Na nova série de comédia da Netflix, Idris Elba é Charlie Ayo, um DJ que viveu dias de sucesso durante os anos 90 e que a partir de então viu a carreira entrar numa espiral descendente da qual não consegue sair. A única maneira de reverter a situação é tornar-se ama da problemática filha do seu melhor amigo de infância.

Desde o momento que foram reveladas informações sobre Turn Up Charlie, que se percebeu que a premissa do enredo não trazia nada refrescante. Já são várias as produções onde um adulto reencontra o brilho e encanto da vida ao cuidar de crianças ou pré-adolescentes, enquanto desfruta de momentos de pura inocência. Seria necessário surpreender o público e mantê-lo cativado com uma nova abordagem a esta temática. Todavia, tal acabou por não se verificar. Optou-se por jogar pelo seguro, apostando numa fórmula saturada e num humor demasiado contido, com algumas piadas recicladas pelo meio. É certo que dado o cariz da série tenha havido preocupação com os trâmites do politicamente correto, contudo, pedia-se outro tipo de abordagem cómica.

Outro aspeto importante a salientar é a consistência nas inconsistências, pelo menos nos primeiros capítulos. Dá a sensação que Turn Up Charlie não foi estruturado convenientemente e isso acabou por prejudicar a improvável relação entre o protagonista e a diabólica Gabrielle. Pedia-se uma exploração mais aprofundada deste elemento, que muitos julgavam ser, à partida, o principal da série, mas que acabou sobreposto por outras questões do foro pessoal de Charlie. A clara química entre Idris Elba e a jovem atriz Frankie Hervey não foi aproveitada ao máximo e o descuro do lado mais afetivo ou emocional acabou por ser notório no culminar da série. Contudo, apesar de algumas falhas, a narrativa dos episódios finais encontra outra solidez numa tímida tentativa de criticar a exuberante vida social dos disc jockeys modernos.

Foi, claramente, um caso de substância a mais para tempo a menos. Muitos saltos no espaço temporal, poucas justificações sobre determinadas ações e personagens cujo propósito nunca é entendido. Ainda assim, não obstante as incongruências, Turn Up Charlie acaba por manter a audiência entretida. O enredo é simples, os gracejos entre personagens são constantes e a banda sonora é boa – e pode contagiar está sentado no sofá a ver. Ideal para quem quer passar o tempo ou descansar a mente, mas longe de ser um sucesso junto dos que procuram saciar a intelectualidade cinematográfica.

Um projeto pessoal que espelha o lado íntimo de Idris Elba (além de ator, também prossegue carreira como DJ) Turn Up Charlie não faz jus ao seu talento multifacetado. A incapacidade em focar-se num elemento condutor que estabeleça um elo entre todos os intervenientes da narrativa tornou a série previsível e incoerente. Apesar disso, entretém ligeiramente e pode fazer soltar algumas gargalhadas – dependendo do sentido de humor da audiência.

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Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)