8.5
Muito Bom
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Análise a ‘Kingdom Hearts III’

“Kingdom Hearts III traz mais do mesmo. Mas traz tudo ainda melhor.”

Kingdom Hearts III é o muito esperado terceiro título numerado da série que é quase a definição de nostalgia no dicionário de quem cresceu com os primeiros na viragem do milénio. Mas a história e os protagonistas estiveram longe de ficar parados no tempo, com uma sucessão de jogos em diversas plataformas ao longo dos anos que expandem o lore do universo e desenvolvem a saga que aqui culmina. Até os eventos dos jogos de browser/mobile, passados mais de um século antes, são importantes para compreender a totalidade da história.

Ciente do problema, o jogo fornece várias oportunidades para sumariar e rever os eventos passados. Seja em fantásticos vídeo-resumos num “Arquivo de Memória”; noutro apresentado de forma alegórica antes do ecrã de título; ou repetidamente através de exposição direta no diálogo das personagens durante a história. Apesar destas ajudas, o vasto e complexo enredo desafia qualquer sumário e muitos elementos chave que ficam por abordar são capazes de deixar alguém a coçar a cabeça mais tarde. Este pode ser um obstáculo ao desfrutar da narrativa, tanto para quem é novo na série, como para quem perdeu o fio à meada ao longo dos anos.

“O atar de pontos da história, e as referências a momentos de títulos anteriores são injeções de satisfação e nostalgia para os fãs de longa data.”

A história retoma após os eventos de Kingdom Hearts II e Dream Drop Distance, mantendo o padrão das viagens de Sora e companhia através de vários mundos para frustrar os planos maléficos de Xehanort e das suas inúmeras versões. O espírito único criado pela fusão dos mundos animados da Disney, com os temas mais emotivos e melancólicos da série, também está de volta. O atar de pontos da história, e as referências a momentos de títulos anteriores são injeções de satisfação e nostalgia para os fãs de longa data. Os clichés do poder da luz e da amizade contra a escuridão, e os diálogos infantis fazem parte da experiência, para o bem e para o mal. Afinal de contas, os companheiros de viagem são o Pato Donald e o Pateta.

Kingdom Hearts III brilha na apresentação. Para além da esperada evolução gráfica que torna os modelos das personagens mais realistas, contrastando com as versões mais “quadradas” do passado, o design enche a vista tanto na exploração dos mundos como durante o frenesi dos combates onde habilidades visualmente aparatosas chocam com uma miríade de garridos inimigos.

A trazer ainda mais variedade para este caos controlado no ecrã está a adição de ataques baseados em atrações dos parques de diversões da Disney onde podemos controlar algo como um navio pirata, um escorrega aquático ou chávenas de chá rotatórias para infligir uma grande quantidade de dano. Estas opções surgem após atacar alguns inimigos selecionados que surgem ao longo dos combates, e permitem eliminar um grande número de atacantes de forma vistosa.

De Birth By Sleep volta o sistema de Shotlock, que permite marcar e atacar uma hoste de inimigos com ataques especiais, desta feita ligados a cada Keyblade. É possível também utilizar a habilidade para rapidamente viajar instantaneamente para pontos específicos no mapa com um brilho especial.

Também a diversidade de opções de combate faz lembrar Birth By Sleep, mas em vez de recorrer aos poderes de outras personagens, cada Keyblade que Sora vai adquirindo ao longo da aventura tem o seu próprio estilo de combate. As Keyblades transformam-se completamente após encher a sua barra de carregamento ao derrotar inimigos, podendo assumir a forma de pistolas, bastões mágicos ou lâminas nas mãos de Sora, que mudam completamente a forma de combater os Heartless e companhia.

É possível equipar três Keyblades que podem ser trocadas a meio do combate, algo que é muitas vezes útil para adaptar o tipo de ataque a certos inimigos mais complicados. É possível também melhorá-las através da Moogle Workshop, mantendo o equilíbrio entre o poder das aquisições ao longo da história. Os recursos podem ser escassos, mas as Keyblades são todas tão divertidas que a tentação para manter várias das favoritas atualizadas é grande.

Os summons regressam novamente sob o nome Link, com um maior controlo sobre as suas ações durante o combate. Mais uma vez, podem ser a chave para vencer um confronto complicado quando utilizados contra os inimigos corretos. Uma vez que recuperam o HP de Sora quando convocados, encontrei-me a utilizá-los com muito mais frequência do que as opções de cura normais.

Com todo este arsenal, e existindo ainda um objeto consumível que dá a Sora uma vida extra, a dificuldade do jogo no nível normal representa muito pouco desafio, mesmo sem procurar aumentar o nível em mais encontros do que aqueles que a história nos põe à frente. Recomenda-se as dificuldades mais avançadas para mitigar este problema, que ainda assim permanece para quem estava habituado ao pesado desafio destes modos nos jogos anteriores.

Os mundos estão mais interessantes que nunca. Em vez de visitar Agrabah ou Halloween Town pela décima vez, os mundos – agora também com propriedades da Pixar – são na sua maioria completamente novos. Algumas escolhas como Toy Story ou Monsters Inc. são o encaixe perfeito para o universo de Kingdom Hearts e a sua implementação está igualmente bem feita. Mesmo os poucos locais revisitados são alvo de uma abordagem diferente da habitual que ajuda a quebrar a monotonia.

“Tal como cada atração num parque de temático, cada mundo tem a sua própria forma de gerar diversão, com design diferente, novas mecânicas, formas de exploração e mini-jogos.”

De forma geral, os mundos são mais abertos, tanto nos ambientes como nas opções de verticalidade, sendo que a nova habilidade de Sora para correr paredes acima lhe permite chegar ao topo de casas, montanhas ou arranha-céus. Mas as oportunidades para o fazer estão muito restritas na maioria dos mundos. Também a linearidade varia de cenário para cenário, e na maioria dos casos o nível é um grande espaço aberto interligado, que pode dar a ilusão de liberdade, mas cujo design acaba por ser um círculo fechado. A capacidade de movimentação de Sora vai evoluindo ao longo do jogo até um ponto onde parece que estamos a controlar um super-herói quase capaz de voar. Só “quase”, pelo menos até eventualmente adquirir a habilidade ‘Glide’.

Mas a diferença entre os mundos vai muito além de trocar os temas e texturas que cobrem corredores de inimigos. A introdução do sistema de atrações serve de metáfora para todo o jogo. Tal como cada atração num parque de temático, cada mundo tem a sua própria forma de gerar diversão, com design diferente, novas mecânicas, formas de exploração e mini-jogos. Um mundo pode ter como ponto central uma grande dungeon, outro um mundo aberto para explorar; num podemos navegar de barco, noutro pilotar um mech para todo o lado. Podemos não gostar de todas as diversões em que andamos, mas o parque que é Kingdom Hearts III vale pelo seu conjunto.

Para registar todas estas aventuras, o diário em papel do Jiminy Cricket já estava aparentemente fora de moda, e por isso Sora e companhia aderiram às novas tecnologias. É através do novo Gummi Phone que se pode aceder à nova versão digital dos registos da história, glossários e estatísticas, assim como a novas funcionalidades, como o Classic Kingdom e o álbum de fotos. O primeiro é um conjunto de mini-jogos colecionáveis ao longo da aventura inspirados nos antigos sistemas LCD, no mínimo divertidos de experimentar. O segundo aloja as fotos que podemos tirar com o Gummi Phone.

Para além de os personagens partilharem as suas próprias fotos na sua versão do Instagram cujas publicações figuram nos ecrãs de carregamento, Sora pode a qualquer momento fotografar os novos amigos e os mundos que visita, com selfie-mode incluído. As personagens apercebem-se quando a câmera lhes é apontada, fazendo poses para a fotografia. O logo da Disney com a cabeça do Mickey é outro colecionável, que pode ser fotografado quando está dissimulado nos mundos, seja num relevo na parede, num padrão em manchas de tinta, ou na forma de objetos diferentes quando alinhados num ângulo específico.

“A construção e customização das naves está intuitiva e atrativa, sendo o jogo da série que mais me envolveu em toda a mecânica.”

A unir todos estes mundos está o espaço que é percorrido pelos heróis na Gummi Ship. Esta parte do jogo sofreu uma grande remodelação, passando de on-rails para exploração livre, com uma grande área disponível para procurar e recolher itens para melhorar a nave e para utilizar na Moogle Workshop, ou enfrentar desafios e inimigos. Durante os combates, o jogo volta ao habitual modo on-rails, onde a nave é testada contra uma horda de atacantes ao estilo tradicional de um space shooter. A construção e customização das naves está intuitiva e atrativa, sendo o jogo da série que mais me envolveu em toda a mecânica.

A música de Kingdom Hearts continua a encantar com as clássicas composições de Yoko Shimomura, assim como com o tema principal de Utada Hikaru e mesmo a sua colaboração com Skrillex em ‘Face my Fears’. Durante o jogo, os temas podem tornar-se repetitivos quando a permanência num mesmo mundo se arrasta. Ouvir um arranjo com as notas iniciais de ‘Sou Teu Amigo Sim’ enquanto exploramos o mundo de Toy Story é empolgante quando é novidade, mas o curto loop eventualmente pode passar a provocar “emoções negativas”.

8.5
Muito Bom

Kingdom Hearts III

Treze anos desde Kingdom Hearts II criam muita expectativa, mas este novo título cumpre o seu papel. É um ponto positivo quando digo que Kingdom Hearts III traz mais do mesmo. A mesma magia, a mesma diversão, a mesma história cada vez mais intrincada que lutamos para acompanhar. Mas traz tudo ainda melhor. Mais bonito, maior, mais variado, mais complexo. É uma aventura que fecha uma página e pisca o olho a um próximo capítulo. Esperemos que não demore tanto como este.

Pros

  • Mundos com jogabilidade variada e interessante
  • Infindáveis ferramentas de combate
  • Visuais cativantes
  • É mais Kingdom Hearts

Cons

  • Dificuldade base pouco desafiante
  • Alguns mundos fica aquém da qualidade geral
  • O complexo enredo e a representação mais infantil podem ser barreiras para quem não está investido
J. Machado dos Santos
@SopraCartuchos
Estudante de jornalismo, amante de histórias em todas as formas: escritas, no pequeno e grande ecrã, ou exploradas com um comando de videojogos na mão.
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