Há três anos e meio, o escândalo dos Panama Papers ocupava grande parte das manchetes dos jornais e era tema principal de abertura de qualquer noticiário. Como qualquer outro caso de corrupção, rapidamente se foi dissipando até as vozes da comunicação social deixarem de ecoar aquilo que Steven Soderbergh tentou passar em revista no seu novo filme, The Laundromat.

Baseado no livro do jornalista de investigação Jake Bernstein, é nos narrada a caluniosa história dos Panama Papers a partir do ponto de vista de Jürgen Mossack e Ramón Fonseca, fundadores da extinta empresa responsável pelos casos de evasão fiscal. A premissa gerava interesse à partida, pois permitiria uma abordagem arrojada por explorar o lado mais perverso do alvoroço. Juntamente com o humor mordaz previamente anunciado, podia tornar uma reportagem biográfica de um tópico complexo, com conteúdo e vernáculo técnico, bastante mais aliciante e simples de compreender.

Contudo, há algo que não resulta na narrativa de Soderbergh. The Laundromat apresenta-nos personagens em conta gotas que a certo ponto se tornam difíceis de acompanhar e perceber o seu propósito. Além disso, e por consequência, os acontecimentos da narrativa parecem ficar encafuados em tão pouco tempo de filme (cerca de hora e meia), com algumas cenas desnecessárias a empurrarem elementos relevantes para segundo plano.

A estória é apresentada por um Mossack (Gary Oldman) e um Fonseca (Antonio Banderas) que parecem viver numa espécie de universo paralelo com cenários surreais e indumentárias absurdas que nunca nos são justificadas. Não obstante o seu papel fundamental na narrativa, essas apresentações irreverentes não estabelecem qualquer conexão com a estória. Se a ideia fora representar a luxúria e mordomia, tal não ficara enaltecido.

Simultaneamente, a figura de Ellen (Meryl Streep) revela-se como a principal impulsionadora para a descoberta do segredo por trás da firma da dupla criminosa. Equilibra os pólos real/fictício e bom/mau da trama e apresenta-se com potencial suficiente para ser o elemento heróico de Laundromat. Contudo, torna-se apenas mais uma cara perdida na maré de Soderbergh que é incapaz de utilizar a versatilidade talentosa de Streep – pelo menos, de forma consistente, e coerente. Mesmo que a possamos considerar como a protagonista do filme, o seu propósito deixa muitas dúvidas. Estas até podem, na verdade, ser impossíveis de dissipar com o culminar da obra pois o tempo perdido com personagens secundárias pouco relevantes impossibilita o desenvolvimento mais profundo da interessantíssima Ellen.

O principal problema foi, portanto, atenção em demasia a componentes secundários, ou falta de foco na narrativa. Um enredo alternativo que misturava, hiperbolizando acontecimentos, o fictício (Ellen) com o real (Mossack Fonseca) poderia ter funcionado melhor. Não seria necessário descartar essas personagens de menor relevo, mas podiam ser remetidas para segundo plano nesse argumento. Uma breve menção, não mais de cinco minutos em cena.

The Laundromat não foge ao que Adam McKay fez em The Big Short e, mais recentemente, em Vice. Contudo, enquanto nos dois primeiros a estrutura exibiu-se como estóica, no filme do realizador da trilogia Ocean’s, esta parece ter sido preparada numa Bimby, misturada com tudo e mais alguma coisa para ser servida como uma sopa cheia de grumos. Há muita desorganização, cenas que carecem de sentido e elementos desnecessários e que nada acrescentam à narrativa. Contudo, metáforas escusadas à parte, não se trata de um filme aborrecido e consegue entreter qualquer pessoa num domingo à tarde.

O jargão técnico dos Panama Papers foi simplificado para termos mais acessíveis e devidamente explicados, sem perder a sua essência. Steven Soderbergh conseguir transpôr  a perceção exata do caso que fez correr tinta em 2016 num tom leve e adornado por momentos cómicos que desenvolvem a fluidez da narrativa. Porém, a sua tentativa de abordar tudo e mais alguma coisa sobre os documentos faz com que The Laundromat nunca consiga verdadeiramente encontrar o seu ritmo e a sua lógica. O elenco repleto de estrelas de Hollywood pode facilitar a aceitação da obra, mas é certo que Soderbergh não conseguiu explorar a mina de ouro que lhe passaram para as mãos.

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The Laundromat
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Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)