Este mês: uma aventura fora de horas que parece um pesadelo na cidade que nunca dorme, Rickrolling à descarada de uma carreira de vento em poupa e uns gatos com problemas de gente que arranhavam mais na televisão que no computador.

 

Filme: ‘Nova Iorque Fora de Horas’ (1985)

Paul Hackett (Griffin Dunne) trabalha num escritório em Nova Iorque como processador de texto. Certo dia conhece uma rapariga interessada por literatura que diz viver no bairro do SoHo com uma amiga escultora. Com o objectivo de a seduzir, Paul vai até casa delas e vive a noite mais surreal da sua vida. No caminho, perde o dinheiro para pagar o táxi. Quando lá chega, desilude-se com as paranóias de Marcy (Rosanna Arquette) e a sua peculiar amiga escultora Kiki (Linda Fiorentino). Decide voltar para casa de metro, mas quando vê que não tem dinheiro suficiente, regressa a casa de Marcy, sob chuva torrencial, onde descobre que algo trágico aconteceu. Para complicar a situação, uma série de moradores da zona movem-lhe uma feroz perseguição tomando-o por um assaltante que tem devastado o bairro. Paul parece condenado a não voltar para casa e cada novo encontro ou incidente é mais bizarro que o anterior.

Face aos adiamentos constantes da produção de ‘A Última Tentação de Cristo’, que só teriam fim em 1988, Martin Scorsese decidiu avançar para um novo projecto. A partir de um argumento de Joseph Minion que o próprio apresentou como tese do seu curso universitário, o realizador norte-americano avançou para este filme com um orçamento reduzido e um calendário de rodagem apertado. O que poderia ser um entrave para muitos cineastas acabou por servir como uma explosão de energia criativa, explorando a paranóia e frustração do protagonista aos nossos olhos e transferindo essas sensações para os espectadores. Com um fantástico trabalho de câmara, Scorsese coloca-nos na pele de Paul e explora como ninguém a sua amada Nova Iorque e as idiossincrasias dos seus habitantes pela noite dentro, como já o havia feito magistralmente em ‘Taxi Driver’ (1976). “Um puzzle chinês”, como apelidou o argumento de Minion, foi manobrado com mestria e o trabalho do cineasta valer-lhe-ia o prémio de melhor realizador nos Independent Spirit Awards e no Festival de Cannes.

‘Nova Iorque Fora de Horas’ é umas obras menos conhecidas de Martin Scorsese e até é compreensível que assim o seja. Afinal, ‘O Touro Enraivecido’ ou ‘Tudo Bons Rapazes’, para dar apenas dois exemplos, ofuscam qualquer pequeno filme rodado entre eles. Para além disso, não tem uma estrela no lugar de protagonista que pudesse dar mais mediatismo. Griffin Dunne, que também foi um dos produtores do filme, é um bom actor mas nunca “descolou” para uma carreira que o tornasse presença habitual aos olhos do grande público. Ele e Rosanna Arquette acabaram por ser nomeados para prémios de actuação por este filme, cujo elenco conta com vários actores habitualmente vistos em papéis secundários, como o caso de John Heard ou Catherine O’Hara, curiosamente os pais do pequeno Kevin de ‘Sozinho em Casa’ (1990). As estrelas acabam mesmo por ser o próprio Scorsese e o trabalho de alguns dos seus colaboradores de longa data, destacando-se a fotografia de Michael Ballhaus, a montagem de Thelma Schoonmaker e a música de Howard Shore.

Também a mim o filme conseguiu passar despercebido por muitos anos. Acabei por descobri-lo por acaso quando procurava um outro que tinha visto quando era criança. ‘Aventura Fora de Horas’ era o título de uma comédia de Chris Columbus que me recordava de ter visto quando passou na RTP e acabei por esbarrar no filme errado quando fiz, já adulto, uma pesquisa por “fora de horas”. Cedo percebi que não se tratava do mesmo filme mas decidi dar-lhe uma oportunidade. Adorei-o e tem o insólito de provocar-me uma espécie de sensação de déjà vu relativamente a sonhos que já tinha antes de ver o filme, nomeadamente a questão de voltar a vários sítios na mesma noite/sonho e estes estarem estranhamente diferentes da vez anterior. ‘Nova Iorque Fora de Horas’ pode ser catalogada como uma comédia negra porque integra ingredientes próprios deste género mas também como uma espécie de thriller porque ficamos sempre na dúvida sobre o que virá a seguir. Às vezes basta uma simples história, embora rocambolesca, para fazer um bom filme. Bem a horas.

 

Música: ‘Never Gonna Give You Up’ – Rick Astley (1987)

Rick Astley é um músico inglês nascido em 1966 no condado de Lancashire. Depois de uma experiência num coro de igreja, Astley juntou-se a uma pequena banda local como baterista. Após a saída do vocalista, foi convidado a ocupar o lugar vago e não demorou até que Peter Waterman tomasse conhecimento dos seus dotes vocais. Astley viria a ser convidado para se mudar para Londres, contratado pela Stock Aitken Waterman (SAW), empresa composta por um trio de compositores e produtores musicais que alcançaram tremendo sucesso entre a segunda metade da década de 80 e o início dos anos 90. Entre os artistas que atingiram o lugar cimeiro das tabelas de vendas através da SAW contavam-se estrelas pop como Kylie Minogue ou as Bananarama e o mesmo aconteceu a Astley com ‘Never Gonna Give You Up’, primeiro single do álbum de estreia do cantor britânico em 1987.

‘Whenever You Need Somebody’ produziria seis singles, incluindo ‘Together Forever’, ‘When I Fall in Love’ (versão celebrizada por Nat King Cole décadas antes) e a canção homónima do álbum mas foi com ‘Never Gonna Give You Up’ que Rick Astley se tornou uma estrela musical. Alicerçada pela dançável batida produzida por sintetizadores (característica das produções da SAW) e com a distintiva voz de barítono de Astley a destacar-se, a canção alcançou o primeiro lugar em ambos os lados do Atlântico, liderando as tabelas num total de 25 países. Foi o disco mais vendido no Reino Unido em 1987 e no ano seguinte ganharia o prémio de melhor single nos Brit Awards. Astley lançaria mais um álbum com a SAW e outros dois sem a produtora até 1993, altura em que decidiu retirar-se, com apenas 27 anos, desiludido com o lado comercial da indústria musical. O regresso dar-se-ia em 2001 com ‘Keep It Turned On’, sem grande aparato mediático, e desde então continua no activo, tendo lançado este ano um álbum com as suas canções mais conhecidas cantadas ao piano intitulado ‘The Best of Me’.

Os anos 80 foram ricos na diversidade de estilos musicais apresentados e a pop foi, indubitavelmente, um deles. Não tenho nenhuma história em particular sobre ‘Never Gonna Give You Up’ mas sei que me ficou imediatamente no ouvido e na memória. É uma das canções da década e facilmente reconhecível por quem já por cá andava naquele tempo e mesmo pelas gerações seguintes. Para além de frequentemente marcar presença em colectâneas musicais e listas de de faixas de karaoke dos anos 80, a canção obteve um bizarro pico de popularidade devido ao que ficou baptizado como Rickrolling. Esta espécie de meme da internet, surgida nos primeiros tempos do Youtube, consiste em apresentar uma hiperligação disfarçada que, ao ser clicada, redireciona para o videoclip da canção. As “vítimas” da partida, pensando que vão aceder a material não relacionado, acabam por ser rickrolled, basicamente “enroladas pelo Rick”. Chegaram a registar-se casos de partidas em programas televisivos ao vivo e em eventos desportivos nos Estados Unidos. A brincadeira valeria a Astley (apesar de alheio à mesma) a nomeação em 2008 para o prémio ‘Best Act Ever’ da MTV e, após uma massiva votação do público, ganharia mesmo o trofeu, o qual aceitou com humor. A MTV acabara de ser “enrolada”.

 

Videojogo: ‘ThunderCats’ (1987)

Mumm-Ra, um feiticeiro maligno e imortal, apoderou-se do Olho de Thundera, fonte de poder dos ThunderCats. Caberá ao líder Lion-O resgatar os seus companheiros capturados, derrotar o seu arqui-inimigo e trazer de volta o artefacto perdido. Este é o mote para o jogo lançado em 1987 pela Elite Systems. Após adquirir a licença da famosa série de animação, a produtora britânica foi pressionada para disponibilizar o título a tempo do Natal desse ano mas, apercebendo-se que tal seria impossível, optou por comprar um jogo de acção e plataformas quase concluído à Faster Then Light, uma pequena empresa do meio. A partir do trabalho já feito, a Elite procedeu a algumas alterações gráficas e lançou-o como um jogo dos ThunderCats. O resultado foi um título com 14 níveis, sem bosses no final de nenhum deles mas extremamente difícil de completar e com algum défice de fidelização relativamente ao material de origem, cuja licença foi ferozmente disputada na altura.

Convém, então, perceber a relevância da licença adquirida. A série animada segue a história e as aventuras de Lion-O, Tygra, Panthro, Cheetara, Wilykit e Wilykat depois do êxodo forçado de Thundera, o seu planeta natal. Após aterrarem na Terceira Terra, os ThunderCats terão que se unir para construir uma nova vida e, ao mesmo tempo, repelir os constantes ataques dos seus antigos inimigos, os Mutantes, e do misterioso Mumm-Ra. ‘ThunderCats’ foi uma criação do norte-americano Tobin “Ted” Wolf, produzida pela Rankin-Bass Animated Entertainment e Leisure Concepts e com animação a cargo de dois estúdios japoneses. A escrita da “bíblia” da série e da maioria dos episódios coube a Leonard Starr, assegurando também o argumento do telefilme ‘ThunderCats – Ho!’, que serviu de transição entre o final da primeira temporada e as seguintes três. Coincidindo ainda em antena com os últimos episódios emitidos de ‘He-Man and the Masters of the Universe’ em 1985, ‘ThunderCats’ acabou por ocupar o seu lugar, com melhor animação, música e uma escrita ainda mais adulta e pouco vista em desenhos animados da altura. Uma temática recorrente é a história de Lion-O, líder hereditário dos ThunderCats após a morte de Jaga, que basicamente é ainda uma criança num corpo de homem mas que tem de liderar e assegurar a sobrevivência da sua espécie. Por outro lado, a presença de Snarf, uma espécie de gato doméstico… de gatos humanoides, preenche a existência de comic relief e pisca o olho aos espectadores mais pequenos. A série tornou-se uma das apostas infanto-juvenis mais populares da década de 80, com um total de 130 episódios emitidos e as suas personagens chegaram também à banda desenhada, aos brinquedos e a toda uma variedade de produtos licenciados. Em Portugal estrearia em 1988, começando por ser emitida na RTP2, mas a sua popularidade logo faria que fosse transferida para as clássicas manhãs de sábado do primeiro canal. Ficou na memória a excelente abertura de cada episódio, provavelmente a melhor do género.

Voltando ao jogo, de nome completo ‘ThunderCats: The Lost Eye of Thundera’, lembro-me de o ter visto pela primeira vez em casa de uns amigos da escola primária através da versão para o 48K do ZX Spectrum. Algo repetitivo e muito difícil, acabei por tê-lo também mais tarde mas acho que nunca passei do terceiro ou quarto nível. A fama do jogo superava, claramente o interesse e a qualidade do mesmo. A Elite, que até tinha um historial de jogos memoráveis para o Spectrum (‘Bomb Jack’, ‘Paperboy’) não o conseguiu desta vez pelas razões já enunciadas. Ficou a lembrança mais pelo fenómeno associado, que nunca chegou ao nível de He-Man e os Masters do Universo mas que também marcou uma geração. Era frequente entre os meus amigos da altura alguém exclamar as palavras de transformação da Espada de Omens e até improvisarmos materiais para construir as armas dos heróis. A “febre” pelos Thundercats desvaneceria com o aparecimento e concorrência de Transformers e Tartarugas Ninja mas os “gatos do trovão” voltariam a pôr as suas garras de fora com uma nova série de animação em 2011, pelo Cartoon Network, que originaria um novo (e fraco) videojogo no ano seguinte, exclusivo para a Nintendo DS. Para 2020 está já agendada a estreia de um novo reboot animado intitulado ‘ThunderCats Roar’, com uma estética e abordagem mais cómica e infantil comparativamente à série original. ThunderKittens? Oh.