Meio ano após o seu inovador filme interativo, Bandersnatch, Black Mirror estreou três novos episódios na plataforma da Netflix, no passado dia 5 de Junho, todos escritos, como é hábito, por Charlie Brooker.

Striking Vipers é o título do primeiro capítulo, que continua a explorar o impacto exasperante que a tecnologia tem no quotidiano dos humanos. Retrata a mundana vida de um casal, Danny (Anthony Mackie) e Theo (Nicole Beharie), cujo casamento sofre um grande revés quando um dos seus amigos de longa data, Karl (Yahya Abdul-Mateen II) lhe oferece um jogo de realidade virtual pelo seu aniversário.

Brooker assume uma abordagem rara, mas já utilizada em Black Mirror, onde a problemática levantada pela utilização do elemento futurista ou tecnológico é praticamente atual e intemporal. Danny e Karl assumem o corpo de duas personagens no jogo – largamente inspirado em Mortal Kombat e Tekken – e revivem as noites passadas colados ao ecrã a diveritrem-se com Striking Vipers. Contudo, estes acabam por se envolver, inesperadamente, no mundo virtual, enquanto os lutadores Lance (Ludi Lin) e Roxette (Pom Klementieff).

A sexualidade e a identidade pessoal são retratadas de forma surpreendente, mas com a habitual frontalidade sarcástica do autor. Charlie Brooker consegue jogar bem com essa situação ao cruzar o campo real com o virtual para trabalhar o desenvolvimento das personagens num curto espaço de tempo. Sabemos que houve uma relação física. Contudo, também sabemos que não houve nada diretamente entre ambos – o que lança a dúvida entre atração mútua ou uma fantasia quase pornográfica para saciar desejos inatingíveis na realidade. Esta combinação metafórica entre universos paralelos serve como veículo do objetivo do episódio e, ainda que possa ser demasiado grotesco para público mais sensível, a sua ousadia consegue endereçar a questão da orientação sexual e satisfação pessoal numa nova perspetiva, enquanto abrem caminho para outro tema.

O delírio carnal presente no universo do vídeo jogo rapidamente se transforma em constragimento e dúvida na vida mundana de Danny, que começa a distanciar-se da sua esposa, grávida do segundo filho. É de realçar a facilidade e naturalidade com que estes temas se encaixam numa narrativa que explora uma problemática que, apesar de acentuada pela utilização da tecnologia, não é dependente desta para se realizar. A vulnerabilidade das relações humanas sempre foi assunto de debate e o real valor da palavra e a respetiva lealdade são exibidas de forma bastante realista – enquanto contrapõe o conteúdo fantasista do capítulo e da série em si.

Ainda que possa haver algumas variações de ritmo na narrativa que a tornam, a certa altura, algo desestruturada, esta volta-se a encontrar perto do clímax, onde Charlie Brooker utiliza um desfecho pouco convencional e que desafia quaisquer tabus.

Danny e Karl encontram-se às escondidas e apercebem-se que não existe paixão entre ambos, mas sim um peculiar desejo por um prazer inalcançável no mundo real, também partilhado por inúmeros jogadores de Striking Vipers. No entanto, a obsessão de Karl com as relações entre personagens do jogo faz com que se envolva – e os produtores trabalharam bem o suspense nesta transição – numa luta com Danny, agora sem adereços virtuais. Os dois acabam por ser escoltados à esquadra, onde Theo é chamada para soltar o seu marido, que lhe finalmente conta a verdade que omitira.

O resultado é um final ambíguo, mas ao mesmo tempo explícito, que se pode considerar tanto como fechado, como aberto. Brooker tem a capacidade de polarizar a audiência de Black Mirror, e Striking Vipers é um bom exemplo disso. Em cada dia do seu aniversário, Danny tem carta branca para se aventurar com Karl nas suas fantasias virtuais, enquanto Theo pode envolver-se com um homem que quiser. Um assunto moderno, tratado de forma moderna e com a bravura de poder contrariar as convencionais aparências que mascaram a dor e a infelicidade.

Striking Vipers é provavelmente um dos episódios mais humanos e naturais de Black Mirror. A nova temporada tenta desafiar-se e encontrar um meio termo entre a premissa da série e a vontade de diversificar o conteúdo dos argumentos. Apesar de não ser um capítulo brilhante, nem para todos os gostos, Charlie Brooker consegue expressar as suas ideias fruto das interpretações do elenco que passam a pente fino o nosso instinto selvagem – e a lubricidade que dele advém.

Avatar
Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)