Este mês a previsão meteorológica é de nevoeiro assassino a chegar à costa de Antonio Bay, chuva de êxitos de modo apressado em Passadena e possibilidade de ocorrência de precipitação em Portugal, provocada pela chegada da depressão profunda Reinaldo.

 

Filme: ‘O Nevoeiro’ (1980)

O reverendo Malone (Hal Holbrook), pastor da localidade costeira de Antonio Bay, encontra um manuscrito em sua casa. O diário do seu avô, escrito em 1880, relata o pânico da população local ante a perspectiva de instalação de uma comunidade de leprosos na vila. Decididos a impedir a intenção destes, o avô de Malone e cinco outros homens afundam o barco dos recém-chegados e roubam o seu ouro. Um século após este trágico acontecimento, a população inteira de Antonio Bay está pronta a comemorar o seu centenário. Contudo, em plena cerimónia, um estranho e espesso nevoeiro ganha forma sobre o mar, avançando rapidamente para terra e trazendo consigo um sobrenatural desejo de vingança.

Tendo como base de partida um evento real ocorrido no século XIX, em plena costa californiana, que envolveu destroços deliberados de um navio e a sua subsequente pilhagem, o realizador John Carpenter e a sua habitual produtora Debra Hill escreveram um extensivo argumento até então pouco visto para um filme independente e de baixo orçamento. A prolífica dupla, que apenas dois anos antes tinha tido grande sucesso com o ‘Halloween’ original, avançou para a rodagem do filme em 1979 mas o mesmo só ficaria completo no ano seguinte após a necessidade de efectuar refilmagens para tornar a película mais compreensível e aterrorizante. Os resultados de bilheteira foram muito satisfatórios mas a crítica inicial dividiu-se, tendo ‘O Nevoeiro’ posteriormente alcançado o estatuto de filme de culto do género. Em termos de elenco, a obra regista a particularidade de apresentar três das maiores “rainhas dos gritos” de sempre: Janet Leigh (de ‘Psico’), a sua filha Jamie Lee Curtis (do já referido ‘Halloween’ e das suas inúmeras sequelas) e Adrienne Barbeau (com presença em vários filmes de terror, incluindo ‘Perigo no Pântano’).

‘O Nevoeiro’ é provavelmente o filme presente nesta rubrica que há mais anos não revia. No entanto, conseguiu ser muito eficaz em deixar-me memórias de algumas cenas e principalmente do próprio nevoeiro retratado, que vem à minha lembrança algumas vezes quando avisto esta situação atmosférica. Em criança, o filme assustava só pela sugestão do que se escondia por detrás da espessa névoa e o meu irmão do meio fazia questão em meter-me medo, ao bater na porta do quarto por quatro vezes, imitando algumas sequências. Revendo a obra muitos anos depois, o impacto já não é o mesmo, tanto pela idade como por já ter visto entretanto muitos mais filmes do género. Não será a obra-prima de Carpenter mas é um clássico (imensamente superior ao lamentável remake de 2005) e reconheço-lhe muitos méritos ao nível de suspense e a presença de várias características do estilo do realizador que, para além do argumento, assegurou também a excelente composição musical. Diz a lenda popular que D. Sebastião regressará numa manhã de nevoeiro. Se assim for, porque não regressarão também, numa noite de nevoeiro, marinheiros leprosos com sede de vingança?

 

Álbum: ‘101’ – Depeche Mode (1989)

A chegada de uma nova década é sempre motivo de celebração e para os Depeche Mode significa atingir a impressionante marca de 40 anos de carreira. Embora o seu pico de popularidade se tenha registado nas décadas de 80 e 90 do século passado, o trio actualmente formado por Dave Gahan (voz), Martin Gore (teclados e guitarra) e Andy Fletcher (teclados e baixo) conseguiu sempre manter-se relevante, esgotar concertos por todo o mundo e influenciar novas gerações de músicos. Originários de Basildon, no condado inglês de Essex, os Depeche Mode deram nome à banda através de uma homónima revista francesa de moda e construíram uma bem-sucedida carreira que inclui 14 álbuns de estúdio e 6 gravados ao vivo, um lugar por excelência do conjunto.

É precisamente acerca do sucesso dos britânicos em cima do palco que vale a pena olhar para ‘101’, álbum gravado em 1988 em Passadena, no estado da Califórnia, e editado no ano seguinte. O nome remete para o facto de ter sido o 101º e último concerto da digressão ‘Music for the Masses’, que servia de promoção ao álbum do mesmo nome e é também, curiosamente, o número de uma conhecida autoestrada na zona. As massas acorreram ao Rose Bowl (um dos mais famosos estádios norte-americanos e palco da final do Campeonato do Mundo de Futebol de 1994) e o concerto foi histórico, com os Depeche Mode (na altura um quarteto, com a presença de Alan Wilder) a tocarem para uma multidão de mais de 60 mil pessoas que entoaram, em uníssono, as letras de canções como ‘Just Can’t Get Enough’, ‘Strangelove’ ou ‘Never Let Me Down Again’. Para além da edição em duplo disco de vinil e CD, ‘101’ foi lançado também em vídeo como documentário, realizado e produzido por D. A. Pennebaker. O conceituado documentarista norte-americano acompanhou os passos da banda em palco e fora deste através de um estilo de documentário o menos intrusivo possível conhecido como “cinema directo”.

A música sempre marcou presença na casa dos meus pais, desde os discos de vinil e cassetes que o meu pai tinha, mas foi quando o meu irmão mais velho começou a sua discografia que tudo mudou. Para além do que comprava, também trazia para casa cassetes de áudio gravadas por amigos de álbuns de diversas bandas e artistas. Foi assim que descobri os Depeche Mode e o ‘101’, numa cassete com os dois lados dedicados ao mítico concerto. A combinação de um estilo muito próprio de música eléctrónica com o poder vocal de Gahan cativou-me e lembro-me de eu próprio fazer a minha compilação, escolhendo as minhas canções preferidas do álbum ao vivo. Foi interessante ficar a conhecer a banda antes da mesma atingir a popularidade comercial com ‘Violator’, álbum de 1990 que incluía êxitos planetários como ‘Enjoy the Silence’ ou ‘Personal Jesus’. Os Depeche Mode actuariam no nosso país em 1993, 2006 e 2009 mas foi quando vieram ao ‘Alive’ em 2013, que pude vê-los e ouvi-los pela primeira vez ao vivo. Com a lotação do recinto a abarrotar e um baterista a acompanhar a banda em palco tornando o som ainda mais empolgante, o concerto de mais de duas horas foi memorável e abrangeu todos os grandes êxitos, incluindo alguns que cantarolava há 25 anos enquanto criança a ouvir o ‘101’. Como diria a letra de uma das canções, “it’s just a question of time”.

 

Jogo de computador: ‘Paradise Café’ (1985)

O jogador controla um indivíduo do sexo masculino que deambula pela cidade, representada por um corredor interminável com várias portas ao longo do caminho. Entre as que se abrem, podemos depararmo-nos com prostitutas, velhotas, polícias, assaltantes e o estabelecimento nocturno que dá nome ao jogo, o Paradise Café. Lá dentro, para além de nos servirem bebidas também se traficam armas, drogas e até a nossa própria carteira caso tenhamos sido assaltados anteriormente. Esta última é, seguramente, a situação a evitar pois sem dinheiro ou documentos acabaremos por ir parar à prisão ou ter uma surpresa bastante desagradável caso nos precipitemos e entremos, “tesos”, na casa de uma profissional do sexo.

Se a temática do jogo já era bastante polémica e surpreendente para um jogo de ZX Spectrum, imagine-se o facto de tratar-se de um produto 100% português! Produzido pela Damatta (não confundir com uma marca de presunto nacional) em 1985, o jogo nunca teve um lançamento oficial mas começou a surgir com capas adulteradas junto de outros títulos nas casas que vendiam cassetes de Spectrum. “O fruto proibido é o mais apetecido”, diz o ditado popular, e ‘Paradise Café’ não fugiu a esta máxima, tornando-se por cá num dos mais conhecidos jogos de computador de sempre da geração de 80. Como jogo em si, diga-se que é bastante fraco: gráficos básicos, ausência de qualquer som e uma mecânica de jogo repetitiva e sem grande objectividade. Para além disso, o início baseia-se completamente na sorte pois se formos assaltados antes de poder comprar uma arma ficamos irremediavelmente impedidos de progredir. No entanto, ‘Paradise Café’ andava na boca de qualquer miúdo e adolescente da altura pelo seu conteúdo picante nos balões de conversa das personagens e pelas situações pornográficas entre as mesmas. Frases como as seguintes ficaram, jocosamente, na memória:

 – Ó Reinaldo!

– Cú cú. O que foi?

– Este não quer pagar.

– Ai não? Já vai ver.

A fama do jogo era tal que eu já o conhecia muito antes de ter tido o meu Spectrum 128K, através de conversas entre amigos ou de ouvir os mais velhos falarem sobre o assunto. O jogo reproduziu-se rapidamente por cá através da pirataria e chegou mesmo ao estrangeiro, onde despertou a curiosidade dos jogadores em saberem o que diziam as personagens e que teclas utilizar para interagir. ‘Paradise Café’ é, para o bem ou para o mal, um reflexo do zeitgeist dos anos 80 e muito dificilmente veria a luz do dia nos dias de hoje. Afinal, é tudo menos politicamente correcto e explora, sem tabus, temáticas como a prostituição, violação, tráfico de droga ou roubo. Talvez por isso até agora nunca ninguém ligado ao jogo tenha vindo a público reclamar a sua criação, apesar do apelo lançado por muitos sites e comunidades dedicadas ao ZX Spectrum. Para a história ficou um jogo que marcou uma era e em que controlamos um gandulo na “má vida” com 30 contos no bolso, dando ao jogador a liberdade de cometer crimes e imoralidades umas atrás das outras, uma espécie de ‘Grand Theft Auto’ mas sem os automóveis e passado em Portugal nos anos 80.