Erica é uma aposta diferente da PlayStation, mais âncorada no contexto de história interativa. Num regresso a clássicos culturais como as histórias de “escolha a sua própria aventura” e videojogos com cenas filmadas com atores reais, este título não pode deixar de lembrar o recente e popular episódo de Black Mirror: Bandersnatch.

Em formato de filme interativo, seguimos a história de Erica, uma jovem com um passado traumático que volta para a assombrar. Depois do assassinio do seu pai quando era pequena, deixado com um misterioso símbolo gravado no peito, vê-se de novo envolvida no caso quando alguém que se suspeita ser o mesmo atacante volta a matar.

“O enredo misterioso vai sendo revelando através das nossas escolhas, interagindo com personagens que têm acesso a partes diferentes do puzzle.”

Levada, por motivos de segurança, para o hospital que o pai fundou com um colega, descobre que a sua vida está profundamente relacionada com o local e tudo o que está a acontecer.

O enredo misterioso vai sendo revelando através das nossas escolhas, interagindo com personagens que têm acesso a partes diferentes do puzzle. Apenas ao longo de várias playthroughs percorrendo caminhos diferentes, pode o mistério ser completamente explorado por nós.

A quantidade de informação que reunimos está assim muito dependente das nossas escolhas, e será tanto maior, quantos mais diálogos explorarmos. Os dilemas incutidos à personagem são assim ao mesmo tempo colocados a nós. Eu proprio tive duvidas de qual seria a escolha correta em vários momentos da minha primeira visualização, mas senti-me especialmente ligado à personagem quando num momento chave fiquei tão confuso e hesitante da decisão a tomar como ela.

 O ambiente que mistura um levíssimo toque de oculto e terror com o mistério e exploração está bem conseguido, despertando a curiosidade e a imersão.

Mas enquanto Erica desempenha bem o seu papel nestes aspetos, vai demasiado longe na tentativa de envolvimento do “jogador” na ação. As interações são desempenhados no touchpad do comando da PS4 ou no telemóvel através da aplicação de companhia. Para além das escolhas de diálogo, somos constantemente pedidos para arrastar o dedo no ecrã touch para abrir portas, embrulhos, afastar folhagem e outras ações sobre as quais não temos forma de agir diferentemente.

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Assemelha-se mais a uma tarefa desnecessária para continuar a ver o filme, do que a um sentimento de controlo. A própria seleção das escolhas podia ser melhor realizada, uma vez que nos pede para arrastar o dedo no ecrã como se de um trackpad se tratasse até alinhar o instável indicador com a opção pretendida. É um processo impreciso e lento, que se torna frustrante quando temos que fazer escolhas rápidas.

“Repetir a totalidade das mais de duas horas de filme para ver algumas cenas novas, é uma decisão que pede dedicação.”

A escolha de alinhar a experiência com o formato de um filme, faz com que este só possa ser jogado do início ao fim, sem quaisquer checkpoints ou pontos de salvamento. Assim, apesar de a repetição da história para escolher decisões diferentes ser incentivado pelos criadores e pela narrativa, faz com que cada pequeno ponto que quisermos explorar diferentemente tenha que ser explorado numa visualização diferente. Sendo que não existe qualquer forma de saltar cenas que já vimos várias vezes, nem a miriade de pequenas interações pedidas no touchpad, repetir a totalidade das quase duas horas de filme para ver algumas cenas novas, é uma decisão que pede dedicação.

REVER GERAL
'Erica'
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Amante de histórias em todas as formas: escritas, no pequeno e grande ecrã, ou exploradas com um comando de videojogos na mão.