Este mês: chapéus há muitos e este herói de aventuras não dispensa o seu. De Glasgow vem uma banda a estrear-se mas já à procura de melhores dias e acabamos a viajar até ao espaço numa explosão de cores em 8 bits criada por um inglês com nome de italiano.

 

Filme: ‘Indiana Jones e o Templo Perdido’ (1984)

Em 1935, depois de escaparem à justa das garras de um patrão do crime em Xangai, o arqueólogo e aventureiro Henry “Indiana” Jones (Harrison Ford), o seu jovem parceiro “Baixote” (Ke Huy Quan) e a cantora de clube nocturno Willie Scott (Kate Capshaw) partem, inadvertidamente, em direcção à Índia. Os aldeões que os recebem acreditam que os três foram enviados divinamente para recuperarem uma pedra sagrada roubada pelo cruel feiticeiro Mola Ram (Amrish Puri). Inicialmente relutante, “Indy” aceita a sua missão e descobre uma mina onde crianças são escravizadas, deparando-se com cultos fanáticos de sacrifício humano e magia negra nas catacumbas de um antigo palácio em Pankot.

Após o tremendo sucesso de ‘Os Salteadores da Arca Perdida’, de 1981, e de Indiana Jones como novo herói de aventuras do cinema norte-americano, era apenas uma questão de tempo até que o produtor e argumentista George Lucas e o realizador Steven Spielberg se reunissem novamente para dar seguimento à saga. Neste caso, uma prequela, passada um ano antes dos acontecimentos do primeiro filme, uma vez que Lucas não queria nazis como vilões novamente. William Huyck e Gloria Katz ajudaram o criador de ‘Star Wars’ a escrever o argumento e, em Maio de 1984, Indy voltava ao grande ecrã. O sucesso nas bilheteiras foi indesmentível mas as críticas iniciais dividiram-se, com alguns a considerarem o tom do filme muito negro e a violência de algumas sequências. A segunda aventura de Indiana Jones viria mesmo a ser uma das principais responsáveis pela criação do ‘PG-13’, uma classificação que moldaria a produção dos filmes em Hollywood a partir desse momento. Basicamente, o ‘PG-13’ classifica filmes que não são aconselhados para crianças com menos de 13 anos mas os pais podem decidir se autorizam os filhos a vê-los. É uma espécie de intervalo entre os filmes admissíveis para crianças e os restritos a um público adulto e muitos estúdios começaram a apontar para esta classificação que garante maior abertura de receitas de bilheteira.

Dos três filmes de Indiana Jones dos anos oitenta, este foi sempre o meu preferido e o que mais me marcou. É claro que ‘Os Salteadores da Arca Perdida’ é um grande filme, com cenas memoráveis como a inicial com a pedra rolante gigante ou o duelo entre Indy e um espadachim desafiador e que ‘Indiana Jones e a Última Cruzada’, de 1989, leva-nos à mítica procura do Santo Graal e uma divertida química pai-filho entre Sean Connery e Ford mas, ainda assim, prefiro este. Para a maioria das pessoas da minha geração, este foi o primeiro filme de Indiana Jones que viram e o mais memorável pois relembro-me de conversas sobre cenas do mesmo entre amigos de infância e colegas de escola. Um amigo meu, fã da personagem, até costumava recitar algumas linhas de diálogo de cenas do filme. O facto de ser, sem dúvida, o mais sombrio de toda a saga, contribuiu para nos chamar mais a atenção e, no meu caso, que até já via filmes de terror que não eram para a minha idade, não me chocou e até entusiasmou. Spielberg e Lucas criaram um filme arriscado (que hoje, com a franquia nas mãos da “familiar” Disney, dificilmente entraria sequer em produção nestes moldes) mas que acabou por ajudar a definir e cimentar a popularidade da personagem entre miúdos e graúdos. A orquestração do “mestre” John Williams adapta-se perfeitamente aos diferentes momentos do filme, que seria galardoado com um Oscar para melhores efeitos e edição sonora. Após a trilogia inicial, Indy voltaria a pegar no seu chicote em ‘Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal’, de 2008, que, para além do efeito de revivalismo, não acrescentou muito à saga. Como a Disney não descura uma boa oportunidade para facturar nas bilheteiras, para 2021 está já agendado o regresso da personagem para um quinto filme de aventuras, numa altura em que Harrison Ford terá 79 anos…

 

Álbum: ‘Taking On the World’ – Gun (1989)

Os Gun são uma banda de hard rock formada em Glasgow, na Escócia. Após experimentarem os nomes ‘Blind Allez’ e ‘Phobia’, os britânicos decidiram-se pelo actual nome antes de celebrarem contracto com a multinacional A&M Records. A formação clássica assentava em Mark Rankin (voz), Giuliano Gizzi e Baby Stafford (guitarras), Dante Gizzi (baixo) e Scott Shields (bateria) e foi este quinteto que gravou o álbum de estreia da banda. O sucesso do mesmo chegou aos ouvidos dos Rolling Stones, que os convidaram para fazer a primeira parte dos seus concertos da digressão europeia de 1990 e ajudaram a colocar os Gun no mapa musical. Seguir-se-iam digressões com os Bon Jovi e os Def Leppard. ‘Swagger’, o terceiro álbum de originais, representou o maior sucesso da carreira, muito por culpa do single ‘Word Up’ e da alta rotação que o mesmo teve na MTV. A decisão de alterar o som da banda resultou terrivelmente no álbum seguinte, em 1997, o que levou a banda a acabar. Os Gun regressariam ao activo em 2008, primeiro com Toby Jepson no lugar de Rankin, e actualmente, é o ex-baixista Dante Gizzi que assegura a parte vocal.

‘Taking On the World’ é o nome do primeiro álbum dos Gun. Produzido por Kenny MacDonald, o trabalho de estreia dos escoceses é um notável ensaio de rock puro e duro, sem grandes artifícios complementares de estúdio. O single inaugural ‘Better Days’ deu o pontapé de saída perfeito para o álbum, tenso sido presença nas rádios britânicas e um pouco por toda a Europa (Portugal incluído) no verão de 1989. A notoriedade da canção levou a banda inclusive a actuar no famoso programa ‘Top of the Pops’ e proporcionou que outros singles se seguissem, como ‘Inside Out’, ‘Shame on You’ e a balada poderosa que dá nome ao próprio álbum. A reputada revista britânica ‘Classic Rock’ incluiu o disco na sua lista de 150 melhores álbuns de estreia de sempre, enaltecendo o poder vocal de Rankin e o virtuosismo de “Jools” Gizzi na guitarra. A banda continuaria forte com ‘Gallus’ (1992), o sempre difícil segundo álbum, até ao já referido ‘Swagger’, de 1994, que abriu o conjunto escocês a novos mercados. O “tiro no pé” (ou na cabeça, visto que “matou” a banda quando menos se esperava) foi dado com ‘0141 632 6326’, um lamentável alinhamento de canções produzidas pelo antigo teclista dos INXS, Andrew Farriss, que afastou a banda do seu ADN rock/hard rock para um pop sofrível mais na moda em 1997. Desse álbum salva-se apenas ‘Crazy You’, cujo êxito não seria suficiente para impedir o fim da formação clássica no ano seguinte.

É frequente, para quem gosta de música, ter uma banda preferida que quase ninguém conhece ou que acompanhamos desde o início antes de se tornarem “comerciais”. Os Gun foram essa banda para mim e, ainda que tenham tido algum reconhecimento entre o virar da década até meados dos anos 90, nunca foram uma banda de massas. Tive o primeiro contacto através de ‘Better Days’, que tocava em tudo o que era rádio por cá no verão de 1989 e alguns meses mais tarde o meu irmão mais velho apareceu em casa com o álbum integral em cassete. Seguiu-se o segundo álbum (também em cassete) até ‘Swagger’, já em CD (que ainda tenho “emprestado”). O famigerado quarto álbum já fui eu que o comprei… e seria preferível ter estado quieto. A ligação dos Gun a Portugal foi sempre forte e um claro exemplo disso foi o facto de os escoceses terem escolhido Lisboa para o concerto de despedida, realizado em 98 no Paradise Garage e transmitido em directo pela Antena 3. Não marquei presença (e ainda hoje me arrependo disso) mas, pelo menos, pude gravar o concerto com a ajuda preciosa do meu irmão do meio, que segurava a antena da aparelhagem para evitar ruído e melhorar o som recebido. Quando os Gun voltaram a Portugal, em 2009, no Campo Pequeno, não deixei passar a oportunidade de os ver ao vivo. Na altura, foi um concerto duplo, com os dinamarqueses D-A-D (outra banda de hard rock que também teve os seus melhores anos no virar da década) a fazer uma das partes e em que os Gun se apresentaram com Toby Jepson (ex-Little Angels) no lugar de Mark Rankin. Apesar do bom concerto que foi, Jepson nunca será Rankin e o afastamento misterioso do carismático vocalista original nunca foi bem explicado. Actualmente, a banda é liderada pelo mais novo dos irmãos Gizzi, Dante, e os Gun continuam a lançar álbuns, um pouco fora do radar e à espera de “melhores dias”.

 

Videojogo: ‘Exolon’ (1987)

O espaço sempre foi uma área explorada na história dos videojogos e os primeiros “jogos de tiros” enquadraram-se mesmo nesse contexto em clássicos de arcade como ‘Space Invaders’, ‘Phoenix’ ou ‘Galaga’. Os computadores domésticos dos anos 80 continuariam esse legado, com dezenas de jogos espaciais a figurarem entre os mais conhecidos do género. Se na maioria destes controlávamos uma nave ou, pelo menos, um canhão destas, em ‘Exolon’ tomamos o controlo a pé (ou a flutuar) de um soldado futurista ao longo de várias zonas. A cada ecrã que passamos da esquerda para a direita corresponde uma zona e teremos que ultrapassar 124 até chegarmos ao final. Para nos ajudar a completar a missão, dependemos apenas da nossa pistola e de uma espécie de granada-míssil, ambas as armas de utilidade variada conforme o inimigo ou obstáculo a ultrapassar.

Criado pelo britânico Raffaele Cecco e lançado pela Hewson Consultants em 1987, ‘Exolon’ foi um sucesso imediato nas várias plataformas da época, especialmente no ZX Spectrum. Cecco realizou um trabalho notável na programação desta versão, apresentando um jogo visualmente impressionante, com uma palete de cores bastante diversa e praticamente sem colour clash, termo aplicado para identificar conflito de cores, um problema recorrente em jogos de Spectrum quando um objecto se sobrepunha a outro. O jogo acaba por ser um misto interessante de jogo de tiros e de plataformas, verdadeiramente desafiador em algumas zonas para quem jogava sem quaisquer batotas previamente introduzidas. O sucesso de vendas e da crítica especializada permitiu que a parceria entre Cecco e a Hewson se mantivesse nos anos seguintes, com títulos como ‘Cybernoid’, ‘Cybernoid II: The Revenge’ e ‘Stormlord’ a cimentarem o prestígio de ambos.

‘Exolon’ foi um dos primeiros jogos para o ZX Spectrum que obtive via “pirataria”. Escrevi essa palavra entre aspas porque não era propriamente disso que se tratava, como já abordei em edições anteriores desta rubrica. Copiei o jogo através de um amigo pelo programa português de Spectrum ‘Pirata II’ e joguei muitas vezes. Adorava o efeito de teletransporte nas cabines e aquelas espécies de globos com as bolas vermelhas faziam-me lembrar as tômbolas do totoloto. Infelizmente nunca cheguei ao fim do jogo, nem mesmo através de batotas porque desconhecia a existência destas. Ao pesquisar um vídeo para ilustrar o jogo, encontrei o colocado acima em que um jogador obteve vidas infinitas para chegar ao fim. Isso não impediu o constrangimento da demora a passar a famigerada zona 50…