5.0
Médio
Cinema / TV Destaques

Análise a ‘Velvet Buzzsaw’

Críticos, curadores e pintores vêem-se assombrados por umas lúgubres pinturas de um intrigante artista que prometem castigar aqueles que colocam o egoísmo à frente do altruísmo. Este é o mote de Velvet Buzzsaw, novo filme de Dan Gilroy, realizador do aclamado Nightcrawler, que lança um olhar crítico ao estado da arte moderna. Com estreia internacional no Festival de Sundance, em finais de Janeiro, e disponível na plataforma da Netflix desde o início deste mês, conta uma vez mais com as colaborações de Jake Gyllenhaal e da sua esposa, Rene Russo.

Como em qualquer circunstância, as primeiras impressões têm sempre grande impacto nas pessoas. Dan Gilroy não usufrui dessa premissa para poder acomodar a audiência ao seu ambiente inconvencional e desde cedo apercebemo-nos que não será uma estória fácil de se gostar. Somos introduzidos às diversas personagens num ritmo rápido que impossibilita a assimilação da maioria das suas características ou motivações. Mesmo que seja percetível a transversalidade da ambição e da ganância, a quantidade de informação veiculada torna difícil de a processar.

O grande número de protagonistas parece ter causado dificuldades a Gilroy em encaixá-los na narrativa, havendo um claro desequilíbrio na sua utilização. Certas personagens surgem por conveniência e os propósitos de algumas não são suficientemente esclarecedores para quem está em casa a acompanhar o filme. Não há relevo e o desenvolvimento é mínimo. Exemplo disso é Piers, um desencantado artista que aparece a espaços, sem grande contribuição para a trama, e cuja interpretação de John Malkovich é desaproveitada.

Também a oscilação entre cenas e planos vinca a irregularidade do filme. Pequenos trechos do enredo são introduzidos nos diálogos para colmatar as suas ausências do campo de ação, o que dificulta a compreensão do espaço temporal nele percorrido. Dá a sensação que a estrutura criada no argumento se desintegra completamente quando é transposta para o guião, tentando Gilroy remendá-la com aquilo que apelido de um penso rápido sobre um brecha numa parede de betão. O mesmo se sucede com os planos, onde se denota um certo comodismo na realização e fotografia, pouco arrojadas para testarem uma estética própria que se alie ao tema central da arte e ao género sobrenatural/terror.

Pese embora os aspetos menos positivos de Velvet Buzzsaw, há que tirar o chapéu à sua originalidade e à forma como explora o lado mais vil da arte. Apesar de uma clara falta de organização, o mistério em torno das pinturas que conduzem a mensagem do filme mantém o interesse do público em saber o seu desfecho. Com algumas nuances entre sátira e horror, aproxima-se mais de um Get Out do que propriamente um Hereditary. Não assusta totalmente, mas deixa os nervos à flor da pele graças ao modo como Dan Gilroy gere o suspense – algo que já fizera com mestria em Nightcrawler.

A criatividade irreverente de Velvet Buzzsaw não é suficiente para salvar uma narrativa que nunca recupera de um arranque turbulento e não consegue beneficiar do talento do elenco para confirmar o seu potencial. As ideias de Dan Gilroy são interessantes, mas a sua desarrumação traduz-se numa execução pálida e murcha. Ainda assim, o carácter satírico entretém quanto baste e o constante clima de tensão pode agradar a uma audiência muito particular.

5.0
Médio

Velvet Buzzsaw

A expressão "muita parra, pouca uva" assenta aqui que nem uma luva.

Pros

  • Originalidade

Cons

  • Narrativa desorganizada
  • Elenco mal aproveitado
A escrita, o cinema e a Netflix são o norte deste rapaz que procura não se perder no Mestrado em Gestão de Marketing.
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