Desde que o aclamado escritor norte-americano Stephen King escreveu, em 2013, a continuação de um dos seus mais famosos livros, ‘The Shining’ (por cá traduzido como ‘A Luz’ ou mantendo o nome original), ficou clara a intenção da Warner Bros em produzir uma adaptação para filme. A sequela, ‘Doutor Sono’, revestia-se de maior interesse para o estúdio em virtude do sucesso e prestígio que ‘Shining’, o filme dirigido por Stanley Kubrick em 1980, ocupa na história da sétima arte. O projecto só não avançou mais cedo por dificuldades de financiamento, que o êxito do remake de ‘It’ (curiosamente outro filme baseado numa obra de King) veio suprimir. O cineasta Mike Flanagan, com uma carreira ainda jovem mas já com diversos filmes de terror interessantes no seu currículo, foi contratado para adaptar o argumento e realizar o filme.

 

Ainda irrevogavelmente marcado pelo trauma que sofreu quando criança no Hotel Overlook, Dan Torrance (Ewan McGregor) tem lutado para encontrar uma vida pacífica. Essa paz é abalada quando ele comunica telepaticamente com Abra Stone (Kyliegh Curran), uma adolescente corajosa com o seu próprio dom sobrenatural poderoso, conhecido como “brilho”. Reconhecendo instintivamente que Dan compartilha o seu poder, Abra parte à sua procura, desesperada pela sua ajuda contra a impiedosa Rose the Hat (Rebecca Ferguson) e os seus seguidores, o Nó Verdadeiro, um estranho culto de seres que se alimentam do “brilho” de inocentes em busca da imortalidade. Formando uma aliança improvável, Dan e Abra envolvem-se numa brutal batalha de vida ou morte com Rose e a sua tribo. A inocência de Abra e a confiança no seu “brilho” obrigam Dan a recorrer aos seus próprios poderes como nunca antes – enfrentando ao mesmo tempo os seus medos e despertando os fantasmas do passado.

 

 

‘Shining’, o filme, resultou do encontro entre dois mestres nos seus respectivos ofícios, Stephen King e Stanley Kubrick. Se King escreveu uma obra literária de horror notável e repleta de analogias autobiográficas, Kubrick pegou no material de origem e tomou inúmeras liberdades criativas, transformando o livro num filme magistral e com uma atmosfera de terror psicológico muito própria. King nunca escondeu o seu descontentamento acerca da pelicula de Kubrick e de como este “adulterou” elementos da história da família Torrance e da mitologia do próprio Overlook, tendo até avançado como produtor executivo de uma medíocre mini-série, ‘A Luz’ (1997) que, apesar de se manter muito mais fiel à obra literária, nem sequer beliscou o brilho do filme do já falecido realizador. O que fazer então com ‘Doutor Sono’, quando se trata da sequela de um filme com quase 40 anos e com tantas diferenças relativas à obra literária em que foi baseado?

 

‘Doutor Sono’ consegue afirmar-se como uma sólida obra de terror sobrenatural especialmente quando se foca na ameaça do culto do Nó Verdadeiro e no confronto com a dupla Dan e Abra. Sem recorrer praticamente a artifícios tão corriqueiros nos filmes de terror actuais como jump scares e efeitos especiais exagerados, Flanagan logra manter o espectador focado na história, ao mesmo tempo que oferece uma reflexão sobre temas pertinentes como o alcoolismo e a sua recuperação (notas autobiográficas do próprio King), a relação com a morte (Dan encontra trabalho numa unidade de cuidados paliativos, onde o seu dom extra-sensorial lhe vale o epiteto de “Doutor Sono”) e o sentido de responsabilidade (da qual o protagonista teima em fugir). Os problemas começam quando o realizador decide abraçar o pesado legado do filme antecessor mas o facto de, ainda assim, o filme aguentar-se como um todo é um reconhecimento da imaginação de Stephen King e do esforço de adaptação de Flanagan.

 

Ewan McGregor, actor de créditos firmados, está sólido como “Danny” Torrance e conduz competentemente o filme, embora sem grandes rasgos dramáticos. A anglo-sueca Rebecca Ferguson é a antagonista Rose, que encarna aqui o mal como belo e sedutor e não propriamente como aterrador. A jovem Kyliegh Curran é uma das boas surpresas pela sua prestação como a corajosa Abra. Uma palavra ainda para o esforçado trabalho dos actores chamados para interpretar várias personagens do filme original, algumas com recurso a flashback, com destaque para Carl Lumbly no papel de Dick Hallorran, originalmente interpretado por Scatman Crothers. Já a Henry Thomas (o eterno Elliot de ‘E.T. – O Extra-Terrestre’) coube a árdua tarefa de “reencarnar” a célebre personagem de Jack Nicholson numa pequena cena. Os irmãos Newton realizam um bom trabalho no que diz respeito à composição musical, adaptando algum do trabalho original de Wendy Carlos e Rachel Elkind, nomeadamente o célebre e arrepiante trecho inicial de ‘Shining’.

 

Mike Flanagan teve a árdua tarefa de tentar conciliar todo o material anterior, literário e cinematográfico, de modo a que a ‘Doutor Sono’ respeitasse os acontecimentos passados mas que também pudesse funcionar como um filme autónomo. Infelizmente, isso nem sempre é bem conseguido, especialmente no terceiro acto, em que são visíveis largas incongruências entre livro e filme original e as referências aos mesmos são inúmeras, deixando um espectador que não tenha previamente visto ‘Shining’ sem perceber o significado mais amplo de algumas imagens e sequências. A última meia hora do filme funciona quase como uma carta de amor por parte de Flanagan à obra de Kubrick no regresso ao místico Hotel Overlook “atraiçoando” King em favor do universo cinematográfico criado pelo cineasta, reconhecidamente mais popular entre o grande público. É certo que Flanagan não é Kubrick nem tão-pouco McGregor é Nicholson, no sentido de conseguir carregar um filme com tamanho carisma, mas ‘Doutor Sono’ merece uma oportunidade, mesmo que não “brilhe” tanto e que por vezes possa parecer apenas uma “assombração” da sua mítica prequela.