Tuca & Bertie estreou no início deste mês na Netflix e é resultado da criativa mente de Lisa Hanawalt, responsável pelas ilustrações de BoJack Horseman. Com as vozes de Ali Wong, Tiffany Haddish, Steven Yeun e Richard E. Grant, trata-se de um retrato da amizade das protagonistas epónimas, desafiadas pelos rumos opostos que as suas vidas estão a tomar, numa cidade que tem pouco de humano e muito de animal.

Esse é um aspeto característico das personagens – a maioria são aves, de variadas espécies, com cães e cavalos à mistura e a ausência total do Homem, que, ao contrário do que acontece na série irmã, não partilha o campo de ação com seres antropomórficos. Não obstante a semelhança entre ambos, Tuca & Bertie não permanece à sombra de BoJack Horseman e cria uma identidade forte logo na primeira temporada.

Destaca-se pelo conteúdo metafísico possibilitado pelos seus visuais bizarros e pela abordagem mais excêntrico e positivo, contrastando com o ar soturno e existencialista presente no universo de Hollywoo. O humor serve principalmente para caracterizar a personalidade das duas amigas, distinguindo a descontração e exuberância de Tuca com a ansiedade e pacatez de Bertie. Contudo, o desenvolvimento das protagonistas é conseguido através da sua consciencialização de temas mais sensíveis – entre os quais alguns que marcam a atualidade – e a forma como é tratada a ansiedade adulta e as resultantes crises que delas vêem. Lisa Hanawalt concebe esta ideia com mestria ao levar as personagens a criar tempestades num copo de água por situações de importância mínima – um pouco como acontece a todos nós, na verdade.

Ainda assim, encontram sempre algo para se agarrarem e reerguerem-se no episódio seguinte – o que não acontece em BoJack Horseman. Não procura alertar para viver a vida em pleno através de cenários depressivos, nem denunciar comportamentos erráticos suportados por uma narrativa taciturna. Apesar do objetivo ser semelhante em ambas as séries, Tuca & Bertie evoca maior divertimento na sua abordagem às relações humanas e na ultrapassagem de obstáculos. A utilização de um registo musical mais animado, com batidas entre eletrónica ou house, aumenta a vivacidade da série e a desenhar o seu registo característico e comprova essa diferença.

O destaque dado a duas personagens femininas  é um ponto a favor de Tuca & Bertie. Com Lisa Hanawalt ao leme da produção, a criativa artista inverte a perspetiva masculina de várias produções sobre contextos semelhantes – e corrige o chamado bromance (ou sistermance?) que algumas séries falharam a transmitir (caso de Two Broke Girls). Foca-se em aspetos reais, com um absurdo inteligente, para criar uma série cativante com personagens empáticas que passam por episódios quase, ou tão reais como nós.

A originalidade de Lisa Hanawalt deu um fruto tão suculento quanto os plantados pela imaginação de Raphael-Bob Waksberg. Tuca & Bertie é um reflexo geracional com um grande cunho pessoal artístico que não se esconde atrás do irmão e enche-se perante um público que aplaude mais uma prova de como é fácil contornar o mercado saturado das séries de animação. Não há confirmação de uma segunda temporada, porém, parece haver espaço para desenvolver mais o enredo sobre a amizade das protagonistas.

 

Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)