O 4 de julho de 2019 não foi sinónimo exclusivo de Dia da Independência dos EUA. Esta data marcou a estreia da terceira temporada de Stranger Things, cuja narrativa se desenvolve em torno dessa efeméride, na Netflix. Segundo dados da plataforma, mais de 18 milhões de utilizadores viram os novos episódios ao fim de quatro dias. A expectativa era elevada, contudo, terão os irmãos Duffer conseguido superá-las?

Muito se alterou desde a última vez que a pacata comunidade de Hawkins se libertou dos temíveis monstros do Upside Down – ou julgavam, pelo menos. As petizes personagens cresceram, entraram na adolescência, e a atenção dos locais virou-se para um centro comercial recém erguido, um chamariz de algazarra atraída pela acessibilidade e novidade capitalista.

A homenagem dos criadores aos anos 80 continua a exibir-se em bom plano, com os trejeitos dessa época a serem captados e revelados minuciosamente. Várias são as referências, desde a estreia de Back to the Future, à inclusão de clássicos de Cutting Crew, Madonna ou REO Speedwagon na banda sonora, como também o característico guarda-roupa, espelho nostálgico de uma geração que encontrava mil e uma maneiras para se divertir sem recorrer à Internet. Continuam a acrescentar relevo e autenticidade à narrativa, sendo essenciais para o sucesso da série e levar a audiência a uma viagem trinta anos antes.

No entanto, os maiores propulsores são as personagens, a maioria impossíveis de com elas não criar laços virtuais. Apesar de na terceira temporada termos assistido a uma brutal evolução de alguns protagonistas, nem tudo foi um mar de rosas. Vamos por partes.

O conceito romântico que se criou em torno de Eleven (Millie Bobby Brown) e Mike (Finn Wolfhard) parece ter sido tão espremido ao longo de duas temporadas, que esgotou o sumo na terceiro – e o que nos servem é uma bebida bastante azeda. Ambos vivem um romance tipicamente de Hollywood, daqueles de tal intensidade que parecem replicar os maiores amores da indústria cinematográfica. Este conto de fadas é uma antítese à sua essência e que não consegue atingir a naturalidade genuína do outro casal protagonista, Lucas (Caleb Mclaughlin) e Max (Saide Sink), cuja relação vive muito de piadas e turras – mais adequadas ao ambiente da série.

Outra personagem não tão bem aproveitada é Will (Noah Schnapp), cuja participação resume-se a diálogos secos semelhantes aos de Jon Snow na oitava temporada de Game of Thrones. Além disso, este admite não sentir atração por raparigas, o que abria uma oportunidade para explorar várias possibilidades. Contudo, este momento desvanece subtilmente como o nevoeiro numa manhã de inverno (ou verão?) e origina uma das maiores pontas soltas que a série não atou – ainda.

Por outro lado, Hopper (David Harbour) é dos protagonistas que mais cresce na terceira temporada, onde deixa emergir o seu lado mais emotivo e humano. É impressionante o calibre do ator que interpreta o chefe da polícia de Hawkins – luta, investiga e protege – conseguindo ser um dos propulsionadores da narrativa, quer pela ação que proporciona, quer pelo carisma e humor que transporta em si. Já Steve (Joe Keery) continua a beneficiar da química com Dustin (Gaetan Materazzo) e da estreante Robin, interpretada por Maya Hawke – filha de Ethan Hawke e Uma Thurman. Os melhores momentos destes episódios são, provavelmente, com os três em cena e revelam o talento da jovem atriz. A sua personagem é, igualmente, das mais bem construídas em Stranger Things, e a sua homossexualidade assumida permite desafiar o desenvolvimento de Steve, que se afasta cada vez mais do rótulo de rebelde charmoso – e encontra em Robin uma amizade de natureza tão pura que é impossível ficar indiferente.

Ora, já em termos estruturais, os irmãos Duffer também não alteram aquilo que tem sido a sua fórmula de sucesso nos últimos três anos. A preparação do clímax da narrativa é intensamente enigmática e deixam os nervos à flor da pele. Estamos presente a algo semelhante a uma homenagem às melhores e misteriosas séries policiais da década de 80, sem nunca esse ser o objetivo dos criadores. Apesar da audiência saber de antemão – logo a partir do segundo episódio – a causa por trás da nova aparição da criatura do Upside Down – nunca nos são reveladas as suas verdadeiras intenções até bem perto do final.

Esse é, aliás, uma forma inteligente de manusear a narrativa. Os laços de empatia criados com as personagens levam o público a pôr-se do seu lado e partilhar emoções com elas, acabando por sofrer na antecipação de qualquer evento inesperado. O jogo de sensações que a dupla engendra tão bem continua a surtir efeito na trama, permanecendo cativante e, certamente, a proporcionar momentos de binge que outras séries não conseguem.

Contudo, como referi, não obstante a capacidade de se reinventar, Stranger Things padece ainda de alguns sintomas de repetição e redundância, nomeadamente no último episódio. É no desfecho da estória que os irmãos Duffer, na minha opinião, necessitam de trabalhar um pouco as suas ideias, para desenvolver um produto que não pareça reciclado das temporadas transatas. É certo que mantém o divertimento e emoção de outros capítulos, contudo, também proporciona momentos absurdos e previsíveis – é certo que os antagonistas têm que sair derrotados, mas o modo como se chegou a esse resultado podia ter sido diferente. Todavia, não sou uma mente brilhante para argumentar nem para ser argumentista – se alguém quiser reescrever o final, sinta-se à vontade.

Ainda assim, em contraste com o desenho do derradeiro episódio, os protagonistas fornecem excentricidade à luta final com o Mind Flayer – tentar aniquilá-lo com fogo de artifício é das ferramentas mais imaginativas para combater o inimigo que alguém imaginou. A brava valentia dos protagonistas enriquece-os e ajuda a enfatizar o seu estado de ícones geracionais, aumentando a relação que estabelecem com quem vê a partir de casa (ou autocarro, praia, café…). Isto talvez se deva ao facto de que desde Harry Potter ninguém acompanhara o crescimento de um elenco no ecrã. O lugar deixado vago foi devidamente ocupado por jovens ousados que não tremeram com a sua ascensão meteórica – e que são razão forte o suficiente, juntamente com a pastiche aos anos 80, para rotular Stranger Things como série de culto.

Para tal auxiliam os instantes finais da temporada. Ainda que se alonguem em demasia, estabelecem um marco importante para que tudo o que fora desenvolvido se consiga embrulhar em sentido – além de nos tornar mais emocionalmente ligados a Joyce (Winona Ryder – assim batizada por ter nascido numa localidade com o mesmo nome, no Missouri) e restantes. E sim, ajudam-me a esquecer as estradas convenientemente desertas de uma cidade repentinamente fantasma na qual ninguém fica alertado pelo facto de um monstro de quase dez metros andar a atormentar pobres cidadãos. O apelo ao saudosismo leva a melhor desta vez.

Antes de terminar, importa salientar a recente tendência para incutir culpa na Rússia/União Soviética em grandes produções. Após Chernobyl – que causou indignação junto do povo russo – foi a vez de Stranger Things também meter os soviéticos ao barulho. Ambos aproveitam o contexto da Guerra Fria para inserir o ambiente de tensão vivido entre Washington e Moscovo para servir de propulsor à narrativa – e prestar homenagem a Terminator com uma espécie de Arnold Schwarzenegger da União Soviética como personagem secundária.

A presença soviética junto das experiências de contactar o universo paralelo do Upside Down já tinha sido revelada anteriormente. Contudo, a sua utilização primordial, numa altura em que muito se discute a suspeita de manipulação russa nas eleições americanas de 2016, acaba por ser curiosa. Haverá algum objetivo oculto por trás deste elemento da narrativa? Ou será meramente especulação que os EUA andam a lançar farpas à Rússia? Não sou a melhor pessoa para analisar essa questão. Mas, é um facto que se tem assistido ao avolumar de troca de galhardetes entre os dois países nas produções de Hollywood mais recentemente.

Seja o que isso possa implicar, certo é que nos dá perspetivas para uma quarta temporada – ainda por confirmar pela Netflix. Até lá, Stranger Things viverá das teorias que a comunidade agrega após episódios que mantêm a mesma pitada de nostalgia e entretenimento que nos habituaram desde o início. Os irmãos Duffer estão na vanguarda do sobrenatural contemporâneo, e apesar de, por vezes, jogarem pelo seguro, o seu atrevimento etiqueta a série como se um crossover de Stephen King e David Cronenberg se tratasse.

 

Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)