Ainda que tenha estreado recentemente em Portugal, Jojo Rabbit é, possivelmente, um dos melhores filmes produzidos em 2019. Baseado no livro Caging Skies, de Christine Leunens, Taika Waititi apruma o seu melhor nível satírico para narrar a estória de Johannes “Jojo” Beltzer (Roman Griffin Davis), um petiz fanático nazi, membro da juventude Hitleriana, quando este descobre que a sua mãe (Scarlett Johansson) esconde uma rapariga judia (Thomasin Mackenzie) atrás da parede de um quarto. Acompanhado por uma versão imaginária de Adolf Hitler (Waititi), Jojo vê-se obrigado a repensar as suas crenças quando cria maior intimidade com a sua indesejada nova colega de casa.

O timing de Jojo Rabbit foi oportuno. Vivemos numa era onde é evidente a ascensão nacionalista e uma maior propagação de ódio. Co-existimos, igualmente, com o escrutínio do políticamente correto, muitas vezes utilizado para mascarar certas manifestações exacerbadas de ativismo (que, por sua vez, desvirtuam o real propósito de outras militâncias necessárias). A mensagem transmitida e a forma como esta é conduzida durante o filme prova que ainda há lucidez suficiente para alertar os perigos da atualidade, fazendo uso de humor arrojado, que não encontra limitações à criatividade, também capaz de incentivar o espírito crítico.

Mesmo que não seja correto desculpabilizar um nazi pelos seus atos hediondos, Waititi manipula eficazmente essas personagens para concretizar o objetivo do seu filme – a inclusão e a vida como um estado de liberdade. A relação que o Jojo estabelece com Elsa, a sua hóspede, é uma peça chave para poder desmistificar a desinformação, outro termo recorrente nos dias de hoje, ao, fruto das suas vivências, reconhecerem valores e virtudes, em alguém que julgavam ser um inimigo. Ainda que, para Jojo, o seu mundo fosse restringido ao patriotismo alemão, o seu lado inocente consegue discernir a vertente humana em Elsa e tornar-se amigo de uma judia.

A utilização de uma criança como personagem principal foi uma jogada de mestre, tendo em conta o contexto, bem como a recriação imaginária de Adolf Hitler. A sua inocência favorece o desfecho do enredo e é graças à aliança desse traço com as hilariantes conversas com o seu Führer que Jojo Rabbit consegue desenvolvê-la para criar o impacto pretendido na audiência.

Claro que se deve granjear a imaginação de Leunens, mas não se pode descurar como Taika Waititi adornou o seu tom cómico no guião e diálogos equilibrando com momentos de drama. Revelam-se úteis para veicular o já referido propósito da narrativa e suavizar momentos emocionalmente mais intensos e que possam tocar os mais sensíveis à síndrome cascata nos olhos. Além disso, é também de salientar a interpretação do elenco, que proporcionou maior vivacidade nas personagens e contribuiu para o sucesso na entrega do conceito de Jojo Rabbit.

Scarlett Johansson demonstra porque é das melhores da sua geração no papel de Rosie Beltzer, valendo-lhe uma nomeação complementar ao Óscar de melhor atriz secundária. Também as performances de Sam Rockwell e Rebel Wilson, ainda que com menos pujança, acrescentaram diversão nos momentos certos e contribuíram para fomentar a satirização, bem como a breve aparição do invetavelmente hílare Stephen Merchant. Por fim, o pequeno Roman Griffin Davis, na sua estreia, encanta com a sua argúcia e energia, partilhando uma boa dinâmica com Thomasin Mackenzie, prometendo ambos serem mais outros jovens nomes a seguir no futuro.

Não é um filme perfeito, mas ficará facilmente guardado na memória. O humor de Taika Waititi certamente não agradará a todos, mas a relevância da mensagem e a ternura que a dupla de protagonistas evidencia são inegáveis para a qualidade da narrativa e diversão que proporcia. Vê-lo no cinema foi, igualmente, um regalo e serviu para afastar tumultos da minha última má experiêcia.

REVER GERAL
Jojo Rabbit
8
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Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)