O primeiro contacto com a segunda longa-metragem da realizadora sino-americana Lulu Wang é através de um ecrã negro. No centro, a frase: “Based on an actual lie.”.
Aquilo com que o espetador é confrontado na próxima hora e meia não poderia ser menos verdadeiro – assim o é, também, pelo caráter íntimo com que Wang escolhe contar a sua história que, apesar de ficcionada, decorre de uma experiência pessoal.
Este “The Farewell” está tão próximo quanto possível de traduzir dinâmicas familiares reais em arte. E, por muito que se sintam as distâncias culturais, a ternura com que somos convidados a experienciar um relato tão privado como o de Wang, transparece, e passamos a fazer parte dele, de uma forma como talvez só o cinema poderia permitir.

Esta história, partilhada pela primeira vez e em primeira mão, pela realizadora no podcast “An American Life”, da estação americana NPR, em 2016, é um drama – e uma comédia – passado nas entranhas de uma família chinesa. A matriarca, Nai Nai (Shuzhen Zhao), é diagnosticada com cancro terminal, mas a família opta por manter a doença em segredo. Em jeito de despedida, é organizado um falso casamento, como pretexto para conviver, uma última vez, com a avó.

No centro da história, está Billi (Awkwafina), a personagem principal. Uma mulher chinesa de 30 anos, que se encontra perdida profissional, financeira e emocionalmente. Aos 6 anos emigrou para Nova Iorque com os pais, desde Changchun, no nordeste da China. Ficamos a conhecê-la, primeiro, através de uma chamada telefónica com Nai Nai, em mandarim (a língua mais falada no filme), e rapidamente nos apercebemos da ligação emocional próxima, apesar da distância que as separa.
Ao longo da primeira parte, outras relações de Billi são exploradas, particularmente a relação com o pai, Haiyan (interpretado por Tzi Ma) e com a mãe, Lu Jian (Diana Lin). O esforço feito por estes pais, para que a sua filha pudesse usufruir da classe média americana, de um ensino e de uma vida melhor, parecem pesar e, ainda que este esforço tenha sido feito com amor, ele esconde-se atrás de uma tensão acumulada no seio familiar – entre pai, mãe e filha.
A decisão de esconder o cancro à avó perturba Billi e, por acréscimo, a vontade da família para que ela permaneça nos Estados Unidos em vez de viajar até à China para se despedir, parece ficar marcada na apatia de uma viagem de metro ou de uma festa de aniversário. As emoções à flor da pele – explicadas pela mãe através da americanização de Billi – são o motivo para que seja impedida de ver a avó, ainda que haja um esforço tão grande para as esconder em sorrisos falsos, fruto das circunstâncias.

Apesar da vontade da família, Billi acaba por viajar até Changchun.
Quando chega, entramos com ela numa casa chinesa – que poderia, com as devidas diferenças, ser uma casa portuguesa, ou americana, ou qualquer outra casa onde existisse uma família. Pais, filhos, netos, tios, primos, todos à volta da mesa de jantar, ficam surpreendidos com esta presença, mas, seguindo a avó, recebem Billi entusiasticamente – mesmo que isso signifique dizer-lhe que não está assim tão magra. Afinal, este é um momento feliz, onde os emigrados na América e no Japão e os que ficaram na China se reencontram, para celebrar um casamento.
Existe um amor incondicional na casa, mas existe também um passado e um presente, que, adicionados a uma desconfiança entre os membros da família em relação à capacidade para manter o engano – uma desconfiança geral, de todos para todos – alimenta a tensão.
Grande parte do filme fará o espetador acompanhar o dia-a-dia desta família, focando-se, particularmente, na relação de Billi e Nai Nai, mas também nas relações entre os outros familiares. Mesmo que não haja tempo de ecrã suficiente para que todas as personagens possam ser totalmente desenvolvidas, ele está bem desdobrado, para que não haja uma distância demasiado grande entre a história e a plateia.
Acompanha-se Nai Nai na tarefa de preparação do casamento onde está presente a vontade para que ele corresponda às expetativas sociais, mesmo que elas sejam tão locais como o pequeno bairro onde mora. Existem preocupações com as refeições, com as fotografias, com as caras de cansaço ou com uma fraca fluência no mandarim.
Se, por um lado, a matriarca está totalmente dedicada na preparação do casamento, o resto dos descendentes preocupa-se em manter o disfarce, tentando usufruir dos momentos que passam, sem que sucumbam à vontade de assumir a verdade.
Ao longo do filme, são vários os momentos em que o espetador, por saber da artimanha, se apercebe de gestos, de palavras e de olhares culpados, ou apenas confessionais, e de tudo o mais que possa ser substituto de uma despedida mais sincera.

A parte final da história, do casamento e da viagem de regresso a casa, é completada por uns derradeiros minutos tocantes e reveladores. As personagens desenhadas por Wang e, em particular Billi – que, no fundo, é a Wang do ecrã –, estão cada vez mais cientes do tempo que escasseia.
A necessidade de controlar as emoções aumenta mas, por vezes, o peso desse fardo é substituído por felizes momentos de aproveitamento total de algo que está a chegar ao fim.

Existem vários temas que são tocados pela realizadora: o choque cultural, a moral, a mortalidade, a distância, a humanidade. As emoções que se mostram e as que têm de se guardar. Aquelas que não se controlam quando explodem e as que, mesmo que se queira, não têm como vir ao de cima. Tudo isto, de certa forma, idiossincrático dos conceitos de família e de relação.

Mas, “The Farewell” não é só uma boa história. É uma boa história bem contada.
Nos aspetos técnicos a obra de Wang também não desilude: muito boas interpretações, desde Diana Lin e Tzi Ma, até Shuzhen Zhao (que tem, sem dúvida, uma propensão para ler os tempos, seja em comédia, seja em drama), passando por uma Awkwafina que, num menos habitual contexto dramático, interpreta uma pessoa como qualquer outra, a lidar com um luto (antecipado) – quando era exatamente esse o papel que precisava de desempenhar.
A fotografia, maioritariamente pálida, mas pertinente – cultural, estilística e contextualmente –, é de Anna Franquesa Solano. Algumas cenas, como a conversa entre Billi e Nai Nai durante a sessão fotográfica dos noivos, ou uma outra, particularmente humorística, durante uma tradicional visita ao cemitério, ficam na retina pela beleza real com que são apresentadas.
O guião, também assinado por Lulu Wang, é executado com uma destreza de louvar, pela qualidade, mas também pela forma como faz as transições de inglês (o sua idioma principal) para mandarim, atendendo às enormes diferenças entre as duas línguas.

Este é um filme que passa rápido. Talvez isso aconteça pela proximidade com a história, onde as personagens sentem a areia que vai escorregando pela ampulheta, à medida que tentam adiar a chegada de uma despedida inevitável.
Ainda assim, apesar da tristeza inerente aos factos, a genuinidade e o afeto com que são apresentadas as imagens e, através delas, as emoções, transmitem uma sensação de reconforto, uma familiaridade que não estranha as distâncias culturais ou pessoais.
À medida que o táxi onde Billi inicia a viagem de volta a Nova Iorque se afasta, vê-se a avó a acenar, cada vez mais longe. Mas percebe-se que todas estas vicissitudes fazem parte da vida, que traz e que tira, que vai e que volta, que começa e acaba.