Destaques

80’s Bits VI

Este mês: um guilty pleasure que começou como uma brincadeira, uma banda que conduz-nos até ao seu principal sucesso e um pai que vai em resgate da filha ao estilo ‘Taken’.

Filme: ‘Os Masters do Universo’ (1987)

O planeta Eternia e o Castelo de Grayskull estão sob ameaça do maligno Skeletor (Frank Langella), que pretende dominar o universo. Um grupo de guerreiros liderados pelo heróico He-Man (Dolph Lundgren) são acidentalmente enviados para a Terra por uma misteriosa Chave Cósmica que detém a capacidade de tornar Skeletor todo-poderoso. Uma vez na Terra, He-Man e os restantes guerreiros juntam-se aos terrestres Kevin (Robert Duncan McNeill) e Julie (Courteney Cox) na tentativa de encontrar a Chave, voltar a casa e derrotar Skeletor antes que este atinja a sua força máxima.

Nesta rubrica tenho trazido filmes da década de 80 que, pela sua qualidade ou pelas suas ideias inovadoras, influenciaram as gerações seguintes. Desta vez, trata-se de um filme antes influenciado por outros e que… não tem propriamente muita qualidade. Não chega ao ponto de ser “tão mau que é bom” e a verdade é que conquistou o estatuto de filme de culto mas não deixou de ser uma grande desilusão face ao pico de popularidade que tanto a linha de brinquedos como a série de desenhos animados a que deu origem alcançaram.

Importa, então, voltar atrás e perceber como começou o fenómeno Masters of the Universe. Ao contrário do que costuma acontecer, não foram os desenhos animados que deram origem aos respectivos brinquedos e demais merchandising. No que hoje é considerado um caso de estudo, a californiana Mattel, hoje um gigante da indústria de brinquedos e, na altura, mais conhecida por ser a empresa produtora das bonecas Barbie, lançou-se também na produção de figuras articuladas mais orientadas para rapazes, em 1982. O sucesso da linha de brinquedos levou a Filmation a avançar, sob a produção de Lou Scheimer e Hal Sutherland, para duas temporadas, cada uma com 65 episódios, da série animada ‘He-Man and the Masters of the Universe’. Tendo como base a “bíblia” escrita por Michael Halperin, que, de forma detalhada e extensiva, criou uma mitologia impressionante sobre personagens e a sua origens, locais, temáticas e a própria geografia de Eternia, a série foi um enorme sucesso a nível mundial, especialmente durante a primeira metade da década, e o excelente ‘Diamond Ray of Disappearance’ foi o episódio piloto que consolidou o fenómeno.

Voltando ao filme, o maior erro que se pode apontar à produtora Cannon foi não ter aproveitado essa mitologia tão bem aprofundada por Halperin (a fazer lembrar o que Tolkien fez com o seu mundo de ‘O Senhor dos Anéis’ ou George R. R. Martin em ‘A Guerra dos Tronos’) e acabar por colocar He-Man no nosso planeta com um argumento medíocre assinado por David Odell. Sim, eram desenhos animados mas muitas das ideias poderiam e deveriam ter sido aproveitadas e a verdade é que Odell não voltou a trabalhar em qualquer filme depois deste. Gary Goddard, o inexperiente realizador, deparou-se com diversas contrariedades ao longo da rodagem, incluindo cortes abruptos no orçamento do filme, o que levou a que, por exemplo, a batalha final tivesse que ter sido reduzida a um terço e com iluminação mais escassa. Os problemas financeiros da Cannon ditaram até que a planeada sequela fosse cancelada por incapacidade de pagamento dos direitos à Mattel, com os cenários já construídos e algum do guarda-roupa a serem reutilizados para o filme ‘Cyborg’, com Jean-Claude Van Damme. Salvam-se as prestações de Lundgren e, especialmente, de Langella, um aclamado actor de teatro e cinema que encarnou Skeletor de forma dedicada por influência do seu filho, fã dos respectivos desenhos animados. Courteney Cox, antes de atingir o estrelato pela série ‘Friends’, tem aqui um dos seus primeiros desempenhos no grande ecrã. Nota final para o bom trabalho musical de Bill Conti, compositor galardoado com um Oscar e responsável pela icónica música de ‘Rocky’.

É pena mas não me recordo especificamente qual o primeiro filme que vi numa sala de cinema. Terá sido um filme de animação como ‘Fievel – Um Conto Americano’ (1986) ou um dos filmes da saga ‘Academia de Polícia’ (1984) mas lembro-me bem da experiência em ir ver ‘Os Masters do Universo’ até porque só aconteceu à terceira tentativa e foi caricata. Da primeira vez, um problema com os travões do Mini do meu pai obrigou-nos a voltar atrás, à segunda a lotação estava esgotada e à terceira tive o meu primo ao lado, que já tinha ido ver o filme, a contar-me tudo o que se ia passar a cada cena! No final saí feliz mas algo desapontado com as diferenças abissais face aos desenhos animados e ausência de tantas personagens importantes. Se hoje não me considero fanboy de coisa nenhuma, na altura era um fã acérrimo de tudo o que tinha a ver com He-Man e os ‘Masters’. Para além dos desenhos animados nos sábados de manhã e dos bonecos, que eram o meu presente favorito, coleccionava cromos, calendários, pequenas figuras que vinham com uns bolinhos… até o meu primeiro disfarce de Carnaval de sempre foi somente uma caraça do Skeletor! Terá sido um dos primeiros casos, pelo menos em Portugal, em que uns desenhos animados geraram uma quantidade e diversidade de merchandising tão grande. A quantidade de referências a He-Man e restantes personagens na recente série da autoria de Nuno Markl, ‘1984’, atesta bem a presença do fenómeno na vida de todos os que eram crianças ou pré-adolescentes na década de 80. Actualmente, a intenção de trazer He-Man e Skeletor de volta a grande ecrã mantém-se, com planos para um reboot a serem discutidos anualmente desde 2007. As últimas informações dão conta de um argumento escrito por David S. Goyer para um filme com rodagem prevista para este verão, sob a direcção dos irmãos Aaron e Adam Nee. Tendo em conta os avanços e recuos dos últimos anos, veremos se é desta que He-Man terá um filme à altura para voltar a exclamar “Eu tenho o poder!”

 

Música: ‘Drive’ – The Cars (1984)

Admitidos no Rock and Roll Hall of Fame o ano passado e cuja actuação na respectiva cerimónia terá sido a última ao vivo da sua carreira, The Cars foram uma banda americana de rock new wave, formada em Boston no ano de 1976. Responsável por um som vanguardista que fundia o rock dominado pelas guitarras típico do final dos anos 70 com a emergência dos sintetizadores pop que reinava no início da década de 80, a banda gozou de bastante sucesso comercial, apesar de nunca ter abdicado do seu estilo algo alternativo. Apesar de não ser caso único, os Cars tinham dois vocalistas, que asseguravam diferentes canções a cada álbum. Ric Ocasek foi o principal vocalista e letrista da banda, ao passo que Benjamin Orr, para além de baixista, cantou alguns dos maiores sucessos dos norte-americanos como ‘Just What I Needed’, ‘Let’s Go’ e a canção que nos traz aqui este mês.

‘Drive’ foi apenas o terceiro single a ser lançado do álbum ‘Heartbeat City’, em 1984, mas tornar-se-ia a canção mais conhecida internacionalmente dos Cars. Escrita por Ocasek e interpretada por Orr, é uma balada cuja belíssima letra sobre amor perdido e separação encaixa na perfeição com uma melodia electrónica suave e melancólica. A canção, tal como o restante álbum, foi produzida pelo sul-africano Robert “Mutt” Lange, um notável letrista e produtor musical que já trabalhou com grandes nomes como AC/DC, Def Leppard ou, mais recentemente, os Muse. A realização do videoclipe ficou a cargo de Timothy Hutton, actor já galardoado com um Oscar e que fazia a sua estreia atrás da câmara. Destaque para a presença no mesmo de Paulina Porizkova, supermodelo e actriz checa que viria, mais tarde, a casar com Ocasek.

Como acontecia com algumas das novidades musicais internacionais nos anos 80, o primeiro contacto com as canções dava-se através dos respectivos videoclipes, até mesmo antes das rádios. É assim que me lembro de ter ouvido e visto ‘Drive’ pela primeira vez e a música “bateu-me” de imediato. Numa década em que as canções mais populares eram, na sua maioria, bastante enérgicas, com refrões que ficavam no ouvido e correspondentes videoclipes cheios de cor e originalidade tecnológica, esta obra-prima dos Cars parecia o oposto de tudo isso. Uma balada lenta, de sentimento melancólico e com um videoclipe minimalista e cinzento onde as personagens solitárias de Orr e da belíssima Porizkova se encontravam rodeadas apenas por manequins, sem vida como o fim da relação. Dizem que as canções tristes são as melhores. Esta é uma delas.

 

Videojogo: ‘Final Fight’ (1989)

Na metrópole fictícia norte-americana de Metro City, o ex-lutador profissional Mike Haggar é eleito presidente de câmara, prometendo lidar com os problemas criminais da cidade. O gangue Mad Gear, a organização criminosa dominante na cidade, sequestra a filha de Haggar ameaçando que, se ele não colaborar como o anterior presidente, Jessica sofrerá as consequências. Contando com a ajuda de Cody, namorado de Jessica e um especialista em luta de rua, bem como Guy, mestre em ninjutsu, Haggar decide avançar para a luta e resgatar a filha em vez de ceder à chantagem dos perigosos criminosos.

Sim, o argumento não é propriamente brilhante e parece-se com o de um filme manhoso de série B mas o forte do jogo é mesmo a sua jogabilidade e diversão. Previsto inicialmente como uma sequela do original ‘Street Fighter’, de 1987, a Capcom decidiu avançar noutra direcção face ao sucesso que a rival Taito estava a obter com ‘Double Dragon’. Este beat ‘em up, traduzível em algo como “porrada neles”, em que um ou dois jogadores em simultâneo e em modo cooperativo vão lutando contra vários adversários ao mesmo tempo, influenciou o produtor Yoshiki Okamoto a seguir o mesmo caminho e a desenvolver um dos jogos de luta mais acarinhados de sempre. Inicialmente desenvolvido para as máquinas de arcade, ‘Final Fight’ seria adaptado para praticamente todos os computadores da época e consolas seguintes e daria lugar a cinco sequelas, sendo a última ‘Final Fight: Streetwise’, de 2006.

A maior recordação que guardo de ‘Final Fight’ é de tentar jogar… e não conseguir. O raio da máquina estava sempre ocupada! Lembro-me das idas à saudosa Feira Popular de Lisboa. A montanha russa, o comboio fantasma, a casa maldita ou até a bailarina… eram tudo diversões mais para os graúdos e em ficava a ver. Tal como na “casa das máquinas” pois eu só tinha uma moeda para gastar e haveria de estar sempre alguém a utilizar a do ‘Final Fight’. Era seguramente das máquinas mais populares entre o fim dos anos 80 e início dos anos 90, fosse a jogar sozinho ou acompanhado. O sucesso do jogo levou a Capcom a prosseguir com o género beat ‘em up por mais uns anos, com ‘Captain Commando’ (que tem lugar numa versão futura de Metro City), ‘Knights of the Round’ ou ‘Warriors of Fate’, todos exemplos da popularidade do género. Curiosamente, a empresa japonesa lançou o ano passado uma compilação de jogos em que se incluem todos estes últimos referidos. Finalmente um ‘Final Fight’ desocupado.

Licenciado em Sociologia. Cinema, música e videojogos são áreas de eleição.
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