8.0
Bom
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Análise a ‘The Favourite’

Estreou em Portugal no passado dia 7 de fevereiro um dos filmes mais aguardados do ano. The Favourite, a mais recente obra de Yorgos Lanthimos, lidera a corrida aos Óscares, a par de Roma, com dez nomeações às estatuetas de ouro. Explora a vida na corte da rainha Ana da Grã-Bretanha (Olivia Colman) enquanto esmiúça as peculiaridades da relação com a Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) e a baronesa Abigail Masham (Emma Stone), no início do século XVIII, no decurso de uma de muitas guerras travadas entre britânicos e franceses.

Contrariamente a The Lobster ou Killing of a Sacred Deer, Lanthimos não redige o guião nem desenha as personagens de raiz juntamente com o seu assim chamado braço direito, Efthimis Filippou. No entanto, essa circunstância quase nem se nota pois o seu ousado cunho pessoal está bem patente na narrativa. Expõe, sem filtros, a bizarria e crueldade humana, fazendo uso de um constante clima de agonia, onde se evidencia uma vez mais a influência da dramaturgia trágica dos seus antepassados gregos. Baseia-se em factos para os equilibrar com ficção e criar um enredo característico, sem receio de quebrar convenções.

O ritmo vagaroso que marca as quase duas horas de sessão pode não agradar à generalidade do público, acostumado à cadência vertiginosa e frenética do quotidiano. Porém, há que valorizar o modo como se mantém fiel às suas ideias e não altera o seu registo de autor. Não entretém tanto quanto outros concorrentes ao prémio de Melhor Filme entretêm, como Green Book ou A Star is Born, visto Lanthimos não procurar ceder às exigências comerciais dos consumo de massas. O seu objetivo passa por obter uma pluralidade de reações motivadas pela ambiguidade do ambiente e pela frontalidade e genuinidade com que expressa a sua arte. Exemplo disso é – SPOILER ALERT – a presença de mais um final que deixa a audiência embasbacada e sem reação, enquadrando-se com a filosofia crua e enigmática do realizador.

Quem conseguiu ver The Lobster e Killing of a Sacred Deer de uma ponta à outra, não terá dificuldades em voltar a fazê-lo em The Favourite. A estrutura do conteúdo apresenta-se mais organizada e, apesar de não ser um dos pontos fortes do filme, é reforçada pelos elementos que adornam a narrativa. O conjunto de planos, cores e luzes formam uma imagem cuidada e suave que parece remeter o público para uma galeria com pinturas do rococó em movimento. O realizador também transmite sensações de amplitude através de enquadramentos dilatados, como se ajudasse as protagonistas respirarem melhor, contrastando com o sufoco angustiante e cruel da narrativa.

A trilha sonora, orquestrada maioritariamente pelo ritmo inquietante de violinos e outros instrumentos de percussão, também ajuda no relevo do campo de ação. Pautam as emoções das personagens rumo ao clímax e definem o ambiente de tensão do enredo, para além de reforçarem o espaço temporal do filme, com algumas composições musicais associadas à época em questão. É, por isso, seguro afirmar que Lanthimos concebeu um estilo próprio de ver e fazer cinema, onde inclui uma fórmula de desespero e exasperação aliada a uma estética distintiva e futuramente identificável.

Também as interpretações das protagonistas acrescentam outra vivacidade a um filme que encontra qualidades em elementos adjacentes ao enredo. Colman, Weisz e Stone lideram um elenco que celebra e enaltece o poder feminino, num claro desvio do mais recente modus operandi de Hollywood. O homem tem um papel meramente secundário e, à semelhança de Roma, ajuda a encaixar a narrativa num espaço apetecível na indústria cinematográfica, na qual muito se tem debatido sobre a questão da exacerbação masculina. Para aproveitar o contexto, volto a pegar no que referi na introdução para referir o nome de Deborah Davis, responsável por co-escrever o guião, como exemplo de outra mulher associada à conceção de The Favourite.

Trata-se, portanto, de uma obra que confirma o talento de Yorgos Lanthimos e estabelece o seu trilho ascendente no cinema. Recorrendo a um modelo de assinatura, o realizador adapta um contexto social e político às suas excentricidades e simbolismos, originando uma peça cuja fotografia, realização, guarda-roupa e representação resulta numa execução esteticamente agradável que complementa a tépida narrativa.

8.0
Bom

The Favourite

Um filme que, pela sua beleza artística e estética, merece ser visto pelos apreciadores da Sétima Arte.

Pros

  • Realização e fotografia
  • Guarda-roupa
  • Representação das protagonistas

Cons

  • Lentidão da narrativa
A escrita, o cinema e a Netflix são o norte deste rapaz que procura não se perder no Mestrado em Gestão de Marketing.
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