos pântanos da guerra. Ainda, este filme dá a sensação que poderia ser um jogo FPS, no sentido em que acompanhamos estas personagens cena a cena como se tivéssemos mesmo atrás delas e ficamos ansiosamente à espera do próximo cenário ou situação horrendos com que Tom e Will se irão deparar.

Em relação às personagens, não é o objetivo de Sam Mendes estabelecer um background extensivo acerca de quem são, pois a ambição deste filme é projetar uma experiência realista, que se revela extremamente forte, gráfica e visceral, carregada de um poderoso tropismo que transcende o ecrã.

O trabalho desenvolvido por esta equipa de elite concedeu a 1917 variados prémios e mais de uma centena de nomeações, que incluem os Globos de Ouro, onde recebeu os prémios de Melhor filme de Drama e Melhor Diretor, e os Óscares da Academia, onde recebeu os prémios de Melhores Efeitos Visuais, Melhor Mistura de Som e Melhor Fotografia.

1917 Destaca-se pela sua qualidade e junta-se à fila de êxitos como Saving Private Ryan, Black Hawk Down, Dunkirk, Apocalypse Now, Hacksaw Ridge, Platoon, entre outros. Excelente trabalho!

REVER GERAL
1917
Ivo Nunes
Sou licenciado em Turismo mas sempre adorei filmes, especialmente asiáticos. Quero contribuir para a sua divulgação, pois acredito que representam um papel crucial na evolução da indústria.