Ad Astra é o tipo de filme que me faz querer escrever sobre cinema. Quando termina, não termina a experiência. Deambula um pouco mais nos meus pensamentos enquanto os créditos rolam, enquanto guio para casa e finalmente enquanto escrevo esta crítica.

Pela primeira vez saio fora do campo das adaptações e vou escrever sobre um filme que conta apenas com as suas 2 horas de duração para me contar a sua história. O primeiro critério que utilizo habitualmente não se aplica aqui (se é uma boa adaptação), já o segundo, o filme cumpre com o que se propõe? Será que Ad Astra é o smart sci-fi que aparenta o seu poster?

Sobre o filme não sabia nada quando entrei na sala de cinema tinha apenas visto o poster. A roupa de astronauta do actor principal, Brad Pitt, deixava vislumbrar que se tratava de ficção científica. A tag line confirmava “As respostas que procuramos e que estão fora do nosso alcance”.

O bom Sci-fi debruça-se sobre a condição humana, quem somos nós, de onde viemos e para onde vamos. Toda a fantasia que rodeia estas questões está lá para as intensificar e fazer parte do exercício criativo. Este filme que embora lide com o espaço e exploração do Universo acaba por ser uma viagem ao interior de um homem e das suas motivações. 

Brad Pitt carrega literalmente o peso do filme e ao longo da história vamos estar e conhecer este homem na sua jornada interior e exterior. O actor veterano deixa nos aqui uma prestação intensa daquelas que costuma cair no “goto” da academia dos Óscares. 

Este é o segundo ponto importante do filme. O astronauta Roy é a nossa âncora ao filme, por isso se não nos conseguirmos colocar nos pés do protagonista o filme pode não resultar. Não é um filme cuja experiência possa ser satisfatória com base apenas nos efeitos especiais ou no simples acompanhamento da aventura ali vívida como se de um espetáculo distante se tratasse.

Destaco a direção de de fotografia que ao longo de todo o filme mantém o suspense elevado e filtra o olhar do espectador, alternando suspense, com sátira e intensidade emocional. A mistura de som é também uma agradável surpresa pela utilização do silêncio.

Nem tudo é perfeito no filme existem alguns mecanismos ali colocados que podem fazer sentir que se está a assistir a uma história escrita por alguém e é aqui talvez que este drama perde alguma força.

A paternidade sendo um dos eixos da trama em momento algum é justaposta à maternidade, sendo talvez por isso um filme muito masculino em perspectivas e opiniões (Aqui talvez fosse bom contar com uma opinião feminina). Num filme sobre a vida, a paternidade faltam mulheres e perspectivas femininas. Sacrificaria de bom grado alguma da ação para ter mais personagens femininas desenvolvidas. Mas entendo o compromisso que o filme tenta estabelecer.

Um bom filme, com bastantes questões para pensar, excelente desempenho do actor principal e fotografia desafiante, actuação de Óscar e inquietastes silêncios. Cede no entanto à total masculinidade quando insere cenas de ação e não desenvolve as mulheres aqui presentes.