Está acontecendo até domingo, 15 de setembro, a 13ª edição do MOTELX – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa – e tamanha foi minha surpresa ao saber que “Bacurau”, o mais novo filme dos realizadores brasileiros Kleber Mendonça Filho e Juliano Dorneles estaria entre as longas exibidas. Entretanto, após assistir o filme, é possível reconhecer o gênero de horror presente não somente na sua estética mas, também, em sua narrativa e temática. 

Coloco neste momento, um aviso para a presença de SPOILERS nesta análise! E acredite quando eu digo: vale a pena assistir este filme sem saber ao certo o que esperar dele. 

Análise | Bacurau (Com Spoilers)

“Bacurau” trás consigo um mix de western e terror, para nos contar a história dos moradores de um pequeno povoado do sertão brasileiro, num “futuro próximo”. O acontecimento que instiga o início do filme é a morte da matriarca Dona Carmelita, 94 anos, razão pela qual sua neta Teresa (Bárbara Colen) retorna ao povoado e, junto com ela, descobrimos a dinâmica do local. Trata-se de um lugar bem pobre, com escassos recursos apesar da enorme mata verde que o cerca. Incoerências continuam ao vermos que acesso a internet, telemóveis e até quadro multimédia para a escola local, não faltam. Entretanto, falta água (controlada pelo prefeito da cidade), medicamentos e alimentos em alguma medida.

Bacurau (2019)

O velório de Dona Carmelita, ainda nos serve de pretexto para sabermos mais sobre a população que lá vive, pois entre seus filhos e netos que se espalharam pelo mundo há todo tipo de gente: médico, arquiteto, jornalista, professor, puta e michê, só não há ladrão. Esse é o reflexo do povo de Bacurau. 

Coisas estranhas começam a acontecer quando um drone com aspecto de disco voador aparece sondando as estradas para a cidade. Um casal de trilheiros do sul do país surge do nada para logo irem embora, sem razão aparente; o sinal de wifi de toda a cidade é interrompido; um fazendeiro e toda sua família são brutalmente assassinados, e a morte começa a aterrorizar todos. Tudo isto faz parte de um plano de acção de um grupo de gringos – ao qual o tal casal queria sentir-se parte, mas não são “realmente brancos” para tanto – que participam de um jogo de caça ao “sub-humanos” de Bacurau.  

Mas o povo resiste. Seja homem, mulher, velho, novo, lésbica, gay, criminoso ou devoto. O povo inteiro de Bacurau se une para lutar contra a matança dos estrangeiros. 

Wilson Rabelo, Danny Barbosa, and Barbara Colen in Bacurau (2019)

Para quem não é brasileiro, ou não tem nenhum tipo de relação com os acontecimentos dos últimos anos e situação política do país, o filme para aqui. Uma trama bem digna de qualquer filme-B de horror, com uma pitada de Sergio Leone. É divertido, ótima estética e trilha sonora, momentos de surpresa, humor… enfim, o pacote completo. Mas de verdade, isso é o que menos importa neste filme, pois o que realmente interessa está nas entrelinhas de suas imagens e diálogos. 

A começar pelo o nome do lugar. Bacurau é lugar nenhum e, por isso mesmo, vários lugares do Brasil. É o sertão esquecido e desprezado pelas cidades ricas do país. É o lar das minorias “que não deveriam existir”. É a favela que está à margem da sociedade com suas próprias regras e onde os “alemão” são invasores que vieram exterminar. “Alemão” aqui nada mais é do que uma palavra bonita para não dizer “polícia”. 

Udo Kier in Bacurau (2019)

Será que estou exagerando? Então que tal voltarmos a alguns acontecimentos recentes do país? Crianças se escondendo na escola para se proteger de tiroteios; mãe exibindo a roupa do seu pequeno e inocente filho morto; políticos tratando turistas como reis e oferecendo livros velhos, em caminhão de lixo, a sua população; a água que antes era abundante e agora foi “roubada” (rio São Francisco); o herói que “fez mais mal do que bem”. Aposto que tudo isso soa familiar com diversas notícias que vários brasileiros já leram por aí.

Barbara Colen in Bacurau (2019)

Se em suas críticas sociais “Bacurau” não é nada sutil, a história muda quando olhamos para suas personagens. Domingas (Sônia Braga) é uma enfermeira que cuida de todos ali, mas é alcoólatra e um terror quando bebe; Acácio (Thomas Aquino), é protetor e chora a perda dos amigos assassinados, mas carrega uma história de vários crimes; e todos ali ficam preocupados quando a prostituta é levada contra sua vontade pelo prefeito da cidade. Os moradores de Bacurau podem ser vistos como a escória da sociedade, mas é apresentando suas relações – muitas vezes mais solidárias e respeitosas do que poderíamos imaginar – que o filme consegue humanizar essas pessoas e nosso olhar sobre elas. Porque, afinal de contas, quem nasce em Bacurau “é gente”.