“O que aconteceria se uma comunidade capaz de recriar um computador funcional dentro de um jogo com blocos, tivesse acesso a um sem fim de ferramentas num motor de jogo aberto à criatividade?

Acontece ‘Dreams’.”

Já desde os anos 80 que Alvin Toffler anunciava o nascimento do prosumer (o consumidor que é produtor), e cada vez mais estamos habituados a desempenhar este papel ou a beneficiar dele. Wikis, Mods ou o YouTube, não existiriam, pelo menos da mesma forma, sem utilizadores/criadores dedicados. Dentro dos videojogos, mesmo com as mais simples ferramentas fornecidas, geram-se comunidades criativas que produzem resultados espantosos (Minecraft, VR Chat, e mesmo Little Big Planet da Media Molecule). Cidades de fantasia recreadas, mini-jogos e tecnologia desenvolvidos dentro do jogo, ou obras de arte surpreendentes são frequentemente notícias com arregalar de olhos: – “Fizeram O QUÊONDE?”.

O que aconteceria se uma comunidade capaz de recriar um computador funcional dentro de um jogo com blocos, tivesse acesso a um sem fim de ferramentas num motor de jogo aberto à criatividade? Acontece “Dreams”.

Dreams não é um jogo, verdadeiramente falando. É uma plataforma que permite criar de raiz pinturas e esculturas digitais, música, obras cinemáticas, ou mesmo combinar tudo isto num jogo. É também a plataforma que o permite partilhar, colocando à disposição do jogador milhares de experiências para todos os gostos.

Dentro deste universo de possibilidades, a melhor forma de começar é pelo “Art’s Dream”. É o que poderia ser considerado o “modo história” do jogo, com duas a três horas de conteúdo criado pela Media Molecule utilizando as próprias ferramentas de Dreams. Conta a história de um músico de Jazz e a sua luta contra as próprias inseguranças. Através de secções surreais em estilos e géneros de jogo diferentes, desde o point-and-click ao platforming, de twin-stick-shooter até conduzir um carro voador, é uma demonstração do que é possível criar com as ferramentas disponibilizadas.

É psicologicamente pesado no tema, lidando com os problemas emocionais do protagonista, mas divertido na execução, com humor e jovialidade na jogabilidade.

Mas esta pequena aventura oferecida pela Media Molecule é apenas a ponta do icebergue no que toca ao Dreamsurfing. Durante o período beta de Dreams já muito conteúdo foi criado, e está disponível para jogar apenas em dois cliques, a partir de uma lista interminável, mas filtrável por categoria, popularidade, conteúdos semelhantes ou listas de curadoria.

Desde pequenos filmes onde não temos agência, até pequenos RPG’s, o Dreamverso tem um pouco de tudo. Jogos de corridas de karts, puzzles, first person shooters, tower defense, souls-like e muitos mini-jogos cheios de humor. Tudo que alguém se possa lembrar de criar. Claro que a qualidade varia entre o desinteressante e não funcional até ao fascinante e capaz de nos prender e fazer voltar à criação mais tarde. O sistema de filtragem pela popularidade ajuda a que encontremos mais do segundo tipo do que do primeiro, mas a entrada e saída dos sonhos é tão fácil e instantânea, que acabamos por não correr riscos em experimentar qualquer um que nos chame a atenção.

Não há jogos que se assemelhem a AAA, pelo menos para já. Para quem se lembra de jogar os discos de demos oferecidos nas revistas de videojogos, o modelo de Dreams traz à memória o melhor da experiência. Uma lista de pequenos níveis dos quais qualquer coisa pode sair, desde um divertido jogo com um pato que só vira para a esquerda, a surpresas que afinal não são assim tão pequenas e se assemelham mais a jogos completos. Este “disco de demos” tem a vantagem de ter uma lista de títulos teoreticamente infinita, graças às constantes novas criações da comunidade.

O jogador que quer fazer parte dessa comunidade de criadores é ainda mais o público-alvo, que no modo “moldar sonhos” pode dar asas à imaginação.

“Aprender é uma tarefa divertida e cativante em Dreams.”

A navegação, manipulação dos ambientes e as ferramentas (pintura, escultura, criação de som e efeitos, animação, ou lógica de programação) estão construídas para serem acessíveis, mas atingem tanta complexidade quanto o utilizador estiver disposto a aprofundar. Existe uma miríade de tutoriais de complexidade crescente para aprender a trabalhar com todas as ferramentas, que são apresentados de forma interessante e gamificada. Com um vídeo a acompanhar, um cenário é apresentado, onde cada passo de aprendizagem é repetido por nós como resposta a um problema ou pedido de uma personagem. Aprender é uma tarefa divertida e cativante em Dreams.

A nossa progressão nos diferentes ramos de ferramentas é também alimentada por listas de missões que sugerem novos desafios.

Mas é aqui, no lado da criação, que também entra a magia da partilha de Dreams. Para além dos modelos base fornecidos pela Media Molecule, objetos criados por outros jogadores podem também ser por eles disponibilizados para serem utilizados e modificados. Basta ir procurar, por exemplo, um olho para o meu personagem, uma porta, uma divisão, uma nave espacial, uma música, um som ou iluminação ambiente, um mecanismo com lógica já programada, ou um sonho inteiro que podemos alterar a gosto.

Os controlos pré-definidos utilizam o sensor de movimento do comando para simular um foco que apontamos ao ecrã para controlar um cursor. É um sistema que requer alguma habituação, mas que acaba por ser bastante intuitivo e prático num sistema que requer navegar rapidamente entre grandes quantidades de opções e informação. Existem, no entanto, esquemas alternativos, utilizando os analógicos ou um conjunto de comandos Move.

Dreams não é um jogo, mas é um produto que faz tudo o que ambiciosamente se promete a fazer, e fá-lo com qualidade, elegância e diversão. O seu futuro e o patamar de qualidade que os jogos lá criados podem atingir depende dos utilizadores, mas a plataforma apresenta grande potencial.

REVER GERAL
Dreams
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Amante de histórias em todas as formas: escritas, no pequeno e grande ecrã, ou exploradas com um comando de videojogos na mão.