Night Call

 

Night Call é um jogo em qual eu tinha grandes espectativas, um motorista de táxi parisiense que resolve crimes ao falar com seus passageiros? Há de tudo para gostar neste cenário.

 

Quando se começa o jogo rapidamente se descobre que não é tudo rosas, já que não escolhemos ser detetive, é forçado sobre nós. Somos a única vítima sobrevivente de um assassino, uma polícia encontra-nos e faz-nos chantagem para descobrirmos o culpado por ela ou então ela desenterrará o nosso passado e condena-nos como sendo o assassino, isto é tudo envolto em sigilo porque na realidade não temos a menor ideia do que o personagem fez no passado.

 

Começamos então a fazer as rondas e a apanhar os passageiros, existe uma sensação de fantástico e de descoberta, ver pequenos vislumbres da vida de alguém, mexe, e tenho que dizer todo o ambiente ajuda, o facto de ser a preto e branco, de noite, os barulhos da cidade, o silêncio nas pausas e a música que acompanha, pára e acelera nos momentos certos. Desde acompanhar a historia de um casal de mulheres que procura um homem para ser dador de forma a poderem ter um filho, ouvir as aventuras de um sem-abrigo que nós temos a gentiliza de ajudar, ao dilema de um filho para se assumir perante os pais, uma mulher que vai buscar o marido ao aeroporto e nunca o conheceu e depois também temos momentos menos pesados, como o pai natal que se embebedou ou um gato que quer apanhar o comboio. Até o próprio personagem tem momentos de vislumbres do passado, onde nós próprios aparecemos no banco de trás e conversamos (ou talvez um gémeo, uma miragem?), há uma aura de misticismo sobre isso, queremos saber mais. Existem tantas histórias, cada uma com o seu rumo é algo viciante descobri-las.

 

Sinceramente, eu gostava que o jogo fica-se por aqui pois essa é a parte em que se destaca, infelizmente o resto do jogo parece completamente desconectado. Somos um detetive forçado que nem consegue sê-lo corretamente, as pistas que conseguimos aparecem como um texto cinza que diz que o nosso passageiro falou do caso e depois temos um alerta a dizer que uma pista foi adicionada, mas nem sequer menciona que pista é ou exatamente sobre o que é que o nosso passageiro falou. Uma vez terminado o dia chegamos ao apartamento onde temos um quadro de apontamentos, muito parecido com o que estamos habituamos em series ou filmes de detetives, mas não temos quase nenhuma interação com ele. Obtemos pistas soltas como a altura do assassino ou uma mensagem que foi deixada numa cena do crime, e nem se consegue conectá-los, o jogo faz isso por nós, podemos mexê-los para o lado ou para cima e para baixo e é isso.

 

Em certas alturas, obtemos arquivos através dos nossos contatos, estes ficheiros aparecem numa mesa por baixo do quadro de apontamentos, e estas precisam de ser investigadas para se poder obter mais pistas, e sinceramente aborrece-me ter um arquivo de uma vítima ou de cena do crime para investigar, pressionar no botão que diz investigar e novamente não se adquire nenhuma informação para alem do adorável alerta dizendo que pistas foram adicionadas, não se consegue ler os arquivos ou fazer qualquer tipo de investigação, só se adquire pequenos pedaços de informação que são automaticamente adicionados e conectados no quadro de apontamentos. Isso causa uma grade desconexão com o caso em si, tendo tão pouca informação e tão irrelevante que sinto que leva toda a faceta de investigação para segundo (ou terceiro) plano.

 

O jogo também não é fantástico a dar informações. No inicio passamos por uma espécie de tutorial de como funciona, dada pelo nosso patrão, mas não é realmente útil, não que o jogo seja difícil de jogar, é muito intuitivo, mas por exemplo, fala sobre não trabalhar muito ou até tarde, e eu presumi que isso significava que eu devia ter cuidado com as horas, apenas para perceber rapidamente que não fazia diferença, o jogo pára sempre num horário definido forçando-nos a voltar a casa. Também explica como aceitar ou negar trabalho e que tínhamos obrigação em levar alguém se mais ninguém estivesse disponível. O último eu nunca vi acontecer, talvez fosse apenas conversa para fazer parecer um táxi realista, mas honestamente, se se está a explicar como o jogo funciona e adicionamos informação redundante para formar o mundo, a confusão vai surgir. Já para rejeitar, nós nem sabemos para onde as pessoas vão até chegarmos a elas, e não há absolutamente nenhum ponto em rejeitar alguém, ate porque conseguimos saber quem levamos através das imagens e se não quiser levar alguém, não se vai até ele.

 

Quando eu comecei o jogo eu gostei do facto que havia muitos casos para trabalhar, até mesmo uma opção aleatória, algo que me fez pensar que o jogo tinha bastante replayability, infelizmente isso não é o caso. Como eu mencionei anteriormente, a maneira de como “resolvemos” casos faz nos sentir desconectados e o caso em si acaba não sendo algo importante porque no fim não se sabe nada a não ser alguns fios perdidos de informação, e a história principal é sempre a mesma, não importa o caso, somos sempre um motorista de táxi que foi a única vitima viva de um assassínio e somos chantageados sobre o nosso passado para resolver o crime ou ser condenado como o assassino. A única coisa que nos mantém no jogo são as histórias dos passageiros. Mas uma vez feito isso, não há nada que nos mantenha lá, porque acabamos por encontrar as mesmas pessoas, e elas dizem as mesmas coisas, até se pode tentar diferentes opções de diálogo, mas ficamos desapontados em descobrir que na maioria dos casos as escolhas de diálogo não importam, e os passageiros acabam basicamente a dizer as mesmas coisas com ligeiras alterações.

 

Com isto dito, tenho de admitir que gostei do jogo. Simplesmente amei os passageiros e descobrir as suas histórias, mas eu gostava que o jogo fosse apenas isso, infelizmente acho que a parte de detetive mandou o jogo abaixo. Teria sido um jogo de exploração baseado na história absolutamente incrível, mas no final o resto fez o jogo parecer… Ehh..