O segundo filme realizado por Edward Norton, que também assina o guião, aparece 19 anos depois da estreia com “Keeping The Faith” e promete deixar maior marca que o seu antecessor.  “Os Órfãos de Brooklyn” – título traduzido do original “Motherless Brooklyn” –, nasce de uma leve adaptação do livro homónimo do inglês, autoria de Jonathan Lethem e lançado em 1999.
Tal como no livro, o guião é protagonizado pelo detetive privado Lionel Essrog (interpretado por Norton), um órfão nova-iorquino que sofre com uma doença que o afeta mental e socialmente.

A parte inicial introduz-nos algumas personagens e, de certa forma, o mundo a que elas pertencem. Somos imediatamente guiados para a mente perturbada da personagem principal, dos seus tiques, das suas obsessões e tiradas despropositadas, por vezes cómicas, outras inconvenientes e ainda outras encantadoras.
O ritmo imposto pela forma como Essrog pensa e age dá mote às primeiras cenas, num contraste interessante com um dos seus colegas Gilbert Conney (Ethan Suplee).
Assiste-se a um encontro invulgar entre Frank Minna, seu chefe, (numa breve aparição de Bruce Willis), e alguns clientes (cujas caras estão ocultadas pela escuridão que os define) e depois a uma perseguição pelas ruas de Nova Iorque. A ação culmina na morte de Minna, que utiliza as suas últimas palavras para deixar uma pista misteriosa a Essrog.
Depois de assistir à morte enigmática de Minna, Essrog enceta uma busca pelos culpados e pelas razões por detrás do crime.

Daqui para a frente percebemos que, ao contrário dos seus conformados colegas detetives Gilbert, Tony (Bobby Carnavale) – que mantém uma estranha proximidade com a viúva de Mina, a demasiado estridente Julia (interpretada por Leslie Mann, num papel que foge a registo humorístico e que pouco oferece à história) – e Danny.
A verdadeira trama assenta na missão de Essrog: desvendar os contornos da morte do seu chefe – que funciona, por força das circunstâncias, como a sua grande figura paternal. O detetive inicia uma investigação minuciosa, característica sustentada pela sua memória fotográfica, pelo submundo da política da cidade de Nova-Iorque.
Para Essrog, este caso parece estar relacionado com algo muito maior do que está à vista e reside, também nesse fator, a sua obsessão por resolvê-lo.

Essrog vai descobrindo pequenas pistas e conhecendo algumas personagens que motivam as suas desconfianças, desvendando a podridão que existe nos bastidores da câmara de Nova Iorque.
É também nesta fase que são apresentadas algumas das mais importantes personagens secundárias do filme, em particular Laura Rose (Gugu Mbatha-Raw), Paul (Willem Dafoe) e Moses Randolph (Alec Baldwin).

O trabalho de Essrog, iniciado com uma investigação de um assassinato transforma-se em algo muito maior, onde a corrupção reina, as questões raciais são fulcrais e os planos de Randolph parecem ser o guião para o futuro da cidade.
No lado oposto a Randolph, surge Laura Rose, uma ativista afro-americana, que se dedica a desconstruir a estratégia de Randolph, impulsionada por Gabby Horowitz (Cherry Jones), membro da câmara nova-iorquina.

Entre encontros propositados (ou fruto do acaso), o detetive vai coincidindo nos mesmos lugares em que circulam todas estas personagens. Seja disfarçado de jornalista em audiências da câmara – onde conhece o duvidoso Paul – ou nas habitações precárias de famílias afro-americanas de Brooklyn; seja em escuros clubes de jazz, humilhado e ferido em sarjetas sujas ou em gigantescos escritórios das misteriosas associações de Randolph; Essrog vai-se intrometendo onde não era suposto, aproximando-se da verdade que tão intensamente persegue.
A fase final do filme proporciona o encontro entre a personagem principal e o vilão e também a resolução possível daquilo que foi sendo dado a conhecer à plateia.

A obra de Norton desprende-se, em vários pontos, da de Lethem. O filme é passado em 1950, uma época gloriosamente representada através dos chapéus, dos carros e do jazz, enquanto que o livro conta uma história dos anos 90. Existe também, pouca referência à história de vida de Essrog e a própria doença é deixada em aberto (enquanto que no livro é especificado a síndrome, isso não acontece no filme) além de ser, de certa forma, modificada – os “if”’s disfarçados através de espirros foram adicionados pelo realizador, mas é algo que ajuda a construir a personagem.
Ainda assim, o afastamento da obra que a inspira não é um fator que diminua a capacidade da película.
O caráter nostálgico da própria época e a influência dos filmes que anteriormente a representaram (existe uma reminiscência a enredos do género noir, nomeadamente a títulos como o mais luminoso “Chinatown” que, ao contrário de “Motherless Brooklyn”, é passado em Los Angeles) é cativante, pela tonalidade cinzenta da atmosfera nova-iorquina, muito bem captada pelo diretor de fotografia Dick Pope, complementada pelos carros ou pelo guarda-roupa, pelo jazz que paira no ar através do som (a música de fundo é da responsabilidade de Daniel Pemberton).
Mas beneficia também da forte mensagem de cariz social, que é transmitida com a subtileza necessária para ser eficiente, sem deixar que isso se sobreponha à história ou às personagens.

Existem ainda algumas referências exteriores ao filme e à obra. Moses Randolph parece ser inspirado por Robert Moses, urbanista responsável por uma grande quantidade de obras públicas intimamente relacionadas com vias para carros, à custa do desalojamento e deslocamento de muitas famílias da classe-baixa de Nova Iorque (além de uma possível alusão a Donald Trump, que o próprio Baldwin já interpretou em situações humorísticas).
Além disso, o músico de jazz, a quem Michael K. Williams dá vida remete, muito diretamente, para Miles Davis, da rouquidão da voz que teima em sair com clareza, à destreza com que comunica através da trompete – e com o qual Essrog se parece entender a um nível que vai para além das suas dificuldades sociais.

Existe uma classe – de outros tempos – associada à ambiência do filme e que transparece também na capacidade dos atores e na qualidade do drama que, apesar de não ser um modelo do género thriller, acaba por conter uma intensidade e um suspense que faz o espetador ansiar, em conjunto com Essrog, para que haja um verdadeiro desfecho do caso.

Aliás, a maior força do filme é provavelmente a interpretação de Norton que, apoiado num diálogo que favorece muito a sua personagem, carrega grande parte das cenas (excluindo talvez aquelas onde a atitude vaidosa de superioridade de Baldwin enchem o ecrã, demonstrando, mais uma vez, que é tão capaz como ator de humor, como de drama – em particular um pequeno discurso que professa já nos últimos minutos).
A desnecessária longa duração (a obra estende-se por mais de duas horas) pode, infelizmente, afastar algumas audiências menos curiosas. Ainda assim, não é certamente essa a razão para se ignorar este filme. Pelo contrário, Motherless Brooklyn talvez possa ser um presságio de um Edward Norton mais realizador, sendo também uma reafirmação do Edward Norton ator.