Podemos passar a chamar a esta saga “David”? A sério. Michael Fassbender é a personagem mais aterradora desta nova fase da franchise Alien e não é coincidência nenhuma que a mais inquietante das fotografias promocionais do filme seja David sentado à frente de um piano de cauda. Os xenomorfos nem lhe chegam aos calcanhares. Ainda que Covenant tenha mais das criaturas infernais de H. R. Giger do que algum filme do Alien tenha tido, eles são praticamente paisagem quando comparados ao sinistro monstro pós-humano de Fassbender.

Dez anos passaram desde que Elizabeth Shaw e a equipa do Prometheus desapareceram no espaço profundo sem deixar rasto. Uma nave cheia de colonizadores em direcção ao planeta Origae-6, depois de um acidente no percurso (A sério, qual foi a ideia de pendurar cápsulas com pessoas como num estendal?), decide desviar a sua rota para um planeta próximo que também tem boas condições de habitabilidade. Filmada no Milford Sound na Nova Zelândia, este planeta é uma casa assombrada com 12 mil quilómetros de diâmetro. Rodeado de incessantes tempestades que dificultam a descida e a comunicação, totalmente vazio de vida animal, com plantas que lançam esporos assassinos, imensa fauna xenomórfica e uma cidade maldita pejada de cadáveres, este planeta é um verdadeiro parque de horrores do qual os nossos heróis têm de conseguir fugir, antes que se tornem comida para alien.

Um parque de horrores é também uma boa descrição para Alien: Covenant, simplesmente porque existem tantas maneiras de morrer diferentes e há tão pouco tempo para as registar a todas. Covenant é a irmã galdéria de Prometheus, mais ou menos ao mesmo nível intelectual, um pouco menos original, mas bem mais interessante em festas. Ao contrário de Prometheus, que apesar dos seus momentos mais estúpidos, tinha um mistério e uma perversidade que o elevam acima de muito do terror mainstream actual — a cena da cesariana continua tão aflitiva hoje como há cinco anos atrás —, Covenant está melhor pensado para ser um filme divertido de se ver no cinema. Ter John Logan a escrever o argumento também ajuda e Covenant está pejado de pequenos momentos loganianos que dão personalidade ao filme, como uma agradavelmente gratuita cena de sexo interrompida por um xenomorfo. Por outro lado, a sua história, as suas personagens, os seus sustos, são bastante mais mundanos do que em Prometheus. Na verdade, apenas Michael Fassbender, Katherine Waterstone, Billy Crudup e Danny McBride, finalmente elencado fora do seu género, têm direito a trabalhar personagens. Todo o resto do elenco — incluindo o pobre Demián Bichir cuja personagem se resume a ser straight gay — é totalmente esquecível, porque a única coisa memorável acerca da sua existência são as bastante elaboradas sequências de morte.

Não é novidade nenhuma que Ridley Scott já passou o seu auge. Apesar da facilidade testada com que Scott é capaz de financiar e filmar um blockbuster, muitas das vezes ao longo da sua obra recente sentimos que a verdadeira euforia cinematográfica já está além daquilo que Scott é capaz de dar. Neste filme, isso não é diferente. As sequências de suspense estão bem feitas, mas as setpieces de que o filme depende estão coreografadas e filmadas sem grande entusiasmo. Numa sequência e luta Fassbender atira repetidamente pessoas contra a parede. Noutra setpiece envolvendo Waterston, um xenomorfo e uma nave de carga a levantar vôo — o único momento em Covenant que a acção pode de facto roçar a transcendência — Scott parece estar já demasiado perro para conseguir dar a sensação de perigo e posição que a cena precisava. Como filme de terror que lentamente vai introduzindo elementos de acção, Covenant continua a ser empolgante, ainda que nunca seja notável.

Assim sendo, é um filme para as suas estrelas brilharem e nenhuma brilha mais que Fassbender. O assustador reside no total controlo da sua linguagem corporal, no tom calmo e sussurrado que Fassbender usa e que contrasta com a impassibilidade sociopata do seu olhar. Mesmo que a narrativa nunca o leve a lugares surpreendentes, esta de certeza que será uma das melhores performances do ano. Uma de duas, aliás, tendo em conta que Fassbender se encontra no filme também como Walter, uma versão melhorada e um pouco menos independente que David e que partilha do mesmo controlo corporal, mas soa um pouco mais humana. Num único trick shot surpreendente que deve ter sido dificílimo de conseguir, Scott mete Fassbender a contracenar cara-a-cara consigo mesmo, inclusive a tocar uma flauta a quatro mãos. É hipnotizante, uma das melhores cenas do filme e é quase uma pena que David e Walter tenham de quebrar a tensão gerada para se deslocarem para outro cenário.

Ao lado de Fassbender, o resto das interpretações reduzem-se à sua mundanidade. Covenant é um excelente momento para Danny McBride provar que consegue ser mais que o tipo que grita em filmes do Seth Rogen, e ele não desperdiça a oportunidade. McBride continua a ser um cowboy, mas já não é uma caricatura, há pathos discreta no seu papel e McBride, que sempre teve aspecto de sujidade, torna-se um dos mais surpreendentes protagonistas da série. Por outro lado Katherine Waterston desde Inherent Vice que tem tido dificuldade em encontrar um outro argumento ao seu nível, e em Covenant ela tem a pouco invejável tarefa de calçar os sapatos de Sigourney Weaver. Waterston parece ter sido uma daquelas raparigas incapazes de dar um desgosto aos seus pais. A sua presença é vivida, mas profundamente doce. Não tem a dureza de carácter que Weaver ou Noomi Rapace têm e que dá credibilidade às suas capacidades de sobrevivência. Se Waterston alguma vez tivesse estado a bordo da Nostromo, teria sido uma das primeiras a morrer. É uma estranha situação a da actriz. Ela parece, por um lado, estar acima do filme em que está, e ao mesmo tempo, também parece estar totalmente fora de pé num filme de terror como este.

A verdadeira desilusão de Covenant é a perfeitamente anónima banda sonora de Jed Kurzel, que compôs a extremamente memorável banda sonora de Macbeth. O compositor australiano parece não ter tido tempo para compôr uma banda sonora após da partida de Harry Gregson-Williams de Covenant. Depois dos ameaçadores acordes de Jerry Goldsmith e da melodia solene de Marc Streitenfeld, o trabalho de Kurzel empalidece pela sua falta de substância e só funciona quanto cita abertamente os temas passados, o que é uma pena para aquele que, depois de um showstopper como a sua banda-sonora para o Macbeth, parecia ser um dos mais promissores compositores de música para filmes desta década.

Mais do que qualquer coisa, Alien: Covenant é exactamente aquilo que parece ser. Depois da terrível desilusão que os fãs da franchise tiveram com Prometheus, um filme que não é de todo mau mas cuja campanha de marketing prometia um filme muito mais assustador do que aquele que de facto saiu, os cabeças de estúdio pressionaram para que o filme seja exactamente aquilo que uma pessoa pensa que ele vai ser. O que é facto é que Covenant não peca por ser um filme mal feito, peca por não ter surpresas. Como é realizado por Ridley Scott, continua a ter um look impecável, mas é finalmente o primeiro filme do Alien que não empurra as expectativas daquilo que um blockbuster pode ser. À medida que o terceiro filme de Prometheus se aproxima dos ecrãs apresenta-se uma decisão a ser feita: poderá esta terceira sequela voltar a ser um evento como foram os filmes anteriores? Ou passará a ser mais uma das franchises mastigadas que passaram a ser a norma no Verão? O tempo dirá.

António Mendes é Editor de Cinema no 8.5Bits | antoniomendes@8dot5bits.com