*ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS*

Como já referira o ano passado neste artigo, as narrativas não se necessitam de cingir ao cinema, nem a um único meio audiovisual. Ora, a 13 de setembro, estreou na Netflix mais um exemplo de como uma mesma história funciona em vários formatos e vem confirmar a intertextualidade como uma das maiores qualidades das produções atuais. Baseado numa reportagem vencedora de um Prémio Pulitzer e num episódio do podcast This American Life, Unbelievable é a mini-série que relata um verídico caso mal investigado que, anos mais tarde, vê justiça ser feita à vítima que fora erradamente acusada de deturpar factos à polícia.

Ora, é preciso paciência para a narrativa comece a fluir. Esta lentidão inicial, embora possa causar alguma reticência em alguns esptadores, é importante para apresentar factos que ajudem na compreensão contextual. Uma vez lançados os dados para a sua jogada, Unbelievable consegue prender a audiência para uma narrativa que, repentinamente, sofre tantas voltas como uma meia perdida numa máquina de lavar. Vemos uma estória contada em dois espaços temporais distintos – 2008 e 2011 – cada uma com protagonistas diferentes que só se cruzam no culminar do último episódio.

A orfã Marie Adler (Kaitlyn Dever) é acusada de fazer um testamento falso após ter sido violada em sua casa, cedendo à pressão das autoridades para (re)contar inúmeras vezes o traumático evento. Passa por anos de verdadeiro sofrimento onde perde o seu alojamento, emprego e amizades – chocante tendo em conta que a série se baseia em factos reais – até ao momento em que surgem novas vítimas que sofrem um ataque semelhante ao de Marie. É aqui que entram em ação as detetives Karen Duvall (Merritt Wever) e Grace Rasmussen (Toni Collette), peças fundamentais para desvendar o mistério em torno da onda de violações – e um dos grandes destaques de Unbelievable.

É de louvar o desempenho das atrizes enquanto dão vida às protagonistas. Dois papéis complexos, também baseados em cidadãs reais, proporcionam uma química curiosa quando ambas se apresentam juntas no ecrã. De personalidades tão distintas, mas com uma astúcia e paixão comuns, as detetives conseguem unir esforços para ocupar, com sucesso, um espaço que, na maioria dos casos no passado, coube a personagens masculinas. Pegando nos exemplos recentes de True Detective ou Mindhunter – que se tivessem um progénito, seria Unbelievable – o papel da mulher investigadora, outrora remetido para segundo plano ou omitido da narrativa, prevalece sobre a emancipação policial masculina.

Esse facto acaba por beneficiar o conteúdo do enredo e ajudar a mini-série a diferenciar-se num segmento tão saturado. Ainda que possa ter gerado alguma relutância em seu torno, o argumento de Unbelievable prova ter capacidade de pautar o seu ritmo e de se adaptar às circunstâncias da trama, sem reciclar enredos utilizados noutras produções. A forma como é construído permite criar grande antecipação e suspense, onde novos factos surgem em catadupa mas sem se solucionarem de imediato. Tal acaba por cativar a audiência e agarrá-la desde o primeiro instante, movida também pela empatia criada com as três protagonistas minuciosamente construídas. A verdadeira Marie “Adler” inclusivé elogiou Kaitlyn Dever pela sua performance ao transparecer todo o sofrimento pelo qual passou enquanto o caso não fora resolvido.

Em termos estéticos, mesmo que, em certas ocasiões, a imagem e realização não sejam das mais irreverentes ou inovadoras, conseguem espelhar bem os estados de espírito das personagens e a tensão da narrativa. Das já referidas séries, quer True Detective, quer Mindhunter destacam-se pela cinematografia que imprimem em cada segundo de filme – e, se fosse fazer uma pesquisa intensa, encontraria outras séries policiais que compensam na fotografia aquilo que não consegue realizar no argumento. Talvez por razões orçamentais muitos dos enquadramentos de Unbelievable não sejam inesquecíveis – mas cumprem o objetivo de transpor sentimentos para o público em dados momentos, como referi.

No entanto, há que salientar que a série não se trata de um mero policial, de um simples caso de mistério que se propõe a resolver-se numa brevidade de horas. Unbelievable vai mais além e procura esmiuçar a luta interna de uma vítima de abusos sexuais, a dor que esconde no silêncio e a superficialidade da aparência. O público reconhece uma nova sensibilidade ao passar pelo quotidiano de uma vítima, que tenta pegar nos cacos partidos pelo chão e colar a sua vida normal, novamente. Este fator, na minha opinião, beneficia sempre qualquer série, quando acrescenta um cariz de informação ao seu papel de entretenimento.

Unbelievable pode não ter recebido o hype que outras séries viveram aquando da estreia, mas merece todos os aplausos pelo conteúdo da mensagem que transmite. Consegue afirmar-se e nutrir originalidade onde muitos se perdem pelos dogmas da rotina e do copy-paste. Reflete sobre a precariedade humana e a pressão a que estamos sujeitos e demonstra que não é preciso ter dois homens detetives para que a narrativa tenha sucesso – salientando o renascer da importância da mulher na indústria cinematográfica.

REVER GERAL
Unbelievable
8.5
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Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)