Ano novo, velhas memórias! Voltamos atrás no tempo para recordar um filme futurista que tem lugar no nosso presente, recordamos o primeiro álbum rock a ser tocado no Espaço e regressamos à escola com uma espécie de pioneiro dos jogos em mundo aberto.

 

 Filme: ‘Blade Runner – Perigo Iminente’ (1982)

Num futuro pleno de possibilidades de alta-tecnologia mas ferido pela decadência urbana e social, uma poderosa corporação desenvolve um modelo de andróide que é mais forte e ágil que o ser humano, equiparando-se em inteligência. São conhecidos como replicantes e utilizados como mão-de-obra forçada na colonização e exploração de outros planetas. Quando um grupo de andróides mais evoluídos provoca um sangrento motim numa colónia exterior, este incidente condena todos os replicantes a serem considerados ilegais na Terra, sob pena de morte. A partir de então, agentes de uma polícia de elite, conhecidos como “Blade Runner”, têm ordem de atirar para matar em replicantes encontrados no planeta. Após a informação de que quatro fugitivos replicantes estão de regresso à Terra em busca de respostas junto do seu criador, o relutante Rick Deckard (Harrison Ford) é encarregado de caçá-los.

Baseado no romance de ficção científica ‘Do Androids Dream of Electric Sheep?’ do visionário autor Philip K. Dick e escrito por Hampton Fancher e David Peoples, ‘Blade Runner – Perigo Iminente’ é um clássico incontornável da história do cinema e influenciou dezenas de outros filmes, séries e até videojogos, como é o caso do recente e excelente ‘Detroit: Become Human’. Realizado pelo britânico Ridley Scott e considerado por este como o mais pessoal e completo da sua notável carreira, o filme enfrentou muitas dificuldades, até mesmo após o seu lançamento. Começando pelas dificuldades de adaptação do livro original e do argumento escrito a dois tempos, passando pela dura e exigente rodagem, a censura das cenas mais violentas até à imposição de introdução de sequências em voz off por parte do estúdio. Ao todo foram editadas sete versões do filme, sendo a derradeira lançada em 2007 com o subtítulo ‘The Final Cut’, a única em que Scott teve finalmente completo controlo artístico para expor a sua visão e mestria na totalidade.

‘Blade Runner’ é considerado como o último grande filme de ficção científica analógico, sem a presença de quaisquer imagens geradas por computador. A perícia e a astúcia da direcção artística e de efeitos visuais estão em linha com o trabalho de excelência de todos os outros intervenientes. O elenco está recheado de grandes prestações como as de Ford, Rutger Hauer, Sean Young ou Edward James Olmos. A fotografia de Jordan Cronenweth é sublime, tendo sido mesmo considerada como a segunda melhor de sempre do século XX pela American Society of Cinematographers (perdendo apenas para Freddie Young, por ‘Lawrence da Arábia’) e a música do grego Vangelis, um dos mestres da música electrónica orquestral, é simplesmente perfeita, uma sonoridade ideal que transmite bem a visão e o ambiente neo noir do filme e que o acompanha como um elemento orgânico. De referir a existência de uma sequela – ‘Blade Runner 2049’, lançada em 2017 e realizada por Denis Villeneuve. Não é um mau filme, antes pelo contrário, mas a sua existência não se justificava porque vem responder a questões que o final de filme original deixou, de forma perfeita, em aberto. Às vezes é melhor não ter uma resposta definitiva.

Ao contrário da maioria dos filmes que trago a esta rubrica, este filme dos anos oitenta não me marcou nessa década nem sequer na seguinte. Porquê? Porque apenas o vi pela primeira vez já este século, há cerca de 10 anos atrás. Não me lembro de ter passado na televisão, os clubes de vídeo que frequentei e mesmo onde trabalhei não o tinham e fui adiando o seu visionamento, apesar de boas referências por parte de amigos e revistas de cinema. Quando finalmente o vi, passou a ser um dos meus filmes predilectos de sempre! Vê-lo representou tanto uma sensação de imersão de viagem ao passado como ao “futuro”. Uma belíssima reflexão sobre o que significa ser humano. Na minha opinião é a obra-prima de Ridley Scott, apesar de outros seus filmes que aprecio bastante como ‘Alien – O 8º Passageiro’ ou ‘Gladiador.’ No entanto, esta opinião poderia ser completamente diferente se tivesse visto, ao invés, a versão original que foi exibida nos cinemas ou lançada da primeira vez em VHS. A presença das referidas cenas de narração em off, com a personagem de Deckard a explicar muitas situações do filme, a exclusão de uma cena emblemática e a inclusão de um diferente final são as grandes diferenças. Para mim, diferencia o filme de extraordinário para, apenas, bom – a narração em off é completamente escusada e até desenquadrada e o “final feliz” destrói completamente a beleza e o significado do final ambíguo. Se a versão final do realizador não triunfasse, toda a grandiosidade do filme perder-se-ia, diria Roy Batty, “como lágrimas na chuva”.

 

Álbum: ‘Delicate Sound of Thunder’ – Pink Floyd (1988)

Oficialmente retirados desde 2014, os Pink Floyd foram uma banda britânica de rock progressivo, formada em Londres no ano de 1965. O seu trabalho foi marcado pelo uso de letras filosóficas, experimentações musicais, álbuns conceptuais e espectáculos ao vivo muito elaborados, atingindo reconhecimento internacional e tornando-se numa das bandas mais bem-sucedidas da história. Fundada pelos, então, estudantes Syd Barrett (voz e guitarra), Roger Waters (voz e baixo), Nick Mason (bateria) e Richard Wright (teclados), a banda recrutou David Gilmour (voz e guitarra) no ano seguinte. Ao longo dos anos, tensões criativas levaram a uma cisão na banda, com Waters a lidera-la como compositor principal entre 1978 e 1985 e, após a saída deste, a ser Gilmour a tomar a liderança até aos últimos dias de existência dos Pink Floyd.

‘Delicate Sound of Thunder’ foi o primeiro álbum integralmente ao vivo lançado pela banda britânica em 1988, gravado ao longo de cinco noites de concertos no norte-americano Nassau Coliseum, em Long Island. Incluído na digressão ‘A Momentary Lapse of Reason’, nome do anterior álbum de originais de 1987 que representou o início da “era Gilmour”, o trabalho ao vivo foi editado em duplo LP, dupla cassete e duplo CD, um formato ainda a dar os primeiros passos. Repleto de longos arranjos instrumentais plenos de virtuosismo, especialmente a nível da guitarra e teclados a antecederem as canções, a banda não deixou de fora grande clássicos como ‘Wish You Were Here’, ‘Another Brick in the Wall’ ou ‘Comfortably Numb’.

De todos os discos de vinil que tínhamos, este é, definitivamente, o que mais facilmente me faz viajar mentalmente no tempo. Basta colocar a tocar a primeira música, a assombrosa ‘Shine On You Crazy Diamond’, com uma introdução instrumental espectacular de 7 minutos e 20 segundos até o vocalista começar a cantar, e lá estou novamente com 8 ou 9 anos a regressar a casa da primária ao fim da tarde e a chegar ao quarto onde estão os meus irmãos mais velhos a ouvir o disco. É curioso e simbólico desse saudosismo que as primeiras palavras de Gilmour sejam justamente “Remember when you were young?“. É um concerto para se degustar tranquilamente, como um bom vinho, e apreciar a excelente qualidade sonora. Já que nunca terei a oportunidade de ver a banda ao vivo, que passou por Lisboa em 1994 para um duplo concerto no antigo Estádio José Alvalade, memorável para os presentes pelo grandioso espectáculo visual e musical, ao menos tenho o álbum para poder “viajar”. Talvez por isso tenha sido escolhido por cosmonautas soviéticos como primeiro álbum de rock de sempre a ser tocado no Espaço, a bordo do Soyuz TM-7.

 

Videojogo: ‘Skool Daze’ (1984)

Eric é um estudante de uma escola preparatória/secundária com o objectivo de roubar a sua caderneta de faltas do cofre da instituição, tendo para isso que completar várias tarefas pela escola, ao mesmo tempo evitando ser expulso por mau comportamento. Este é o mote para ‘Skool Daze’, jogo de computador lançado para o Commodore 64 e ZX Spectrum em 1984. Escrito e programado por David e Helen Reidy e desenhado por Keith Warrington, o jogo foi distribuído pela Microsphere e foi um sucesso comercial e da crítica. É visto como um precursor do género sandbox, designação referente a jogos em “mundo aberto” (do qual a série ‘Grand Theft Auto’ é a mais paradigmática), que permitem liberdade total de movimentos e de acesso a quaisquer locais do jogo apesar de termos um objectivo concreto para cumprir.

Ao controlar Eric, vamos ter a companhia de vários colegas de turma e de escola, entre eles os diferenciados Boy Wander (uma espécie de pestinha que manda fisgadas e escreve nos quadros), Angelface (o rufia que habitualmente nos coloca em apuros) e Einstein (o “crânio” da turma que faz queixinhas). Para além dos alunos, temos que conviver e comparecer nas aulas do Sr. Rockitt (professor de ciências), Sr. Withit (geografia), Sr. Creak (história) e do Sr. Wacker, o reitor da escola. Se somos apanhados fora das aulas ou a fazer o que não devíamos por algum dos professores levamos faltas. No entanto, até mesmo quando a culpa não é nossa podemos ser punidos injustamente. Se outros alunos nos agridem e caímos ou se um professor cai no chão e somos nós quem está mais por perto quando se levanta, levamos com as culpas. Deste modo, parte do desafio do jogo é também impedir que os outros alunos nos coloquem em apuros. Se chegamos às 10,000 lines, uma espécie de faltas na caderneta, somos expulsos da escola e o jogo termina. Para além disso, se um dos alunos contrair papeira temos que fugir dele enquanto estiver contagioso pois se nos pega a doença… game over.

Descobri esta pérola de jogo quando andava no 6º ano através de um colega de turma que tinha um Spectrum e uma colecção imensa de jogos. O jogo dá a opção de modificar o nome dos personagens no início e, cada vez que jogávamos, alterávamos os nomes dos alunos e professores do jogo para os da nossa escola, o que se tornava mais divertido porque o jogo está continuamente a fazer uso desses nomes, seja para avisar-nos dos castigos recebidos como nos toques de entrada para as aulas dos diferentes professores. Nunca chegámos ao fim do jogo talvez também pela completa liberdade que o mesmo oferecia, algo inédito nos jogos desse tempo. Passava-se o tempo a explorar e a fazer o que nos apetecia, entrando em cada sala de aula, biblioteca ou refeitório a qualquer altura, escrevendo nos quadros frases e palavras em português e ligava-se pouco ao objectivo do jogo! Esta liberdade de actuação e a área de jogo seria ainda maior na sequela ‘Back to Skool’, de 1985, que espero abordar numa futura edição dos 80’s Bits.