Com a eventual exceção de Battlefront (que eu pessoalmente não faço), Star Wars Jedi: Fallen Order é o primeiro título a justificar a licença da EA para produzir jogos de Star Wars. E estranhamente, mesmo sem herdar o título de nenhum jogo de PS2, é Fallen Order que dos dois melhor captura o espírito dos jogos dos primeiros anos da viragem do milénio.

Isto porque uma das facetas do jogo é o seu platforming 3D cheio de obstáculos para o nosso personagem com movimento totalmente livre, e muitos colecionáveis e segredos espalhados em cada recanto. Tudo à mercê da nossa exploração, sem microtransações à vista. E claro, como não podia faltar, um fartote de secções em que o nosso personagem escorrega em descidas ziguezagueantes evitando obstáculos.

Infelizmente este espírito de platformer de tempos idos não se fica pelos pontos positivos. Muitas quedas em precipícios infinitos depois de ligeiros erros nos cálculos de um salto, felizmente só não são mais irritantes porque somos rapidamente repostos, sem perda de progresso, para tentar novamente. Certas paredes cedem vislumbres do interior dos mapas, ou quedas através deles. Os mapas dos planetas são estéreis, desprovidos de qualquer característica que os traga à vida como locais reais, em vez de pistas de obstáculos e viveiros de inimigos.

Não é que o jogo não se esforce nesse sentido, com uma grande lista de locais e pontos de interesse que podem ser analisados para criar entradas num crescente glossário. Mas, com notória exceção para o local de abertura do jogo, na generalidade os (poucos) mundos são vazios e desinspirados.

Existem fantásticas exceções à regra, mas isso só torna os cenários de paredes de pedra despida infindável ainda mais gritantes.

As recompensas pela nossa exploração, capacidade que vai aumentado à medida que adquirimos habilidades ao estilo Metroidvania, também não primam pela originalidade. É verdade que existem dezenas de espaços de colecionáveis para preencher, mas são apenas variações de cor na roupa ou poncho do personagem, no robô de companhia, ou na nave do grupo. Para além de aumentos na barra de vida ou no número de injeções de cura que podemos transportar, apenas as peças para a personalização do sabre de luz são de algum interesse.

A outra faceta chave do jogo é o combate. E aqui, a inspiração é bem patente. O foco num combate necessariamente mais calculado contra inimigos fortes, onde rebolar e defletir atempadamente os seus ataques é crucial para o sucesso, segue a fórmula da FromSoftware.

Mas ao contrário desta última, Jedi: Fallen Order inclui níveis de dificuldade variados, incluindo um modo história que torna o jogo acessível a quem não é fã do conceito “morre e repete”. Longos tempos de carregamento entre mortes em certas áreas podem aliciar mesmo os mais persistentes a não repetir tantas vezes.

O combate é muito satisfatório uma vez que pede atenção aos nossos movimentos em vez de button mashing, e ataques certeiros são bem recompensados com danos letais. A combinação entre ataques de sabre de luz e movimentos que utilizam a força é crucial, uma vez que a barra da segunda só enche com a utilização dos primeiros.

Os pontos de experiência podem ser gastos nos pontos de meditação, que também são os pontos de salvamento do jogo, numa árvore de progressão que mais se assemelha a um labirinto de progressão onde nada está onde deveria estar, e afinal, poucos dependem das habilidades anteriores para ser adquiridos.

O ponto forte do jogo é sem dúvida a história. Depois da Ordem 66 que virou o exército de clones contra os Jedi, o nosso protagonista, o padawan Cal Kestis é obrigado a revelar-se ao império que o procura depois de anos escondido. Enfrenta o seu passado, luta pelo presente e procura soluções para o futuro que nem sempre são tão óbvias como parecem.

É uma história de Star Wars que invulgarmente tem agradado aos fãs, e que inclui muitos elementos do universo da franquia bem utilizados. Setpieces muito bem trabalhadas num estilo que lembra Uncharted e God of War, criam momentos memoráveis que tornam o jogo uma experiência memorável para qualquer fã.

É um jogo que combina mecânicas vencedoras de outros grandes da indústria para contar uma nova história de uma galáxia longínqua. Algumas arestas estão mais limadas do que outras, e a imersão num mundo credível pode estar reservada para as cutscenes. Mas a conjugação entre o platforming e o combate trazem aquilo que é ultimamente um bom jogo, que sabe que é um jogo, para a mesa.

REVER GERAL
Star Wars Jedi: Fallen Order
7.5
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Amante de histórias em todas as formas: escritas, no pequeno e grande ecrã, ou exploradas com um comando de videojogos na mão.