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A BALADA DE BUSTER SCRUGGS – estórias vivem para sempre, as pessoas não.

 

Quase sempre profundas, outras muitas vezes absurdas, as mirabolantes histórias que, os já lendários Irmãos Coen, nos revelam a cada filme, são sempre motivo para o seu tempo, eles que o fazem como ninguém, e que cada vez mais, acompanhados de boas, geniais, e criativas épicas aventuras do imaginário, nos enchem o ego de um espírito rejuvenescido, do melhor que oferece o cinema.

Chegou fresquinho, hoje mesmo à sua plataforma Netflix, o novo western musical de comédia dramática, dos irmãos Joel e Ethan Coen, que dispensam qualquer tipo de apresentação, criadores de filmes de culto, já eternos para o seu fiel público, agora trazendo neste fim de ano, a sua mais recente fita, entre vários com, Liam Neeson, James Franco e estrelando Tim Blake Nelson, como o Buster Scruggs, numa espécie de antologia fílmica, empacotada em seis contos, com as mais diversas personagens, cada uma a viver a sua mais diferenciada sina de vida, nesta visão do velhinho e nostálgico, sem lei, Velho Oeste.

Um regresso curioso, a este formato, já antes explorado pelos irmãos americanos, que em filmes anteriores feitos, já haviam revisitado, com grande sucesso e habilidade, eles que contam já, com um catálogo de múltiplos géneros fílmicos já preformados, em diferentes tempos históricos, numa atual já vasta maioridade de épicos, no ponto de vista cinemático, o último lançado faz mais de dois anos, que mesmo assim desiludiu.

Agora regressam, e em toda a sua melhor versão, corrigindo o percalço da última película, e lançando para a televisão este segmento fílmico inigualável, fonte de uma criatividade em marca própria e característica, numa narrativa muito pessoal, como apanágio, mas sempre muito liberta de qualquer regra, que emerge e traz à tona a audiência que o visiona, em que ela contribui, e é encarnada em todo os números musicais e discurso direto, que esta completíssima e festiva obra teatral presenteia, com performances infalíveis, surrealistas ao extremo, numa abordagem fortemente abstrata e delicada, mas ao mesmo momento, de um completo e total charme.

É o tipo de filme que, em pleno frio invernoso, nos traz uma nova brisa de abertura, a carne de primeira, por assim dizer, regressa em grande estilo, em sequências e cenários mais ou menos alegres, mesmo com pouco tempo de familiarização do público, para com os personagens, derivado de ser um livro de contos para o ecrã, que nos refresca a cada novo capítulo, novas formas e atmosferas que surgem, enredos que alternam como de forma camaleónica, são o que fazem de forma perfeita este género, que resulta totalmente, mesmo com momentos de poucas ou nenhumas falas, apenas atmosfericamente falando, o olhar do espetador é preenchido por coreografias perfeitamente criadas, numa narração visual, repetidamente com efeito, em tons sérios, numa palete de humor, imaginário e satisfação que impressiona, e expõem o melhor da arte do cinema, lindamente realizado e executado, e por vezes até emocionante, caindo também, no clímax, para a tensão clássica de um filme com cheiro a perfume de época.

O clássico atual, é a marca de poema de amor ao género, por estes irmãos do cinema, que os permite a retaliação de criatividade e vinhetas de exploração, intocáveis na sua maneira de fazer arte, misturando vários tipos de imagem narrativa fílmica, musicalmente e de forma dramática, ao mais negro humor pensável, epicamente existencialista, é uma peça de vigor e força que nos abana, que sobressai nestas duas horas, bem perdidas digamos na sua sala, é esta a notoriedade que este filme afirma e se distingue, até a momentos a sobreluzir, num poço de coleções de momentos, que dificilmente encontrará este ano noutro lado, ou noutro sítio.

Mas mais simplificando, estas seis aventuras de foragidos e colonos da fronteira americana, é simplesmente um filme fantástico, onde a estética em lume brando é devastadora, numa história fácil de seguir, bem contidas e entendíveis, embora pouco interligadas entre si, mas de uma grande visualidade de fabrico, do negro e sombrio lado dos fora da lei do faroeste demonstrador, compreensivamente uma homenagem aos grandes clássicos do antigamente, na ode dos seus contos e odisseias nos faz apreciar, aliado a uma banda sonora estonteantemente misturada, mesmo com mais ou menos bons contos, terá o espetador o veredito final, qual ao fim, o seu mais favorito.

Entre este leque, de curtas e boas histórias, das vidas e mortes nas grandes planícies desérticas americanas, encontra a panóplia mais incrível, em que a primeira, serve o seguimento do herói absurdamente bom pistoleiro, da segunda, de um ladrão de bancos, à terceira, seguimos um ator sem membros, à quarta, um esperançoso explorador de minas de ouro, em que a quinta, nos conta uma mulher numa caravana emboscada, e a sexta e última, a viagem de carroça entre cinco estranhos misteriosos.

Resumindo para concluir, um filme inteligente, bem revelador, com um final entreaberto e muito sugestivo, de estranha criatividade ímpar, um brilhante realismo mágico, contado em contos míticos, soberbamente engenhado, que assombra de um demente genial, satírico e estruturado, como uma nota musical que se digere, que é pautado de entretenimento garantido para os fãs, onde a única crítica que se pode apontar é a frustração, porque pede mais e mais, neste festim de carácter, engendrado muitas vezes de ironia e suavidade, sem excessos de discrição, na mortalidade que o torna especialmente divertido de ver.

Em suma, um quase à Tarantino, ou tanto mais se anda a viciar no jogo de consola da berra Red Dead Redemption 2, vai certamente encontrar semelhanças no filme para jogar, ou apenas assistir à sua melhor conclusão.

Bom filme.

 

7 / 10

 

TÍTULO ORIGINAL: The Ballad of Buster Scruggs
DATA DE ESTREIA: 16/11/2018
REALIZAÇÃO: Ethan Coen, Joel Coen
ARGUMENTO: Joel Coen, Ethan Coen
ELENCO: James Franco, Brendan Gleeson, Zoe Kazan, Liam Neeson, Tom Waits e Tim Blake Nelson
GÉNERO: Comédia, Drama, Musical
PAÍS: EUA
ANO: 2018
DURAÇÃO: 132 minutos

 

 

22 anos. A licenciar-me em Comunicação Social e Cultural. Um futuro Jornalista de Cinema.
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